Estrangeiros no momento
2003-09-29
 
O espectro do bacalhau
Diz o André que o Bacalhau à Zé do Pipo é um prato "de direita". Creio que tal opinião carece de fundamento, e fui investigar a origem da receita. De acordo com essa Bíblia da Cozinha Portuguesa (e um precioso auxiliar do meu doutoramento - deveria tê-lo incluído na bibliografia da tese) que é a compilação Receitas de Todo o Ano, do Pingo Doce, temos "que a receita do Bacalhau à Zé do Pipo tem origem nas inspirações gastronómicas das gentes do Norte, parece que é ponto assente, agora quem de facto é este Sr. Zé do Pipo, é que não conseguimos apurar. Fiquemo-nos, pois, com as sugestões do nosso Eça e imaginemos o criador desta delícia como mais um português bigodudo, de fartas falas e gestos, e com uma paixão desmedida pelo fiel amigo. Vendo bem, não é este um bom retrato da generalidade dos portugueses?"
Nada daqui permite concluir que o Zé do Pipo seria de direita. Na verdade, o nortenho Bacalhau à Zé do Pipo, o lisboeta Bacalhau à Brás e o minhoto Bacalhau à Braga parecem-me ser pratos populares, pela maneira como estão difundidos e pelo tipo de ingredientes. E sobretudo pelo nome dos seus autores. Um tipo que é conhecido como "Zé do Pipo" não pode ser de direita! De facto a maionese é um ingrediente burguês, e nem sequer genuinamente português, pelo que desconfio que o Zé do Pipo deveria ser o cozinheiro de alguma boa família portuense, para ter acesso a ela. Tal como a feijoada era originalmente uma combinação de restos de carne seca com feijão, para alimentar os escravos, ou a Roupa Velha, desconfio que o Bacalhau à Zé do Pipo, pela misturada de que é composto, deveria ser um prato de aproveitamentos feito para os criados da casa comerem, a partir de restos de bacalhau e batatas, a que se juntava a maionese já velha, antes que se estragasse.
Um bacalhau misterioso é o à Gomes de Sá. Pelos ingredientes é seguramente um prato popular, e é um dos bacalhaus mais difundidos e conhecidos internacionalmente. Em Manhattan, num restaurante brasileiro/português chamado Cabana Carioca, pode comer-se um buffet de Gomes de Sá por $5.95+imposto. Também é um prato nortenho. A minha dúvida quanto ao seu carácter democrático deve-se ao nome do seu criador. Um tipo conhecido como "Gomes de Sá" não podia ser de esquerda. Se era um cozinheiro, era mais um exemplar dessa triste espécie que são os proletas reaças. Mas para uma análise mais completa precisava da minha teoria que permite identificar se uma pessoa é de esquerda ou de direita pelo seu nome, algo que ando a prometer desde os meus primeiros tempos no Blog de Esquerda. Fica para outra altura, e fica este bacalhau em aberto, tal como o com natas. Por agora, André, convence-te que bacalhaus de direita são de certeza aqueles com nomes de restaurantes que a esquerda jet-se7e (João Gobern, Pedro Rolo Duarte...) gosta de frequentar: à Espiritual, à Conventual... FM


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