Estrangeiros no momento
2003-10-31
 
Finalmente...
...conheci o Zé Mário e o Pedro Mexia, no encontro sobre blogues de ontem. É estranho conhecer pessoalmente aqueles com quem se tem andado a falar nos últimos meses, e a ler nos últimos anos. Mas já tinha visto fotografias deles, e a imagem que fazia não era muito diferente da real. Espero vê-los mais vezes. FM
 
Injustiças
Várias injustiças foram cometidas nos meus últimos textos. Desejo aqui repará-las.
1 - A edição do DNa do fim de semana passado foi muito boa. Entrevista ao Prof. Marcelo, depoimento do Pedro Adão e Silva... Sinal menos para o espaço extra dedicado à moda, o Eduardo Barroso e a falta da crónica do Vargas Llosa. (Estas duas últimas são usuais.) Lembram-se do que o Pedro Rolo Duarte escreveu? "As crónicas do Vargas Llosa não foram publicadas durante o intervalo das férias", qualquer coisa como isto. Por onde andará a esquerda jet-se7e a passear agora?
2 - O Pedro Mexia garantiu-me que o seu encontro com o Vargas Llosa foi casual, na Casa Fernando Pessoa. Nada a ver com "os amiguinhos do costume", portanto.
3 - Tenho de reconhecer que tenho saudades de um certo Halloween. Não do de Long Island, onde eu vivia, um subúrbio que não poderia ser mais desinteressante. (Mesmo assim, tinha a sua graça ver as casas, das mais ricas às mais humildes, todas decoradas com monstros, bruxas, duendes e abóboras, a sua maioria de plástico.) Mas em Manhattan... daqui a umas horas começa a Parada Anual de Halloween, e hoje a noite na Village (especialmente sendo sexta-feira) vai ser animada.
Também tenho saudades das tartes de abóbora que nesta altura se vêm por todo o lado, e que os meus vizinhos, também estudantes como eu, fizeram há dois anos, depois de terem decorado a casa a preceito. Vá-se lá entender os americanos, que do conforto do lar e das festas de família facilmente passam a bombardear inocentes.
Bom Halloween para todos. FM
 
Regresso à normalidade
Acabaram-se os serviços mínimos. Estou de volta. Alea jacta est ou, como dizem os franceses, le sort en est jeté. FM
 
Tricky treat
Ainda em serviços mínimos, mas atendendo à data, desenterro um texto escrito e enviado a amigos há precisamente três anos. Não perdeu muita actualidade.

"Este é o fim de semana de antes do Halloween (pessoal de Inglaterra: vocês aí também têm Halloween?).
Custa-me a compreender o Halloween. Custa-me a compreender como é que a nação mais poderosa do mundo consegue ser tão infantil! O Halloween, para mim, é a demonstração cabal da infantilidade e irresponsabilidade do povo americano. Consigo compreender os putos e o "tricks or treats" (os meus senhorios que os aturem, porém - ainda bem que moro numas traseiras), por serem putos. Agora, os adultos, já me custa mais. Adultos, é como quem diz... São coisas como o Halloween que me fazem pensar se existe tal coisa como americanos adultos.
Ao menos o Carnaval, que se pode comparar ao Halloween, é uma festa com um significado que consigo entender. E foi e é cantada pelo Chico Buarque... Basta-me ouvir o "Vai Passar" para compreender tudo sobre o Carnaval. Talvez se o Chico mo explicasse, eu conseguisse compreender o Halloween. Talvez algum de vocês me consiga explicar...
Entretanto, fico a pensar se devo aderir às festas ou não. Será que devo arranjar uma fantasia de Drácula e esquecer o Kosovo ou o Médio Oriente? Será que devo procurar divertir-me e esquecer isto tudo? Vou tentar descobrir o que os americanos de esquerda pensam sobre isto e depois conto-vos, se estiverem interessados. Se não estiverem, conto na mesma.
Só um povo que festeja o Halloween é que pode ter um candidato presidencial como o George W. Bush. Ao fim e ao cabo estou-me para aqui a armar, e as notícias do dia no europeu Portugal, mesmo nos jornais sérios, têm a ver com o "Big Brother". George W. Bush, Big Brother, são farinha do mesmo saco. São genuinamente democráticos. São o que o povo quer. E é isso que me angustia, e ir às festas do Halloween não me vai ajudar nada.
Pode ser... " FM
2003-10-30
 
Mais serviços mínimos
Vão lendo também o Cipriano Justo. FM
 
João Carlos Espada e a Constituição Europeia
João Carlos Espada (JCE) tem lamentado, na sua coluna social do EXPRESSO, e com uma insistência só comparável à de Karol Wojtyla, a ausência de uma referência à “tradição judaico-cristã” no projecto de Tratado Constitucional da União Europeia. Esta obsessão extravagante de JCE poderá surpreender à primeira vista, por jamais se ter registado tamanho empenho na defesa de uma referência à “herança cristã” na Constituição portuguesa (tantas vezes revista), e por ser muito duvidoso que uma tal referência preambular, por si só, facilitasse o «Renascimento Católico» que JCE visivelmente deseja.
No entanto, o centrar da discussão - fomentado pela Igreja Católica - na referência histórica do preâmbulo, tem servido como uma eficaz cortina de fumo que obscurece outros aspectos - mais gravosos - do Tratado Constitucional da União Europeia. Designadamente, o artigo 51º da parte I preconiza o “diálogo aberto, transparente e regular” com as “Igrejas e associações ou comunidades religiosas”, “no reconhecimento da sua identidade e do seu contributo específico”. Instaura-se assim um regime europeu em clara violação do princípio de Laicidade, e que visa garantir às Igrejas (particularmente à Igreja Católica, predominante no continente europeu) um direito de intervenção no processo legislativo europeu em matérias como a contracepção, a família, as uniões de homossexuais, ou as pesquisas biomédicas...
JCE deveria portanto regozijar-se com um Tratado Constitucional que confere amplos privilégios institucionais às Igrejas, ao invés de lamentar tão amargamente a ausência de uma referência preambular que seria meramente simbólica. (Ricardo Alves)
2003-10-29
 
Serviços mínimos
Por afazeres profissionais, não tenho podido escrever para o blogue que tem estado, assim, em "serviços mínimos", uma expressão de teor deliciosamente grevista utilizada frequentemente pelo "canhoto" Pedro Mexia. Espero voltar ao normal até ao fim desta semana. Até lá, pode ser que o André e o Rui, dois rapazes normalmente ainda mais ocupados do que eu tenho estado esta semana, vão escrevendo. Para não ficarem sem ler, têm também a entrevista do Vargas Llosa ao DN. FM
2003-10-25
 
O "K" nas coisas
A propósito de simetrias, e dos prazeres de reconhecer noutras partes outras partes já conhecidas.

