Estrangeiros no momento
2003-11-29
 
Rabino Andaluz
Em minha função de missionário do muito que vale a pena em Espanha, deixo aqui a direcção oficial deste Leonard Cohen Andaluz: www.jsabina.com.
Para aperitivo deixo a ligação directa ao vídeo de uma das melhores coisas do último disco: Lágrimas de Plástico Azul.
E a letra:

Por las aceras de la madrugada
baila con las porteras su milonga al sol,
con las ojeras que le sobran a tus ojos, corazón,
un día después de lo que el viento se llevó.

Las secretarias de las oficinas
desayunan en la esquina un tentempié
y cuando bajan de la luna al disco duro de roer,
con el sueño del revés y un futuro sin mañana, lloran

lágrimas de plástico azul rodando por la escalera,
tribus de los mares del sur al oeste de la frontera,
labios de papel de fumar, sabios que no saben nada,
náufragos en la catedral, telarañas acostumbradas
a hacer noche en el cristal.

Los cirujanos de las decepciones
cercenan por lo sano la alegría,
las venas del amanecer almacenan sangre fría
y cada lunes nace muerto el nuevo día.

El lápiz comisura de tu boca
retoca los agravios del carmín,
los proxenetas se colocan con aseo el peluquín
y los Romeos se demoran y las Julietas se desenamoran.

Lágrimas de plástico azul rodando por la escalera,
tribus de los mares del sur al oeste de la frontera,
labios de papel de fumar, sabios que no saben nada,
náufragos en la catedral, telarañas amotinadas...

Lágrimas de plástico azul con sabor a despedida.
¿Cuándo cruzará el autobús este callejón sin salida?
Labios de papel de fumar, sabios que no saben nada,
pétalos de flor de hospital, telarañas amotinadas...

RF
 
Uma Apresentação Pelada
Existe um filme que fez muito sucesso: "O Piano". Se o valor deste filme é eventualmente duvidoso, ele me atrae acima de tudo pela identificação estranha que sinto com um momento de minha vida.
Há um momento dentro desse momento em que um elemento deste blog entra. Estamos em Caparica com ela e a sua filha, na zona de nudistas, ele e eu nos avergonhamos de desnudarmos, ela não. Ao final como uma espécie de statement nos desnudamos quando já não estamos cerca de ninguém conhecido (nem a filha e nem mesmo a mãe... o que era um detalhe importante para mim, para ele o detalhe mais importante era só a filha, creio) e mergulhámos no mar. Não, não foi nada de homossexual... Mas naquele momento ele, além de mim, também era este homem branco com medo que ficou na praia enquanto ela fugia com um miscigenado qualquer que não havia.
Existe uma segunda parte que nunca aparece nos filmes. Neste caso ele e eu tivemos sorte, e conseguimos encontrar nativas maoris maravilhosas por quem se apaixonar. (Aproveito para desejar que a mãe e a filha sejam igualmente felizes.)
Eu não conheço a sua maori (que é mais maori que a minha) mas estou seguro que tal como eu, ele descobriu que existem muitas praias no mundo além de Caparica (Itaparica por exemplo - este paréntesis não é só por Caetano), e que em alguma delas está a mulher exacta com a qual um homem deve se desnudar. Inclusive em público.
RF
 
Caetanear
"Compromiso con la vida y compromiso con el arte son en Caetano una misma cosa, como lo son perfeccionismo y frescura. Caetanear es amor al trabajo bien hecho. Caetanear es mezclar lo culto y lo popular, ser sensillo y sofisticado, poseer un buen gusto esquisito, pero integrador. La belleza para el pueblo. Sólo Caetano caetanéa." (Fernando Trueba - cineasta y crítico de Jazz espanhol)
RF
2003-11-28
 
Novidades
Os leitores mais atentos já terão reparado nos acrescentos na lista de colaboradores. Não é só o Blogue de Esquerda, cujo renascer (e novos e antigos colaboradores) saudamos. Os nossos novos reforços, confirmados, serão apresentados nos próximos dias, talvez ainda com mais novidades à mistura. FM
 
