Estrangeiros no momento
2003-10-25
 
O "K" nas coisas
A propósito de simetrias, e dos prazeres de reconhecer noutras partes outras partes já conhecidas.

AG, não fostes o único a reconhecer no "Dancer In the Dark" do Lars Von Trier o "América" do Kafka. Eu também conheço o prazer posmoderno deste tipo de reconhecimentos, creio é que não se deve a uma questão de egos (no meu e no teu caso), mas tão somente ao prazer primordial dos encontros felizes. Encontrar pessoas com quem nos identificamos, e entrar ou convidar a entrar na "tribo". Aliás o elemento da "tribo", Kafka, reconhece-se em muitas partes. É o destino das sensibilidades absolutamente originais: serem universais depois de mortos.

Eu ainda me lembro da primeira vez que li "Crónica de uma morte anunciada" do Gabriel García Marquez. O estrecimento que tive quando li a primeira frase... Percebi imediatamente que era um roubo-mescla do inicio do "Processo" e da "Metamorfose" de Kafka, mais um detalhe sobre a chegada de um bisbo num barco tipícamente marqueziano. Era um adolescente-quase-adulto e lembro perfeitamente do carinho que ganhei ao Gabo com este livro (entre outras coisas profundamente geométrico), ao reconhecer num escritor sul-americano-barroco-plateresco a influência profunda de Kafka. Acreditava eu que além de mim só o próprio Gabriel sabia disso...

Mais tarde li nos ensaios do Kundera, a denúncia do crime: GGM haveria dito a Kundera que foi com Kafka que ele aprendeu que se podia "escrever de uma forma diferente".

E mais recentemente num documental sobre GGM, o próprio dizia exactamente o mesmo numa entrevista. Mais específicamente, dizia que havia caído da cama (dando a entender que havia sido literal...) ao ler as primeiras palavras da "Metamorfose" de Kafka, a que ele tinha tido acesso por acaso. GGM situava esta leitura como havendo sido a mais importante. Ficando provado que as sementes do realismo fantástico sul americano estão em Kafka.

É engraçado que um físico (como nós?????, tamanha e absurda arrogância), Albert Einstein, tenha dito a Thomas Mann(que parece que era vizinho de Einstein em EUA e lhe havia emprestado não sei qual livro, mas advinho que seja o "Processo"...) depois de ler Kafka, um comentário despreciativo tão estúpido como "a mente humana não pode ser tão complicada". É curioso também que Thomas Mann ao que parece se deslumbrou com Kafka sem nunca chegar realmente a gostar... E isso é realmente o que eu mesmo sinto em relação a Kafka, e por outra parte adoro Thomas Mann. Não me peçam para explicar porquê... mas creio que Kafka entenderia perfeitamente, ou mais, contava com isso.

Sobre Lars Von Trier creio que é consensual entre todos "os estrangeiros" que é provávelmente o realizador europeu mais importante em activo. Mas a força da sua sensibilidade em minha opinião é precisamente oposta a de Kafka. Kafka é um escritor do invisível, e do insondável. Precisamente por isso Kafka é quase intransponível para o cinema. Por mais que alguns valentes o tenham tentado. Aquilo de que ele fala "não se vê".

A melhor aproximação ao mundo de Kafka em minha opinião vem de David Lynch. Em particular me lembro de muitas coisas de "Lost Highway" que me pareceram tiradas de Kafka (o mais provável que inconscientemente, há poucas coisas em Lynch que sejam feitas conscientemente...): os dois polícias que investigam o estranho crime me pareciam os dois mandados que espiam a vida de K em "O Castelo", ou com os dois "bandidos" que em "America" atazanam a vida do jovem emigrante perdido nos arredores de Nova Yorque; o assassino de sua mulher que se desperta depois de um sonho mais que agitado como adolescente tem muito da "Metamorfose"; a representação ambígua da mulher tem algo da forma misteriosa como as mulheres aparecem nos livros de Kafka, só que muito mais radicalizado no caso de Lynch. Inclusive a "mania de perseguição" ou os ciúmes do personagem principal em Lost Highway é de alguma forma Kafka em si mesmo. Muitos pequenos detalhes que eventualmente são imaginação da minha cabeça ou talvez não, sejam realmente fruto do processamente subconsciente de Kafka na cabeça de Lynch.

De qualquer forma Lynch trabalha sobre a parte que em Kafka é a mais visível, que é a onírica. E através dela Lynch tal como Kafka chega à verdade do mundo que "não se vê". Já está claro que para mim Lynch é o maior realizador vivo ( e já não digo "europeu em activo" como disse no caso do LVT). Aquilo que para mim é um problema com Trier, é a sua ingenuidade. Caricaturizando, é como se Trier fosse Beatles(que eram europeus se bem que não parecessem) e Lynch, Velvet Underground (que eram americanos - esquecendo Cale - se bem que não parecessem). É curioso que agora mesmo o maior realizador europeu tenha um cinema mutisissimo mais ingénuo que o maior realizador americano... De qualquer modo para mim o filme mais perfeito e acabado de LVT é "Os Idiotas", que aliás me parece ser aquele onde a ingenuidade do olhar dele está mais á vontade.

As simetrias do nosso gosto nos permitem viajar de referência em referência, infinitamente...

Por falar nisso, vou também fazer-vos uma sugestão. Vejam "People I Know" de James Foley com Al Pacino. E depois revejam o "Eyes Wide Shut" do Kubrick. Eu acabei de ver o primeiro em DVD, e ainda não revi o segundo mas tenho a sensação de que no futuro quando os "críticos cinéfilos" se refiram a um (seguramente o de Kubrick), terão que ter o outro na algibeira (o mais modesto de Foley). O facto de no segundo termos um realizador várias vezes menos genial que no primeiro é compensado por termos no segundo um actor várias vezes mais genial que o ex-casal do primeiro juntos. Mas os dois nos falam da métropole actual, da sua amoralidade. De um final de milénio amoral e claustrofóbico e, acima de tudo da tristeza que esta amoralidade traz consigo. E esta claustrofobia parece ficar reflectida nos próprios filmes de uma maneira tão profunda que não nos deixa espaço para gostar deles sequer, só nos deslumbrar. Esse não amar deslumbrado se parece bastante com o que sinto por Kafka. RF

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