AG, não fostes o único a reconhecer no "Dancer In the Dark" do Lars Von Trier o "América" do Kafka. Eu também conheço o prazer posmoderno deste tipo de reconhecimentos, creio é que não se deve a uma questão de egos (no meu e no teu caso), mas tão somente ao prazer primordial dos encontros felizes. Encontrar pessoas com quem nos identificamos, e entrar ou convidar a entrar na "tribo". Aliás o elemento da "tribo", Kafka, reconhece-se em muitas partes. É o destino das sensibilidades absolutamente originais: serem universais depois de mortos.

Eu ainda me lembro da primeira vez que li "Crónica de uma morte anunciada" do Gabriel García Marquez. O estrecimento que tive quando li a primeira frase... Percebi imediatamente que era um roubo-mescla do inicio do "Processo" e da "Metamorfose" de Kafka, mais um detalhe sobre a chegada de um bisbo num barco tipícamente marqueziano. Era um adolescente-quase-adulto e lembro perfeitamente do carinho que ganhei ao Gabo com este livro (entre outras coisas profundamente geométrico), ao reconhecer num escritor sul-americano-barroco-plateresco a influência profunda de Kafka. Acreditava eu que além de mim só o próprio Gabriel sabia disso...

Mais tarde li nos ensaios do Kundera, a denúncia do crime: GGM haveria dito a Kundera que foi com Kafka que ele aprendeu que se podia "escrever de uma forma diferente".

E mais recentemente num documental sobre GGM, o próprio dizia exactamente o mesmo numa entrevista. Mais específicamente, dizia que havia caído da cama (dando a entender que havia sido literal...) ao ler as primeiras palavras da "Metamorfose" de Kafka, a que ele tinha tido acesso por acaso. GGM situava esta leitura como havendo sido a mais importante. Ficando provado que as sementes do realismo fantástico sul americano estão em Kafka.

É engraçado que um físico (como nós?????, tamanha e absurda arrogância), Albert Einstein, tenha dito a Thomas Mann(que parece que era vizinho de Einstein em EUA e lhe havia emprestado não sei qual livro, mas advinho que seja o "Processo"...) depois de ler Kafka, um comentário despreciativo tão estúpido como "a mente humana não pode ser tão complicada". É curioso também que Thomas Mann ao que parece se deslumbrou com Kafka sem nunca chegar realmente a gostar... E isso é realmente o que eu mesmo sinto em relação a Kafka, e por outra parte adoro Thomas Mann. Não me peçam para explicar porquê... mas creio que Kafka entenderia perfeitamente, ou mais, contava com isso.

Sobre Lars Von Trier creio que é consensual entre todos "os estrangeiros" que é provávelmente o realizador europeu mais importante em activo. Mas a força da sua sensibilidade em minha opinião é precisamente oposta a de Kafka. Kafka é um escritor do invisível, e do insondável. Precisamente por isso Kafka é quase intransponível para o cinema. Por mais que alguns valentes o tenham tentado. Aquilo de que ele fala "não se vê".

A melhor aproximação ao mundo de Kafka em minha opinião vem de David Lynch. Em particular me lembro de muitas coisas de "Lost Highway" que me pareceram tiradas de Kafka (o mais provável que inconscientemente, há poucas coisas em Lynch que sejam feitas conscientemente...): os dois polícias que investigam o estranho crime me pareciam os dois mandados que espiam a vida de K em "O Castelo", ou com os dois "bandidos" que em "America" atazanam a vida do jovem emigrante perdido nos arredores de Nova Yorque; o assassino de sua mulher que se desperta depois de um sonho mais que agitado como adolescente tem muito da "Metamorfose"; a representação ambígua da mulher tem algo da forma misteriosa como as mulheres aparecem nos livros de Kafka, só que muito mais radicalizado no caso de Lynch. Inclusive a "mania de perseguição" ou os ciúmes do personagem principal em Lost Highway é de alguma forma Kafka em si mesmo. Muitos pequenos detalhes que eventualmente são imaginação da minha cabeça ou talvez não, sejam realmente fruto do processamente subconsciente de Kafka na cabeça de Lynch.

De qualquer forma Lynch trabalha sobre a parte que em Kafka é a mais visível, que é a onírica. E através dela Lynch tal como Kafka chega à verdade do mundo que "não se vê". Já está claro que para mim Lynch é o maior realizador vivo ( e já não digo "europeu em activo" como disse no caso do LVT). Aquilo que para mim é um problema com Trier, é a sua ingenuidade. Caricaturizando, é como se Trier fosse Beatles(que eram europeus se bem que não parecessem) e Lynch, Velvet Underground (que eram americanos - esquecendo Cale - se bem que não parecessem). É curioso que agora mesmo o maior realizador europeu tenha um cinema mutisissimo mais ingénuo que o maior realizador americano... De qualquer modo para mim o filme mais perfeito e acabado de LVT é "Os Idiotas", que aliás me parece ser aquele onde a ingenuidade do olhar dele está mais á vontade.

As simetrias do nosso gosto nos permitem viajar de referência em referência, infinitamente...

Por falar nisso, vou também fazer-vos uma sugestão. Vejam "People I Know" de James Foley com Al Pacino. E depois revejam o "Eyes Wide Shut" do Kubrick. Eu acabei de ver o primeiro em DVD, e ainda não revi o segundo mas tenho a sensação de que no futuro quando os "críticos cinéfilos" se refiram a um (seguramente o de Kubrick), terão que ter o outro na algibeira (o mais modesto de Foley). O facto de no segundo termos um realizador várias vezes menos genial que no primeiro é compensado por termos no segundo um actor várias vezes mais genial que o ex-casal do primeiro juntos. Mas os dois nos falam da métropole actual, da sua amoralidade. De um final de milénio amoral e claustrofóbico e, acima de tudo da tristeza que esta amoralidade traz consigo. E esta claustrofobia parece ficar reflectida nos próprios filmes de uma maneira tão profunda que não nos deixa espaço para gostar deles sequer, só nos deslumbrar. Esse não amar deslumbrado se parece bastante com o que sinto por Kafka. RF
2003-10-24
 
A carta do Sr. Procurador
O bastonário da Ordem dos Advogados, José Miguel Júdice, recebeu uma carta privada do Procurador Geral da República, Souto Moura, tendo posteriormente estranhado que partes da tal carta tenham vindo a público. É normal, sr. bastonário: o sr. Procurador é que é o homem do segredo de justiça, e talvez seja essa a classificação das cartas por ele escritas... FM
 