Ponte
Falemos agora de assuntos mais alegres.
Aqui em Portugal toda a gente está a fazer ponte este fim de semana, mas não é disso que eu quero falar. Nem da hipotética terceira ponte sobre o Tejo. Mas sim de um novo blogue que me enche as medidas, justamente chamado A Ponte.
O autor mais prolífico chama-se André Figueiredo, é de esquerda, portista, vive e estuda em Nova Iorque desde Agosto. Tem-nos vindo a oferecer um retrato da cidade "por dentro", muito diferente daqueles a que geralmente os portugueses têm acesso, feitos por turistas. Mas a perspectiva de quem vive, ou quem viveu, e tem um conhecimento efectivo do local, é bem diferente (e mais correcta, se me permitem).
Tenho tentado (e vou continuar) descrever aqui a minha impressão de Nova Iorque e dos EUA. Tenho-me, porventura, concentrado mais em Long Island, mas tenciono alargar-me. E é óptimo ter um blogue como A Ponte, que me permitirá, espero, trocar impressões e pareceres, quem sabe diferentes, quem sabe discordantes... Ao ler vários dos textos lá patentes, apetece-me já escrever o que sítios como o Carnegie Hall ou o Lincoln Center significam para mim. Com o tempo hei-de o fazer, sobre estes e outros locais, e quero ouvir a opinião do André. Por agora, resta-me recomendar A Ponte aos nossos leitores (podem ler uma descrição de festas nova-iorquinas e compará-las com as de Long Island!). E ainda desejar ao André Figueiredo uma boa estadia, que essa cidade espantosa seja, cada vez mais, também a sua cidade... e que continue a contar-me o que por lá se passa na minha ausência. FM
 
Triste sina
Num passado não muito distante, o Sporting tinha bons treinadores como Manuel José, Marinho Peres e sobretudo Bobby Robson, mas o presidente Sousa Cintra nunca os deixava acabar o seu trabalho.
Nas últimas duas épocas o Sporting não tem tido treinadores competentes, mas parece ser política da actual direcção mantê-los até ao fim, mesmo com o descalabro à vista. FM
 
Outros dias de Acção de Graças
O dia de Acção de Graças de que guardo melhores recordações é o de 1999, embora os motivos não sejam os mais esperados.
O local foi agradável e acolhedor para mim, mas não seria para qualquer pessoa. Foi em pleno campus da State University of New York, em Stony Brook, num apartamento de colegas onde nos costumávamos reunir todas as sextas-feiras à noite, para beber umas cervejas (no meu caso era mais vinho...) e falar da vida e do mundo. Não poderia estar mais em casa. Uma reunião como a de todas as semanas: aparentemente, só o menu era especial.
Passei outros dias de Acção de Graças igualmente em boa companhia, mas em localizações bem mais atractivas. Mas aquele foi especial para mim.
Durante o jantar, mais ou menos de dez em dez minutos eu ria-me e repetia "seven-zero!"
À medida que a noite avançava e as garrafas de vinho iam ficando vazias e sendo substituídas por rum dos Barbados, íamos jogando cartas (uma partida de Oh hell, um jogo australiano). Entre cada cartada, que eu ia ganhando sucessivamente até acabar por vencer o jogo, eu só recolhia as cartas e repetia "Benfica lost!"
Na altura o meu Sporting já estava nas boas mãos de um treinador ambicioso e competente como não voltou a ter, e já tinha encetado a espantosa recuperação que tornaria aquela época inesquecível.
Ah, como era bom o Thanksgiving nos Estados Unidos! Até neste aspecto! FM
2003-11-27
 
Thanksgiving - o dia
No Thanksgiving, os EUA páram durante quatro dias, de quinta a domingo, as universidades incluídas. Os estudantes americanos vão ter com as suas famílias, frequentemente noutros estados, quiçá noutros fusos horários. É a época mais alta para o mercado de vôos domésticos.
Os estudantes estrangeiros organizam-se e fazem as suas próprias Acções de Graças. Ninguém quer ficar de fora. Às vezes passava o Thanksgiving com colegas, de países diferentes, em Long Island. Outras, ia a Boston ter com os meus amigos portugueses. Houve uma vez em que fui convidado para um Thanksgiving americano, a rigor. Tanto quanto poderia ser o Thanksgiving de uma família de anarquistas nova-iorquinos. Mas, para minha surpresa, cantou-se o God Bless America. Estava-se em pleno pós 11 de Setembro...
Recordo com saudade todos eles. Aos nossos leitores norte-americanos (e a todos os outros) desejo um bom Thanksgiving. FM
 
