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2003-10-10
 
Da crítica da ciência à negação da ciência
O recentemente publicado "Da crítica da ciência à negação da ciência", de Jorge Dias de Deus (DD), é uma excelente contribuição para a polémica sobre pós-modernismo e ciência que tem sido alimentada em Portugal pelos livros de Boaventura Sousa Santos (BSS), e que teve um dos seus episódios mais violentos no livro "O discurso pós-moderno contra a ciência", de António Manuel Baptista.
DD admite sem dificuldade, logo no capítulo 1, que "não há ciência sem seres humanos que a façam, sem sociedade que enquadre essa actividade e sem ideologia que lhe assegure um papel social". No entanto, e deixando desde logo adivinhar o que o diferencia de BSS, DD vai avisando que a ciência moderna "contribuiu decisivamente para a criação do Estado laico e para o estabelecimento do princípio da liberdade de pensamento", sublinha que existe "uma tradição anárquica e não dogmática na ciência", e afirma que não há uma forma de conhecimento mais adequada ao mundo global do que o conhecimento científico, que é "universal e objectivo". DD compartilha ainda, sem dificuldades, a angústia de BSS quanto às desigualdades Norte-Sul, que identifica -correctamente- como sendo essencialmente uma desigualdade no acesso aos frutos tecnológicos da ciência. Mas ao contrário de BSS (e contra Rousseau), DD reafirma que o problema da democratização/disseminação da ciência não se resolve eliminando a ciência. Apesar de tratar BSS com um respeito que pode parecer exagerado para com alguém que parece ter-se auto-atribuído a missão de destruir a "primazia" do pensamento científico e crítico, DD desfaz, no penúltimo capítulo, a ideia de BSS de que existe uma "crise epistemológica do paradigma dominante". Pelo caminho ficam algumas observações que poderão ser mais difíceis de engolir para alguns, como as dificuldades na distinção entreas "ciências sociais" e as "ciências da natureza", ou na afirmação de novos paradigmas científicos. Tudo somado, fica uma defesa honesta e adogmática da ciência, não só como factor fundamental do progresso humano, mas também como "movimento de libertação do espírito". (Ricardo Alves)


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