Moda DNa
Mais uma edição do Moda Lisboa. Mais um fim de semana em que o DNa, provavelmente, não terá nada que ler. Mas disto é que o Pedro Rolo Duarte gosta...
Entretanto, no fim de semana passado a crónica do Vargas Llosa sobre a eleição do Schwarzenegger, que na "Caretas" veio a 9 de Outubro (ler aqui), ficou por publicar. Ontem a Judite de Sousa referiu na entrevista esta crónica, como já antes tinha referido António José Teixeira num artigo. Mas os leitores do DNa que esperem! Os trapinhos da esquerda jet-se7e é que são publicados sempre a horas... Voltámos ao mesmo! FM
 
Os «amiguinhos» do costume (um desabafo cheio de inveja)
Responde-me o Nélson de Matos: "Obrigado pelo seu interesse." (Uma expressão feita com que eu embirro, e um dia explicarei porquê.) "Vargas Llosa não quis fazer sessões públicas, mas apenas com a comunicação social." Enfim, é lá com ele. Poucas pessoas gostariam tanto de trocar duas palavrinhas, ou pelo menos um aperto de mão (sim, e pedir um autógrafo...) com Vargas Llosa como eu. Tive de me contentar a vê-lo, à noite, ser entrevistado pela Judite de Sousa. Ouvi-lhe a voz, fiz uma imagem dele que não tinha, e já foi melhor do que nada. Mas eis que concluo que os amiguinhos do costume tiveram melhor sorte. OK, são "do meio", são poetas, são críticos literários, são jornalistas. Mas bolas.
Também é por estas coisas que eu sou de esquerda. FM
2003-10-23
 
Blog-brother
Uma tira recente de Angeli:

"Que bacana! O vídeo blog da Luke e Tantra já está no ar.
- Oi, galera! Eu sou a Luke!
- E eu, a Tantra!
- Vamos falar de nossas vidas, das coisas que gostamos...
(Nisto, chega o Mosca:)
- Aê, minas! Quitá rolando?
(Luke conclui:)
- E seja o que Deus quiser!
(O Mosca pergunta:)
- Sexo ao vivo na internet? Posso tirar as calças?"


Eu, blogger, pergunto: serão os blogues uma alternativa intelectualizada ao Big Brother? Não partilharão, muitos bloggers e muitos participantes nos reality-shows, simplesmente o desejo de se exporem? FM
 
Se sei, não deveria saber
Não falo sobre o teor das escutas telefónicas, pois considero sobretudo que não deveria saber nada sobre isso. Trata-se de segredo de justiça. Se sei algo, se li na imprensa ou ouvi na televisão, não deveria ter sabido. Para mim, neste momento, o mais importante é determinar como é que esta informação veio a público.
É isto que tenho ao dizer sobre este caso. FM
2003-10-22
 
Direit(a)o
Noticiam as televisões que, ontem, todas as Faculdades públicas em Lisboa aderiram à greve dos estudantes do Ensino superior, excepção feita à de Direito da Universidade Clássica. Uma passagem rápida pela blogosfera permite perceber porquê. Afinal, não é dessa mesma faculdade que provém este Pedro? Tal como este, aliás, apesar de não vestir tanto essa camisola. FM
 
Vargas Llosa em Portugal?
Noticia o DN que, para lançar o seu mais recente livro "O Paraíso na Outra Esquina", Mário Vargas Llosa se encontra em Portugal. Mais nenhuma informação. Algum leitor poderia indicar-me como o encontrar? FM
 
Será mesmo da simetria?
André, se um bom conservador como o Pedro Lomba te lesse, diria que isso não é simetria, é respeito pelas tradições, conservadorismo, ou como diriam os brasileiros quadradice...
Eu, que nada tenho contra o respeito às boas tradições e não me considero conservador, chamar-lhe-ia antes saudosismo, que é uma coisa diferente. Quanto ao América, passou a ser mais um livro para eu ler... FM
 
Clinton em Portugal
O Terras do Nunca, como eu (apesar de lá não ter estado), ficou divertido (eu fiquei também um bocadinho perplexo): então não é que quem convidou Clinton foram os maiores bushistas cá da praça? Até o Luís Delgado, hoje, escreve um artigo carregado de elogios ao Clinton! FM
 
Amerika
Um aspecto muito curioso do Dancer In The Dark de que nunca vi nenhum crítico de cinema falar, é o facto de ser uma releitura óbvia do America do Kafka (Selma não é checa por acaso). Se calhar os críticos de cinema lêem pouco. Ou talvez não, o América é um livro obscuro e inacabado, tão duro, tão angustiante... (E não faz parte do template de referencias-literárias-obrigatórias-para-um-crítico-de-algibeira como O Processo ou a Metamorfose).
Não que me esteja a vangloriar de uma particular clarividencia, simplesmente reperarei porque li o América (quase por acaso, há muitos anos, numa edição de bolso das antigas da Europa-América [bolas, até o nome da editora é premonitório... pero que las hay, hay]).
A ligação entre os dois é tão forte que ao ver o filme quase uma década depois, com o livro esquecido num recanto poeirento da memória, saltou logo à ideia... Kafka, Kafka, Kafka. Se não tivesse lido não teria reparado, o que não faria diferença absolutamente nenhuma, aparte de um ligeiro aconchego ao ego.

O solo final no cadafalso a cantar "new world" é o apogeu da carreira da Bjork, tudo o que veio antes ou depois se torna irrelevante. Esperemos que não o seja para o Lars von Trier.

O Dogsville... bem, só me resta roer de inveja porque aqui só estreia em Fevereiro, a não ser Filipe e Rui, que vocês o queiram ir rever lá por alturas do natal, como fizemos com este há 3 anos, na altura era eu que estava a ver pela segunda vez.
Um pouco de simetria é sempre reconfortante para um físico. AG
2003-10-21
 
Dancer in the Dark
Revi ontem, na SIC Radical, o excelente filme de Lars von Trier, que tinha visto com o André e o Rui, numa das últimas vezes em que estivemos todos juntos.
Não tenho pinta de crítico de cinema e nem gosto de me meter em assuntos que não domino bem. Mas aquele é um filme admirável. Deixando de lado os aspectos técnicos da realização, destaco a notável interpretação da Bjork, que não será necessariamente uma grande actriz mas que tem aqui um papel feito à medida para si. E a mensagem do filme, acima de tudo um manifesto anti-pena de morte. E uma boa mensagem para todos aqueles, imigrantes e não só, que vêem a América como um paraíso na terra. É claro que tudo o que se passa no filme poder-se-ia passar noutros países, as esses, justamente, não são vistos como paraísos...
Uma imagem fortíssima: após a personagem de Bjork, uma imigrante checa nos EUA, ter sido roubada pelo seu próprio vizinho (que lhe tirou todo o dinheiro de que dispunha, e que guardava para curar o filho de uma progressiva perda de visão hereditária, de que ela própria sofria), vê-se a imagem da casa e um poste com a bandeira americana. Afinal, o vizinho de Bjork era um polícia e um cidadão exemplar. Na altura em que o filme foi exibido, após o 11 de Setembro, viam-se bandeiras em praticamente todas as casas e carros, e quem não as usasse era olhado como um "mau patriota". As mensagens "God Bless America" vinham até nos recibos de supermercado!
São estes os "bons", os polícias do mundo. É para isto que milhões de desgraçados anseiam com este país?
O filme repete, no Sábado e no Domingo, também na SIC Radical. Recomendo vivamente... e tenho de ignorar os conselhos do João Miguel Tavares, fiar-me antes na direita libertária do Eurico de Barros e ir ver o Dogville. FM
 