Thanksgiving - a história
Esta é a principal data do ano em que as famí­lias americanas se reúnem. Ninguém fica indiferente a esta data; como em nenhuma outa, o país pára. Tal pode parecer estranho a um europeu, habituado a que o seu país pare e as famí­lias se reúnam somente entre o Natal e o Ano Novo ou na Páscoa. Nos EUA também é assim, mas não tanto.
A razão principal é que esta festa não tem nada a ver com nenhum aspecto religioso. É celebrada por gente de todos os credos, todas as raças, todas as condições sociais. Depois, cada religião tem as suas festas próprias.
Embora a esmagadora maioria da população seja cristã, esta festa consegue como nenhuma outra reunir todo o país. É um pólo de união para pessoas que partilham origens e culturas tão diferentes.
Há de facto um elemento religioso na origem da festa: está-se a agradecer as graças a alguém que é um Deus. O bonito é que pode ser um Deus qualquer, e tal festa foi integrada em todas as religiões tornando-se assim um acontecimento verdadeiramente nacional. De certa forma, a identidade nacional aqui sobrepõe-se à identidade religiosa. E eu acho este aspecto particular muito positivo. (Apesar de não me identificar minimamente com nacionalismos, especialmente na sua versão americana. Mas isto aqui é secundário.)
A direita que tanto insiste em que a Constituição Europeia tenha referências à "origem judaico-cristã" deveria considerar este caso (mas, como bem referem o Pedro Mexia e o Pedro Lomba, a direita tradicional é anti-americana). Do que a Europa precisava era de um Thanksgiving! FM

 
Thanksgiving - a gastronomia
Hoje é Dia de Acção de Graças nos EUA. Só para verem como sou saudosista, vou assar peru para a família, ao jantar. Modéstia à parte, depois de seis anos nos EUA tornei-me especialista. Nunca passei um Thanksgiving sem comer peru, e cozinhei-o por três vezes, uma delas com a colaboração do meu amigo Tiago, tendo obtido sempre bons resultados. O segredo para tornar saborosa uma carne tão enjoativa como o peru? Muito simples: fazer com que não saiba a peru! Para tal há que temperá-lo com uma marinada forte. Sugiro cravinho (muito!), sumo de laranja, vinho branco e uma boa aguardente. Na falta de aguardente um whisky também funciona (tenho aqui que dar o crédito ao Tiago por esta descoberta). Um bom recheio também ajuda. Depois há que o cobrir, durante a assadura, com bacon (de peru, de preferência, digo eu), de modo a assar completamente sem secar muito.
Os americanos adoram acompanhar o peru com molhos agridoces (ou mesmo doces): creme de amoras, puré de maçã... Fiel às minhas origens lusitanas, prefiro um bom esparregado de nabiças e um arroz de miúdos. FM
2003-11-26
 
Concerto no Parque
Fala-se em Parque, e é possível que muita gente (principalmente os nova-iorquinos) pense imediatamente neste parque, ainda mais este ano, em que passam 150 anos desde a sua fundação. Fala-se em Concerto, e cada pessoa pensará provavelmente no melhor concerto a que alguma vez já assistiu. Agora, fala-se na simples combinação de palavras "Concerto no Parque", e toda a gente pensará neste concerto. Que prazer foi revê-lo, uma vez mais, na RTP na passada sexta-feira! E que sorte a de quem puder assistir ao novo concerto da dupla! FM
 
Não me resigno
Foi há cerca de doze anos, se a memória não me atraiçoa. As primeiras páginas de todos os jornais britânicos eram unânimes: "Thatcher resigns". Estas manchetes marcaram profundamente o Ocidente, Portugal incluído. Desde então, o verbo "demitir-se", pelo menos aplicado aos grandes líderes, deixou de existir. Um líder que é líder não se demite, "resigna". Guterres não renunciou ao cargo: "resignou ao cargo". Este fim de semana, o presidente georgiano Eduard Chevardnadze também não se demitiu nem abdicou: "resignou ao cargo". Mas eu não me resigno. FM
2003-11-25
 
Ratoeira
Tens a certeza que estás a falar do rato mickey, e não do urso Mischa, tovarich Filipe?
Mickey símbolo universal de boa vontade? Só se for a universal boa vontade de estender o santo consumismo às faixas etárias abaixo dos dez anos... with the good will of the Walt Disney Corp (TM).
Mas de facto o sucessor do Jimmy Carter era cheio de boa vontade, e o actual embaixador dos EUA no mundo Anthony Blair também. Se calhar é a isso que o Carter se refere.