O que é que tem o Barnabé?
Tem material muito interessante para ler e duas capas da Time que vale a pena recordar e comparar. FM
2003-10-20
 
Snobford
O que posso dizer, ó vetusto Filipe.
Os fins de semana em Oxford têm destas coisas.
A mim fazem-me apreciar melhor o prazer de andar de metro.AG
 
Filipe em crise
Até pelo linguajar, já devem ter-se apercebido de que estou em crise criativa. A primeira após um mês de blogue. Mas vai passar depressa. Gostaria de ser como o Angeli, que nestas alturas desenha umas bandas de uma vinheta só, completamente surrealistas. FM
 
Diarreia mental
Nesta altura é tudo o que me apetece dizer. Em lugar dos costumeiros "p.q.p." ou "quero que se fodam". Estou-me cagando, estou-me cagando, estou-me cagando. O pior é que nem estou. Tudo é muito grave. FM
 
Ó-que-se-fode
Fui um leitor diário da Coluna Infame desde o princípio deste ano, pelo que desconhecia a sua origem. Vim agora a saber, pelo Pedro Lomba, um dos seus membros, que este blogue foi criado há pouco mais de um ano, num fim de semana em... Oxford. E esta, hein? Depois de Vasco Pulido Valente, João Carlos Espada e outros que tais, o blogue que se tornou nos primeiros seis meses deste ano a Bíblia do conservadorismo indígena também provém da vetusta Universidade. Como comentas, ó André? FM
2003-10-17
 
Qual tradição académica?
Segundo o Público, está-se a realizar no Porto,pasme-se, o segundo congresso de tradição académica?!!
Não fossemos nós julgar que se tratasse de um congresso para discutir a história da pedagogia ou da investigação cientifíca, eles clarificam, aparentemente discutem-se assuntos tão importantes como: "a Queima das Fitas, a Latada ou as serenatas", bem como a conspiração anti-praxe por parte de "uma força multilateral que pretende acabar com a praxe académica, composta por várias pequenas forças, umas políticas, outras invejosas e outras com outro cariz qualquer".
Existe até um indiví­duo,Américo Martins, com o título pomposo de Dux-Veteranorum (talvez o mais apropriado fosse Asinus Rex) que é a personagem com mais inscrições na Univ. do Porto e que foi eleito pelo Conselho de veteranos (Concilium asinorum?) que é constituido pela excelsas criaturas que acumulam mais inscrições que a duração dos seus cursos. Pelos vistos o Governador Civil do Porto (Praetor Caprinus Maximus?) veio dar uma mãozinha e considerou a praxe "uma tradição que contribui para que os novos alunos passem a ter convivencia com os demais, para não se sentirem perdidos nos corredores das faculdades". Ou seja, o senhor governador faz como o seu congénere,governador da Judeia.

Para mim é simples, há que lidar com a praxe como uma questao meramente judicial: a coacção, o sequestro, a agressão e a extorsão presumo (posso estar enganado) que sejam crimes contemplados no codigo penal.

Não é preciso ser sociólogo ou psicólogo para perceber que o mecanismo psicológico que está por trás do comportamento praxista é exactamente o mesmo que está na na génese do hooliganismo, dos progroms, das caças às bruxas, da ascenção do fascismo italiano e alemão,da revolução cultural, etc, etc. O praxista é um camisa castanha em potencial,um inquisidor-mor em part-time. (até já têm um Duce)

A esses senhores "dótores" marialvas q vestem de luto e acham que academia é copos, hierarquias saloias e latinórios de seminarista só me ocorre dizer uma coisa: "fornicatis vos stercorum meretrix filii"
AG
2003-10-16
 
Os Privilégios e a Universidade
Frequentemente não estou de acordo com António Barreto, mas não é o caso deste artigo, com o qual concordo totalmente. FM
 
A pedir chuva
Para quem não percebeu o fim da última entrada: refiro-me ao João Miguel Tavares e ao seu último texto. Será que o João nunca ouviu falar numa disciplina chamada Religião e Moral?
Em resposta a este texto, sugiro mais uma carta do Ricardo Alves. Foi escrita a pensar no César das Neves mas aplica-se ao texto do João na perfeição. FM
 
Quem anda à chuva molha-se
Coloca o João Morgado Fernandes, do Terras do Nunca, uma velha questão: qual a melhor maneira de evitar os pingos de chuva? Andar calmamente ou correr?
O blog dos antigos alunos da LEFT não poderia deixar de responder. João, tal depende se a chuva vem de frente (contra si) ou de trás. Isto é, se circula contra ou a favor do vento. No primeiro caso, o melhor que tem a fazer, de facto, é correr o mais depressa possível. No segundo, a solução que minimiza as colisões com as gotas de água (e, portanto, a sua molha...) é andar à mesma velocidade da chuva, ou seja, andar à velocidade do vento.
Para um estudo deste tipo de questões da Física do quotidiano (esta questão é uma das centenas que são abordadas) sugiro ao João e a todos os leitores o melhor livro de "Física para o Povo" (sem desprimor, e desculpem se pareço elitista) que alguma vez me passou pelas mãos: O Grande Circo da Física (o título original, bem monty-pythoniano, é The Flying Circus of Physics with Answers). O autor é Jearl Walker e a edição portuguesa é da Gradiva. Este livro foi uma das mais fortes razões que me levaram a estudar Física.
Aproveito ainda para pedir ao João para dizer ao seu coleguinha crítico de banda desenhada que saber responder a este tipo de questões é muito mais importante para a cultura geral de qualquer pessoa do que a leitura do Evangelho. FM
 
Também quero
Aproveito para denunciar e lamentar, muito seriamente, a parcialidade demonstrada pelo Sporting ao ter convidado o ex-ministro Pedro Lynce para acompanhar a equipa de futebol. Depois da sua passagem nada memorável pelo governo e do estado em que deixou o ensino superior e a ciência, não vejo motivo para Lynce merecer tal tratamento. Surpreende-me ainda mais esta atitude vinda do Sporting, cuja Direcção não é conotada com este governo. Sugiro que as próximas manifestações antipropinas passem à porta do Estádio de Alvalade.
Na Suécia, Lynce terá dito que "é sportinguista desde pequenino". Se é esse o critério, para a próxima eliminatória, e para manter a neutralidade, quero ser convidado a acompanhar a equipa. FM
 
Presidente, só antes de beber
Do ainda presidente do Benfica, diz-se que não se deve dar crédito ao que o senhor diz depois do almoço. Pelos vistos, do actual vice-presidente do Sporting pode dizer-se o mesmo... depois do jantar. É ocasião para dizer: Filipe Soares Franco foi mais vilarista que o Vilarinho. FM
2003-10-15
 
Le rouge et le rouge
Pois é, eu esqueci-me de mencionar que os carrinhos em questão eram encarnados de um encarnado que está muito longe de ser vermelho, mas (consciente ou inconscientemente) para bom entendedor meia palavra bastou. A autocrítica faz o bom comunista.
Para que não fiquem mal entendidos,deixa-me confessar-te Filipe, que eu ainda hoje gosto muito de brincar com legos...AG
 
Desporto e competição
Passando ao lado da questão do André (não sem lhe dizer que só me comecei a interessar por Fórmula 1 na adolescência, e que esta "brincadeira com carrinhos" mete muito dinheiro), cheguei à conclusão de que todo o desporto, toda a competição, é necessariamente de direita. Não há justiça social que valha no mundo da competição. Basta ver o entusiasmo que há por praticar desporto (não me refiro a desportistas de sofá) nos países naturalmente conservadores (Inglaterra, EUA, mesmo a Austrália, apesar de ser um caso à parte). E por todo o tipo de jogos.
Eu dedico-me quando posso, e com todo o gosto, a um saudável exercício de levantamento de copos. E agora dêem-me licença, que tenho que ir ver o Sporting. FM
 
Citação
Por falar nisso, aqui fica, à parte, com o destaque que merece, uma frase do Caetano Veloso que eu subscrevo totalmente: "O meu maior adversário sempre foi o bom gosto." FM
 
Preocupações de uma apresentadora
Do debate, no programa "Prós e Contras", sobre as propinas, destacaria a participação da apresentadora Fátima Campos Ferreira. Quem terá convencido a Fátima da sua competência para moderar um debate sobre um tema sério como este? A Fátima é indicada para moderar debates em programas tipo "Bom Dia" ou "Praça da Alegria". Se não, atente-se nesta passagem. Perguntava o Prof. Tribolet por que razão haveria de ser o Ensino Superior gratuito, se a comida não era gratuita, se as roupas não eram gratuitas... A Fátima comenta: "pois não, e bastante jeito me dava..." FM
2003-10-14
 
Brincar com carrinhos
Entro no Blog, leio enternecido o post do Filipe já aqui em baixo deste. Penso no aconchego da minha sala de aulas da escola primária com paredes forradas de mapas com províncias que ja nao o eram e armários com sólidos geométricos de madeira. Não me lembro da data em que aprendi a fazer contas, sei que há 23 anos ainda andava a fazer picotados em papel de lustro no infantário de uma certa empresa pública.
Depois olho um pouco para baixo e saltam-me da mancha de texto as palavras Proust e Sena, iludo-me por um instante até ler ao lado Fangio e Lauda. Fico desapontado.
O menino precoce, que aos 5 anos tem a visão para perceber a importância do dia em que aprendeu a fazer contas, 23 anos depois ainda gosta de brincadeiras com carrinhos...Tsk Tsk AG
 
Efeméride pessoal
Faz hoje 23 anos que aprendi a fazer contas. Sei pois, na minha escola primária, a data estava todos os dias escrita no quadro. Ao copiá-la para o caderno, com as contas que a professora tinha passado e que eu tinha resolvido, nos meus cinco aninhos, quase seis, julguei que não deveria esquecer aquela data. Recordo-me sempre daquele 14 de Outubro de 1980, até hoje. FM
 
Schumi vezes 6
Conforme se previa, desde este fim de semana Michael Schumacher ganhou seis campeonatos mundiais e tornou-se o melhor piloto da história da Fórmula 1, sob qualquer critério que não seja o das pole-positions. Ao contrário dos nossos amigos do BdE, regozijo-me com o facto. Há que ter em conta que eu sou um tiffoso da Ferrari, dos que já estiveram em Maranello e tudo. E não há no desporto automóvel equipa que se compare ao fenómeno da Ferrari.
Será Schumacher mesmo melhor do que Fangio, Lauda, Prost ou Senna? Não se pode comparar, pois todos eles competiram em épocas diferentes. O próprio Schumacher, que não é propriamente modesto, reconhece isso; o que ele provou, julgo que claramente (por muito que isso custe ao Zé Mário) é que é o melhor da sua época, e só foi pena não ter tido, durante a sua carreira, um concorrente à altura (beneficiou, nesse aspecto, da morte prematura do Ayrton Senna).
Há no entanto dois momentos, nesta época de 2003, que definem o piloto e o seu carácter. O primeiro, em S. Marino, quando decide correr (e ganhou a corrida) logo após a morte da sua mãe. Schumacher corria em casa, teve todo o apoio do público, e ganhou, numa corrida que não deverá esquecer. Foi um momento decisivo do campeonato, quando se começava a duvidar da sua competitividade. E a verdade é que, contas finais feitas, tal decisão valeu-lhe mais um título - sem os pontos dessa corrida, não teria sido campeão.
O segundo momento, este sim, que define um campeão, ocorreu na Áustria. O que fariam, se estivessem dentro de um carro com o depósito de gasolina a arder? Eu julgo que saltaria imediatamente do carro, sem perder tempo. Schumacher, na boxe, permanece dentro do carro e parece dizer aos mecânicos "despachem-se e apaguem essa merda, que eu tenho que voltar para a corrida". Voltou, e ganhou. É o maior. Parabens, Schumi. FM
2003-10-13
 
Esquerda jet-se7e, DNa, Pedra de toque
À entrada do Coliseu, deparei com o representante máximo da esquerda jet-se7e, em pessoa: Pedro Rolo Duarte. Identifiquei-me, falei-lhe nas crónicas do Vargas Llosa, e ele respondeu-me que agora já não me poderia queixar, uma vez que as crónicas estavam de volta. Pois é, Pedro, só que não foram publicadas a horas... A deste fim de semana, sobre a morte de Sérgio Vieira de Mello, poderia ser lida aqui desde o dia 29 de Agosto. Mesmo assim, reconheço que é melhor do que não as ter. Se os assuntos perdem actualidade, a sua análise não. FM
 