Entre Mickey e Marx, eu escolho o Zé Carioca.AG
 
Mickey
No passado dia 18, 75 anos passaram desde a criação do Mickey. Segundo reza a história, Walt Disney teve a ideia de criar uma personagem que era um rato ao observar um destes animais no seu próprio escritório. Esta foi uma efeméride que passou despercebida em grande parte da blogosfera. Mas não passou, e nem poderia passar, despercebida a mim. Eu aprendi a ler com as revistas Disney! (Na verdade, sempre preferi o Patinhas.)
As revistas Disney pertencem ao mesmo pacote de produtos que, como a Coca-Cola, são símbolos comerciais do 25 de Abril. Ignoro se, antes de 1974, as revistas Disney brasileiras já circulavam em Portugal, mas sei que a sua grande explosão se deu logo após, justamente com a minha geração, com a posterior consequente edição directamente em Portugal (em português europeu). Nem de propósito, a editora que as publica no Brasil (propriedade de uns judeus italianos de esquerda, o mesmo grupo que viria a descobrir o escândalo que derrubou Collor de Melo) chama-se... Abril (neste caso, uma evocação da libertação da Itália do fascismo). Em Portugal, infelizmente, a subsidiária chamava-se Morumbi, nome de um bairro fino de São Paulo, até ser integrada no grupo de Balsemão.
As revistas Disney, que supostamente representavam a moral americana, o estilo americano de vida, chegavam a minha casa envolvidas no Diário de Lisboa. A partir do momento em que começou a minha consciencialização política séria, havia uma contradição entre a moral de certas histórias americanas (notem o americanas - bem diferentes das brasileiras ou italianas) e a Política de A a Z de Fernando Piteira Santos, ou o Canal da Crítica de Mário Castrim. E sei que, em outras famílias, chegava embrulhada em "O Diário". Quem sabe, até mesmo no "Avante"!
Por tudo isto, a minha geração também é a geração das revistas Disney, e uma geração não pode cortar assim tão facilmente com as suas referências. Quem cresceu entre Disney e Marx, a certa altura teve de fazer uma opção. (A maior parte das vezes fala-se da escolha entre Cristo e Marx, mas creio que para a minha geração, urbana, laicizada, democratizada e americanizada, Disney foi bem mais influente do que Cristo.)
Para alguns, como o João Miguel Tavares (os seus colegas de coluna nunca tiveram verdadeiramente de fazer esta opção), a escolha definitiva veio a seguir ao 11 de Setembro de 2001. Mas para mim e creio que para a maior parte das pessoas a opção não foi tão radical. Se o Mickey era apresentado como um "defensor da lei e da ordem" nas bandas desenhadas americanas (como sempre, o Bem contra o Mal), a verdade é que nem tudo se resumia a estas histórias. Outras histórias Disney, escritas no Brasil e principalmente na Itália, apresentavam um humor mais adulto e outras preocupações sociais. Tinham uma preocupação mais de divertir e menos de educar. Neste aspecto, a banda desenhada Disney aproxima-se muito mais, enquanto "conquista de Abril", das novelas brasileiras do que da Coca-Cola. A sua influência deveria ser reavaliada.
A esquerda recorda, com razão, Walt Disney como um colaborador de McCarthy e um apóstolo do conservadorismo social que caracteriza um estilo americano de vida. Mas o Mickey, "símbolo universal da boa vontade" nas palavras de Jimmy Carter, não tem culpa. FM

 
Agora falando sério
Pensando bem, deve-se sempre sair à rua todos os dias. Afinal não eram os blogues de direita que diziam que "a rua é o território da esquerda"? Razão tem o Celso Martins, sobretudo ao evocar o Melo Antunes. FM
 
Já estragaram tua festa pá
A maior prova de que os movimentos de estudantes não estão hoje nada politizados foi terem convocado uma manifestação para o dia de hoje. Ó meninos, isto lá é dia de alguém sair à rua? FM
 
Sei que estás em festa pá
Os blogues de direita não evocaram o 25 de Abril. Sempre quero ver se, como Alberto João Jardim, evocam o dia de hoje. FM