Carlos do Carmo: o concerto
O concerto foi mais uma homenagem do que outra coisa, com as presenças de Jorge Sampaio no camarote presidencial e, no palco, de António Sala e Pedro Santana Lopes. Se Carlos do Carmo frequentemente se dirigia ao "seu presidente", pessoa de quem "gostava muito", foi notória a sua incomodidade ao partilhar o palco com Sala e Santana, que cumprimentou algo friamente, mas que lhe vinham entregar prémios de carreira e da Cidade de Lisboa.
Já de mau gosto foi o recurso a depoimentos gravados e exibidos num écran gigante. Tais depoimentos (e mesmo a atribuição dos tais prémios) justificar-se-iam mais num programa televisivo do que num concerto. Quiseram transformar o Carlos do Carmo numa unanimidade nacional, depois dos conturbados anos 70 em que cantava Ary dos Santos e Sílvio Rodriguez. Pessoalmente, preferia que fosse uma unanimidade menos unânime. A imagem que transparecia era a de um senhor muito respeitado e que hoje não mete medo a ninguém. Mas, afinal, o fado nunca meteu medo...
Falando de música, o concerto teve momentos muito bons, devidos principalmente à  presença da Sinfonieta de Lisboa e do guitarrista Ricardo Rocha, que mereciam mais atenção numa noite cujo principal motivo acabou por não ser a música.
Uma nota final, muito simpática, para o vinho do Porto, à discrição, para todos os espectadores, VIPs ou não, com bilhetes de plateia, camarote ou geral, um pormenor democrático que muito me agradou (para alguma coisa serviu tanto patrocinador), e que me fez sentir bem em Portugal. (Em Nova Iorque, no Lincoln Center ou no Madison Square Garden, a bebida também circula, só que paga a peso de ouro.) Na festa do Carlos do Carmo, e para além do Carlos do Carmo, enfim alguma coisa de esquerda! FM
 
Carlos do Carmo
Em homenagem ao Carlos do Carmo, aqui vai a letra da primeira música que me recordo de ouvir na minha velha infância. FM

Os putos

Poema de José Carlos Ary dos Santos
Música de Paulo de Carvalho

Uma bola de pano, num charco
Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr, um arco
O céu no olhar, dum puto.

Uma fisga que atira a esperança
Um pardal de calções, astuto
E a força de ser criança
Contra a força dum chui, que é bruto.

Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.

As caricas brilhando na mão
A vontade que salta ao eixo
Um puto que diz que não
Se a porrada vier não deixo

Um berlinde abafado na escola
Um pião na algibeira sem cor
Um puto que pede esmola
Porque a fome lhe abafa a dor.
2003-10-10
 
Da crítica da ciência à negação da ciência
O recentemente publicado "Da crítica da ciência à negação da ciência", de Jorge Dias de Deus (DD), é uma excelente contribuição para a polémica sobre pós-modernismo e ciência que tem sido alimentada em Portugal pelos livros de Boaventura Sousa Santos (BSS), e que teve um dos seus episódios mais violentos no livro "O discurso pós-moderno contra a ciência", de António Manuel Baptista.
DD admite sem dificuldade, logo no capítulo 1, que "não há ciência sem seres humanos que a façam, sem sociedade que enquadre essa actividade e sem ideologia que lhe assegure um papel social". No entanto, e deixando desde logo adivinhar o que o diferencia de BSS, DD vai avisando que a ciência moderna "contribuiu decisivamente para a criação do Estado laico e para o estabelecimento do princípio da liberdade de pensamento", sublinha que existe "uma tradição anárquica e não dogmática na ciência", e afirma que não há uma forma de conhecimento mais adequada ao mundo global do que o conhecimento científico, que é "universal e objectivo". DD compartilha ainda, sem dificuldades, a angústia de BSS quanto às desigualdades Norte-Sul, que identifica -correctamente- como sendo essencialmente uma desigualdade no acesso aos frutos tecnológicos da ciência. Mas ao contrário de BSS (e contra Rousseau), DD reafirma que o problema da democratização/disseminação da ciência não se resolve eliminando a ciência. Apesar de tratar BSS com um respeito que pode parecer exagerado para com alguém que parece ter-se auto-atribuído a missão de destruir a "primazia" do pensamento científico e crítico, DD desfaz, no penúltimo capítulo, a ideia de BSS de que existe uma "crise epistemológica do paradigma dominante". Pelo caminho ficam algumas observações que poderão ser mais difíceis de engolir para alguns, como as dificuldades na distinção entreas "ciências sociais" e as "ciências da natureza", ou na afirmação de novos paradigmas científicos. Tudo somado, fica uma defesa honesta e adogmática da ciência, não só como factor fundamental do progresso humano, mas também como "movimento de libertação do espírito". (Ricardo Alves)

 
Mais esquerda LEFT
É com grande prazer que anunciamos o início das colaborações de mais "um representante da ala esquerda da LEFT dos heróicos anos 90", o Ricardo Alves, de quem já tínhamos aqui falado a propósito das suas cartas ao director do DN acerca das relações entre a Igreja Católica e a Ciência, na sequência dos artigos do "Abominável César das Neves". Essas cartas podem ser lidas aqui e aqui. Hoje, o Ricardo escreve sobre um livro da autoria de um dos mestres da esquerda LEFT, que aborda justamente a relação difícil de outras esquerdas (que não a LEFT) com a Ciência.
Ricardo, os tempos que correm prometem ser ainda mais heróicos que os dos anos 90. Esperemos que as novas gerações estejam à altura... da LEFT e ganhem um combate que parece ser muito difícil, principalmente quando os jornais estão cheios de tipos como este. Obrigado pela recensão, como se diz agora, e escreve sempre. FM
 
Moral da história (II)
Num outro texto mais recente, Duarte Moral nota: "à atenção da senhora ministra das Finanças, que Deus a guarde e lhe dê muita saúde: já se terá estudado o impacto que cada tomada de posse tem na produtividade dos cargos públicos de chefia?... Tente encontrar um director-geral, um só que seja, em tarde de tomada de posse..." (ler o texto completo aqui). FM
 
Moral da história (I)
No DN, a esquerda (pelo menos a que fala claro) parece estar remetida para a secção de desporto ou para a crítica televisiva. Pergunta Duarte Moral: "Que crédito se pode, então, dar à intenção da ministra de colocar o sistema do ensino superior «ao nível dos melhores que há no Mundo»? Se calhar o mesmo que se deu ao seu desmentido da manhã." É isso mesmo, Duarte (ler o texto completo aqui). FM
2003-10-09
 
Grand Jacques
Jacques Brel desapareceu faz hoje 25 anos. Não voltou a haver um cantor como Brel. Brel faz parte do grupo (apesar de tudo restrito) dos meus trovadores de eleição.
Em sua memória, já muito foi dito na imprensa e na blogosfera. Destacamos a evocação que o Terras do Nunca tem vindo a fazer, um verdadeiro serviço público prestado por um blogue. Às músicas seleccionadas pelo João Morgado Fernandes gostaria de acrescentar a minha modesta contribuição: na minha opinião pessoal, a mais bela canção de amor.