2003-11-24
 
Dragão
O Estádio do Dragão foi finalmente inaugurado e, pelo que já vi, acredito que seja o melhor de todos os novos estádios. (Quanto ao nome: alguém duvida de que, cedo ou tarde, se venha a chamar Estádio Pinto da Costa?) Mesmo que objectivamente Mota Amaral tivesse toda a razão ao marcar falta aos deputados que foram à final da Taça UEFA (mas eu queria ver se fosse o Santa Clara...), acho bem que Pinto da Costa não o tenha convidado. Isto demonstra que eu não sou antiportista.
Para demonstrar que não sou portista, aqui fica o meu comentário ao jogo. O primeiro golo do referido estádio, marcado por Derlei, resultou de uma grande penalidade completamente inventada pelo árbitro, o portuense Martins dos Santos. Bastante simbólico. FM
 
Blog de Esquerda XXI
Desejamos que o novo Blog de Esquerda, a inaugurar em breve, não tenha sido desenhado pelo arquitecto Taveira. E que o relvado esteja em condições. E, de preferência, que tenha uma pista de atletismo em vez de cinemas e área comercial. Quanto ao blogue, temos a certeza de que será o mesmo Blog de Esquerda de sempre, cuja leitura não dispensamos. FM
 
Glória Fácil
Ficamos à espera de um regresso rápido da Maria José Oliveira. FM
 
Na semana passada...
...houve várias ocorrências que, por falta de tempo, não foram aqui comentadas: artigos, efemérides, entrevistas, inauguração de estádios... Há ainda temas como o Ensino Superior, sobre o qual ainda há muito para dizer, e a transição do DN. Como se isso não bastasse, há novidades na blogosfera: blogues novos e blogues "reinaugurados". Há umas trocas de ideias que quero ter com o futuro director do Expresso, e que tenho vindo a adiar. Ao mesmo tempo há, no meu caso, a estabilidade dos buracos negros para determinar. Para tudo haverá tempo, mas a pouco e pouco. Agora, não se afobe não, que nada é para já... FM
2003-11-21
 
Conhece-te a ti proprio, e conhece o inimigo (II)
Em anexo segue o artigo donde tirei o meu título. É um artigo excelente, a que eu gostaria de ver os bushistas responderem. (Nuno Anjos)

November 9, 2003
PERSPECTIVE | INSIDE THE C.I.A.
Iraqi Insurgents Take a Page From the Afghan 'Freedom Fighters'
By MILT BEARDEN

As the daily attacks against American forces in Iraq increase in number and sophistication, the Bush administration continues to portray its adversaries as an assortment of die-hard Baathists, criminals, thugs and foreign terrorists, all acting out of desperation.
Certainly, there are Baathists and foreign terrorists operating against the American-led coalition, and their ranks probably include criminals. But the overarching reality is that the American and British forces are facing a resourceful adversary whose game plan may be more fully developed than originally thought.
My own experience in war has largely been on the side of insurgents. I served as the Central Intelligence Agency's quartermaster and political agent to the Afghan resistance against the Soviet occupation from 1986 until the Soviets left in 1989.
From my perspective, the Iraqi resistance has taken a page from a sophisticated insurgency playbook in their confrontations with the American-led coalition.
The insurgents' strategy could have been crafted by Sun Tzu, the Chinese military tactician, who more than 2,500 years ago wrote, in "The Art of War," that the highest realization of warfare is to attack the enemy's strategy.
So it was probably no accident that as American forces approached Baghdad, expecting tough street fighting, the bulk of the Iraqi forces melted away. The American troops, forced to shift strategy on the run, have been bedeviled by the consequences of those early chaotic days ever since.
Next, according to Sun Tzu, you attack his alliances.
This, again, is what the Iraqi insurgents did. Presumably acting on the assumption that the Jordanians were being too helpful to the United States, insurgents detonated a car bomb outside the Jordanian Embassy in Baghdad on Aug. 7, killing 11 and wounding scores. Less than three weeks later, as an increased role for the United Nations was debated, suicide
bombers attacked the organization's headquarters in Baghdad, killing 22 people, including the United Nations special representative to Iraq, Sergio Vieira de Mello.
Then, in mid-October, as proposals for an expanded peacekeeping role for Turkey were argued, a suicide bomb detonated outside the Turkish chancery in Baghdad, killing one bystander and wounding a dozen others.
When Ramadan, the Muslim holy month, began in late October, Baghdad was rocked by a series of suicide bombings that killed dozens and wounded hundreds, including an attack on the headquarters of the International Committee of the Red Cross.
In addition, there have been countless attacks against individual Iraqis viewed as allied with the United States, whether police recruits, members of the Iraqi Governing Council or figures in the judiciary. A pattern of attack against American allies seems clear.
Consider the following: Since the focused attacks began, most Arab League missions in Baghdad have distanced themselves from the coalition; the United Nations secretary general, Kofi Annan, has withdrawn his international staff from Baghdad; the Red Cross followed suit, prompting other international aid organizations to pare down in Baghdad as well. The Turkish government, for a number of complex political reasons, has now reconsidered sending troops.
Even Spain, part of the original coalition, has decided to withdraw the bulk of its diplomatic staff from Baghdad. It appears that after disrupting the American strategy, the insurgents have made progress in undermining its alliances.
Next, Sun Tzu prescribed, attack their army.
This is occurring with increasing lethality. To misread these attacks as desperation is dangerous. In the last two weeks, there have been multiple attacks on the coalition headquarters in Baghdad, with mortars and rockets landing inside the secure green zone. Shoulder-fired missiles have brought down a Chinook helicopter, killing 16 soldiers. The crash of a Blackhawk helicopter, killing an additional six, is still under investigation, but according to some reports a rocket-propelled grenade may have brought it down. One or two casualties are logged almost daily.
Ordinary criminals and thugs could not deliver this kind of punch. Mortar tubes, base plates and ammunition have to be smuggled to within a few thousand yards of the green zone, carefully set up and then launched either in a shoot-and-scoot attack or with timed delay.
Similarly, a rocket attack on the Rashid Hotel while the deputy defense secretary, Paul Wolfowitz, was there required imagination, ability and training. Die-hards, maybe, but focused ones with a strategy and the skills to carry it out.
These growing attacks against American forces have two clear goals: inflict casualties and force a reaction that alienates the local population. Both are being achieved, as the quick-response raids by coalition troops to seize those behind the attacks fuel Iraqi alienation.
That suspicion is reflected in an incident described in a New York Times article about a group of American soldiers who tossed handfuls of candy to Iraqi children along a road in Falluja, inside the volatile Sunni triangle. " `Don't touch it, don't touch it!' Iraqi children squealed. `It's poison from the Americans. It will kill you.' "
This is reminiscent of Afghan children being terrified that Soviet soldiers were seeding the countryside with booby-trapped toys, or that wells had been poisoned, or food aid adulterated. All those stories were false, many of them propagated by the C.I.A. But the important thing was that the locals believed them.
Similarly, American troops are not offering poisoned candy, but the point is that the Iraqis families believe it.
For every mujahedeen killed or hauled off in raids by Soviet troops in Afghanistan, a revenge group of perhaps a half-dozen members of his family took up arms. Sadly, this same rule probably applies in Iraq.
The Soviet Union tried to denigrate the Afghan mujahedeen by calling them bandits. This did not help the Russian cause. Americans are confronting a foe that is playing down and dirty ? but remarkably effectively ? on his own turf. Yes, there are criminals and foreign terrorists among them, but the Pentagon seems to understand little about the identity of its enemy beyond that.
Sun Tzu also said "know yourself and know your enemy, and of a hundred battles you will have a hundred victories."
There were two stark lessons in the history of the 20th century: no nation that launched a war against another sovereign nation ever won. And every nationalist-based insurgency against a foreign occupation ultimately succeeded. This is not to say anything about whether or not the United States should have gone into Iraq or whether the insurgency there is a lasting one. But it indicates how difficult the situation may become.

Milt Bearden, a 30-year veteran in the C.I.A.'s Directorate of Operations, served as senior manager for clandestine operations. He is the co-author with James Risen of "The Main Enemy: The Inside Story of the C.I.A.'s Final Showdown with the K.G.B."

Copyright 2003 The New York Times Company
 
Charles III (II)
Lá o ser homossexual, concordo que é acessório. Agora o pró-palestiniano, não acho...
Está certo que estamos a falar de uma figura totalmente irrelevante e decorativa, mas mesmo assim é um futuro chefe de Estado. Isto se, de facto, não for republicano...
Com isto concluí que sou o único de nós três que viveu sempre em repúblicas. Que sorte, não? Mas acredito que mais facilmente a Espanha se torna uma República do que a Inglaterra. Se não for a Espanha, é a Catalunha. FM
2003-11-20
 
Charles III
Ser ou não ser homossexual, ser ou não ser pró-palestiniano, são questões acessórias. A grande questão, que ninguem tem coragem de mencionar, é: será que é republicano?AG
 