La chanson des vieux amants

Letra e música: Jacques Brel

Bien sûr, nous eûmes des orages
Vingt ans d'amour, c'est l'amour fol
Mille fois tu pris ton bagage
Mille fois je pris mon envol
Et chaque meuble se souvient
Dans cette chambre sans berceau
Des éclats des vieilles tempêtes
Plus rien ne ressemblait à rien
Tu avais perdu le goût de l'eau
Et moi celui de la conquête

Mais mon amour
Mon doux mon tendre mon merveilleux amour
De l'aube claire jusqu'à la fin du jour
Je t'aime encore tu sais je t'aime

Moi, je sais tous tes sortilèges
Tu sais tous mes envoûtements
Tu m'as gardé de pièges en pièges
Je t'ai perdue de temps en temps
Bien sûr tu pris quelques amants
Il fallait bien passer le temps
Il faut bien que le corps exulte
Finalement finalement
Il nous fallut bien du talent
Pour être vieux sans être adultes

Oh, mon amour
Mon doux mon tendre mon merveilleux amour
De l'aube claire jusqu'à la fin du jour
Je t'aime encore, tu sais, je t'aime

Et plus le temps nous fait cortège
Et plus le temps nous fait tourment
Mais n'est-ce pas le pire piège
Que vivre en paix pour des amants
Bien sûr tu pleures un peu moins tôt
Je me déchire un peu plus tard
Nous protégeons moins nos mystères
On laisse moins faire le hasard
On se méfie du fil de l'eau
Mais c'est toujours la tendre guerre

Oh, mon amour...
Mon doux mon tendre mon merveilleux amour
De l'aube claire jusqu'à la fin du jour
Je t'aime encore tu sais je t'aime.
FM

 
Pedro o Canhoto
Então e não é que o Pedro Mexia, afinal, é canhoto? Viu-se ontem à noite, na RTP1, no programa do Francisco José Viegas. Será que o Jorge sabe desta? FM
2003-10-07
 
Pipi
Ou o Pipi é o Fernando Rocha ou, ontem à noite, no “Levanta-te e Ri” especial de aniversário da SIC, assistiu-se a um plágio. FM
 
Heil Portas! e outras considerações sobre a imprensa (ou resposta ao João Miguel Tavares)
Serve-se o João Miguel Tavares de uma foto do Público, no congresso do PP, em que Paulo Portas é focado de uma forma que sugere que estaria a fazer a saudação nazi, para insinuar, num apontamento na coluna “Geração de 70” do DN, que a imprensa portuguesa é dominada pela esquerda.
Esclareça-se primeiro que, sem querermos com isto insinuar que o seja, Paulo Portas quando discursa para um público de entusiastas tem, de facto, tiques de Dr. Estranhoamor, ou seja, uma tendência danada para fazer o gesto equivalente à saudação nazi, mesmo que seja só para mandar calar os apoiantes mais barulhentos. Lembro-me de, no dia da desgraça de 16 de Março de 2002, estar com um grupo de estudantes portugueses no bar do Sport Clube Português de Newark (talvez o Ivan também lá estivesse), a assistirmos à divulgação dos resultados eleitorais via RTPi, enquanto bebíamos uns bagaços para não pensarmos mais no que aí vinha. (Como o João bem sabe, sem a cachaça ninguém segura esse rojão, e a coisa aqui está preta. Ou ficou, a partir desse dia.) Víamos o Paulinho, todo ufano, a erguer o braço direito, de mão aberta, para saudar e mandar calar os eufóricos apoiantes enquanto dizia que o CDS regressaria ao Governo, 20 anos depois. (Se houvesse realmente um jornal de esquerda em Portugal, teria publicado uma fotografia do Paulinho nesta pose, na primeira página, no dia a seguir às eleições.) A verdade é que, se se tirar uma fotografia de Paulo Portas quando este estiver a discursar para os militantes, há uma enorme probabilidade de o apanhar a fazer o tal gesto.
Dito isto, há que acrescentar que o João, habitualmente tão equilibrado e sensato a escrever sobre outros assuntos (por exemplo, escreve sobre todos os tipos e variedades de música brasileira), infelizmente nas suas análises políticas é bastante primário. Primeiro, decidiu que queria passar a ser de direita a seguir aos atentados ao World Trade Center. Agora, decide que a imprensa portuguesa é de esquerda baseado numa fotografia. João, não se fazem modelos baseados só num facto... Antes de passares a generalizações infundadas, e se olhasses para o jornal onde escreves? Tens coragem de dizer que o DN, hoje, é de esquerda? (Oportunamente, e baseado em muitos factos, eu demonstrarei que não.)
Finalmente, só uma fotografia não prova nada, pois podem arranjar-se, mesmo no Público (não tão facilmente como no DN) muitos contraexemplos. De resto, uma fotografia satírica do Paulo Portas não é necessariamente um indício de esquerdismo do respectivo autor, que pode perfeitamente ser um fã do Pacheco Pereira. FM

 
O Bem contra o Mal
Agora que a SIC Gold repete a série Dragon Ball Z (e anuncia que as personagens "defendem o Universo", "O Bem contra o Mal"), suspeito que terei descoberto a explicação de Bush e dos seus acólitos (o Pacheco, o Delgado, o Ribeiro Ferreira, os Zés Manéis ex-maoístas - o PM e o neoconservador): muitas horas paasadas a ver esta série. O Bush, então, ainda a deve ver todos os dias. À partida eu não creio que a explicação se aplique ao João Miguel Tavares, um rapaz com bom gosto no que à banda desenhada diz respeito, mas com o maniqueísmo que ele vem revelando, já não digo nada. Fica esse mistério por esclarecer. FM
2003-10-06
 
A volta de Vargas Llosa
Uma boa notícia: Mário Vargas Llosa está de volta, com as suas crónicas, ao DNa. O director Pedro Rolo Duarte refere que Vargas Llosa regressa “depois de um intervalo de Verão”. Bem, eu sempre fui leitor do DNa desde o primeiro número. Enquanto estive nos EUA, pedi aos meus pais que me guardassem o DNa todas as semanas, para eu ler cada vez que viesse a Portugal (uma das principais razões para isso eram as crónicas do Vargas Llosa). Como qualquer leitor regular do DNa se apercebeu, de há mais ou menos um ano para cá o número de crónicas do Vargas Llosa publicadas no suplemento conta-se pelos dedos de um pé. Se o Pedro Rolo Duarte chama a isto uma pausa de Verão, significa que o ano inteiro dele deve ser um Verão permanente. Pedro, Pedro, sempre na caturrice...
No entanto, quem tenha tido acesso à imprensa internacional (o jornal El País ou, via internet, de graça, a revista peruana Caretas) facilmente verificou que Mário Vargas Llosa continuou a escrever as suas belíssimas crónicas regularmente, a cada quinzena, como sempre. Por alguma razão outra, que não uma “pausa de Verão”, e que Pedro Rolo Duarte não diz (mas presumo que tenha a ver com cortes orçamentais), estas crónicas não foram publicadas no DNa. Os leitores interessados podem lê-las, em espanhol, na página da Caretas; por exemplo, a crónica publicada este Sábado no DNa está aqui. A moral desta história é que mais depressa se apanha um esquerdista jet-se7e do que um coxo. FM

2003-10-04
 
José Manuel Fernandes, o próprio
A última do homem do que não gosta de t-shirts: o director do Público insurgiu-se contra o tom em que o despacho do Director-Geral do Ensino Superior estava escrito; principalmente contra a familiaridade com que a filha de Martins da Cruz era referida, pelo nome próprio, "Diana". Zé Manel, pá, esse é mais um dos teus tiques de ex-maoísta.
(Nota: por acaso, até acho que isto que o JMF disse faz sentido: era um tratamento suspeito, invulgar numa candidata que deveria ser anónima, como todas as outras. Mas, o que querem?, a tendência para zombar do JMF é mais forte do que eu.) FM
 
Luís Delgado, o conspirador tresloucado
Luís Delgado não queria saber se tinha havido favorecimento da filha do ministro. Não queria comentar se o despacho era ferido de ilegalidade, se havia umaa interpretação abusiva da lei, se o Estado estivera ao serviço de particulares. Para quem era tão implacável com ministros socialistas, nem parecia o Delgado de outros tempos. Mas há hábitos que ele não perde: a única coisa que conseguiu dizer, com a voz trémula, foi que tinha havido um caso semelhante no Governo do PS. O jornalista perguntava-lhe com quem, e Delgado balbuciava "com uma das ministras, não me lembro se com o filho se com a filha. Acho que era ministra da Saúde." Por fim, acabou por se lembrar do nome de Maria de Belém.
Mais tarde, a própria Maria de Belém viria à televisão explicar o caso (totalmente diferente) do seu enteado, e ameaçou pôr Delgado em tribunal. Delgado, desde então, só apareceu uma vez. Deve andar ocupado a investigar minuciosamente o acesso ao ensino superior de todos os socialistas e dos seus filhos. Deveria de facto responder em tribunal, não só por difamar Maria de Belém, mas pelo ridículo de que se cobriu, que deveria ser ilegal. FM

 
Mário Crespo, o alienígena
Na agitada noite de quinta feira, houve várias intervenções na televisão dignas de registo, que partilhamos com os leitores. Começamos pelo jornalista Mário Crespo, que lamentava a saída de Pedro Lynce, por este ter uma "muito boa imagem" de "homem competentíssimo". Eu nem vou referir os protestos (ainda na semana passada) de cientistas, pois em Portugal já é habitual não se ligar muito ao que dizem os cientistas. Mas, e os protestos dos estudantes contra as propinas, aumentariam a popularidade e dariam boa imagem ao ministro? Em que planeta tem Mário Crespo estado? FM

2003-10-03
 
Lynce em extinção
Pedro Lynce é, já desde os tempos de Cavaco Silva, em conjunto com Manuela Ferreira Leite, um dos principais rostos de uma ofensiva contra o Ensino Superior Público, que se tem traduzido num aumento das propinas (que, neste ano, se pode classificar como brutal) e num crescente desinvestimento do Estado nas Universidades.
Pedro Lynce nada fez para alterar uma lei de financiamento do ensino superior que, já de si, tinha componentes perversas, como a indexação do financiamento de uma Universidade ao número de alunos, sem considerar a qualidade da produção científica dessa Universidade.
Pedro Lynce é a cara de uma fusão ministerial (a da Ciência com o Ensino Superior) que teve como consequência a completa subalternização da Ciência em Portugal, com o seu orçamento desviado para "tapar buracos" dos das Universidades.
Pedro Lynce é o responsável pelo inverter de uma tendência de expansão na Ciência portuguesa (consequência da política muito positiva do Ministro do anterior Governo), incompreensível num paí­s com a falta de quadros qualificados que ainda é Portugal. Para disfarçar esta tendência, tem usado desavergonhadamente estatísticas baseadas nas políticas do Governo anterior.
Pedro Lynce deixa a Ciência portuguesa, e em particular a Fundação para a Ciência e a Tecnologia, de "tanga".
Pedro Lynce já era uma "pedra no meu sapato" desde os célebres tempos da PGA, em 1992. Não vai deixar saudades absolutamente nenhumas.
Hoje eu estou feliz. FM

2003-10-02
 
Estrangeiros no momento
Na semana passada, li no DN uma carta de um leitor. O autor era outro AA da LEFT, o Ricardo Alves (de quem contamos ter novidades em breve), e era sobre mais um artigo de João César das Neves, o "abominável César das Neves", como diria o Zé Mário. Tudo bem que o pessoal leia autores de direita; agora, como é que alguém ainda lê o César das Neves e passa tempo a discuti-lo, é coisa que me ultrapassa. O curioso é que só vejo pessoas de esquerda a fazerem-no; os autores de direita, pelo menos os que eu leio, nem o levam a sério.
O que me preocupou ao ler a carta do Ricardo não tinha nada a ver com a carta em si. Foi somente o modo como ela acabava: com a questão (cito de memória) "será César das Neves um estrangeiro no nosso tempo?"
Obviamente, César das Neves não é do nosso tempo (vive na Idade Média). O facto de ter as suas conhecidas posições não o impediu, porém, de ser conselheiro de Cavaco Silva (para assuntos económicos).
Mas o que me preocupou foi o Ricardo chamar-lhe "estrangeiro no nosso tempo", o que obviamente sugere o título deste blogue. Na altura em que escreveu a carta o Ricardo desconhecia a sua existência, pelo que se tratou de uma coincidência. Mas uma coincidência que revela a interpretação que o nome do nosso blogue pode ter. Por isso convém recordar o que dissemos na apresentação, ou seja, que este é um blogue feito por pessoas que, "fazendo necessariamente parte da época histórica em que vivemos, não se sentem à vontade nela" e "querem alterar o actual estado das coisas". Sobretudo, por sermos "estrangeiros no momento", não se pense que somos nostálgicos de alguma época histórica passada: nem da Guerra Fria, nem dos anos 60 (livra!)... Que fique claro: apesar de não gostarmos de muitos aspectos dos dias de hoje, este é um blogue do nosso tempo.
As razões principais do nome deste blogue são o estarmos (ou, no meu caso, ter estado até recentemente) no estrangeiro, e gostarmos do álbum O Estrangeiro. FM
2003-10-01
 
Aquellos Ojos Verdes
Na sua interpretação da conhecida canção romântica cubana, Nat King Cole canta: "...Aquellos ojos verdes que yo nunca besaré". Ibrahim Ferrer por seu lado canta: "...aquellos ojos verdes que nunca olvidaré"

Es decir, con hombres así no hay embargo que resulte.AG

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