Um texto ao estilo mexiano
Depois das notícias que correm todos os tablóides do mundo (excepção feita à Inglaterra, mãe dos tablóides) sobre a sua eventual homossexualidade, eis que agora o DN noticia que o príncipe Carlos não gosta dos EUA e é também pró-palestiniano (ler aqui, um pouco para baixo).
Quando o Bloco de Esquerda souber desta, será que o convidam para dar alguma palestra? FM
 
A (outra) globalização e a boa gramática portuguesa
Ainda vou voltar ao assunto das propinas e do Ensino Superior mas, por enquanto, fiquemo-nos com um texto do Nuno Anjos que dá que pensar.
Esta malta do CERN e laboratórios associados é que não usa acentos! Inventaram a internet e são os paladinos do software gratuito. Por isso, não dão dinheiro a ganhar ao Sr. Bill Gates, o que acho muito bem. O software que usam, bem como os próprios teclados, porém, impede-os de escrever em outra língua que não a inglesa (o Nuno bem se esforça). Será esta a tal alterglobalização? FM
 
Conhece-te a ti proprio, e conhece o inimigo
No seu artigo no DN, Manuel Villaverde Cabral considera que a reaccao desfavoravel `a luta contra as propinas e' uma manifestacao do conservadorismo em que a sociedade portuguesa caiu. MVC tem razao em dizer que a sociedade portuguesa esta mais conservadora. Mas, e' so' isso que ha' a dizer? Eu acho que esta luta e' um dos maiores exemplos de ma' leitura da situacao pela esquerda.
A reaccao dos estudantes `as propinas foi sempre baseada no principio da gratuitidade do ensino superior. Este principio justificou o slogan "Nao Pagamos". O problema e' que este slogan nao tem nenhuma ligacao a' realidade. E' verdade que ha' trabalhadores estudantes. E' verdade que, em alguns paises, e' possivel a um estudante pagar o ensino apo's encontrar trabalho. Mas em Portugal a verdade e' que o ensino superior e' e sera' gratuito para maior parte dos estudantes porque quem paga sao os pais. (Notem que eu nao estou a expressar nenhuma opiniao acerca do estado das coisas. Estou a tentar fazer uma leitura da realidade)
Nesta questao de pagar ou nao pagar, a verdade e' que, na maior parte dos casos, os estudantes nao sao tidos nem achados. Quem tem o poder sao os pais: sao eles os pagantes. E qual e' a realidade sociologica do nosso pai's? Em Portugal, antes do 25 de Abril, o ensino (nao so superior, como ate liceal) era reservado a uma elite. A geracao que agora tem 50 anos, impossibilitada de prosseguir estudos por varias vicissitudes, transferiu para os filhos esse desejo. De tal modo que suportam financeiramente uma
explosao do ensino superior privado unica na Europa. E' evidente que neste contexto a luta estudantil so podia ser recebida com indiferenca (Sao jovens estudantes, e' normal que se manifestem) ou hostilidade (Te^m todas as oportunidades, e andam para aqui a gozar com a malta).
Quando os protagonistas de uma contestacao sofrem de uma tao grande desconexao com a realidade, estao condenados ao isolamento. O recente discurso de indiferenca de Jorge Sampaio pode ser considerado o fim do "Nao Pagamos". As propinas estao ai para ficar. Quer isto dizer que a luta foi perdida? Eu digo que a verdadeira luta ainda esta para comecar.
Neste momento as propinas ja nao sao simbolicas. Mesmo que so representem 10 a 15% do custo dos cursos, e que haja um numero elevado de bolsas, a verdade e' que uma familia de rendimento medio com dois filhos no ensino superior pode ter de pagar 150 E por mes! Qualquer subida nas propinas ou diminuicao no numero de bolsas atingira directamente a classe media, ou seja, o nucleo que decide as eleicoes. Os estudantes te^m de procurar mobilizar os pagantes para esta luta. Sugiro um novo slogan: "Os nossos pais nao podem pagar mais".
E esta e' a verdadeira luta, porque o essencial nao e' a gratuitidade do ensino superior. O essencial e' o acesso universal, que ate agora foi preservado: com os valores ainda nao demasiado altos das propinas, e com as bolsas, ainda se pode dizer que nao e' por causa das propinas que alguem deixa de frequentar o ensino superior. Mas estamos quase ai'... (Nuno Anjos)
 
Estereótipos (III)
Epá, eu não falei em vergonha, para começar! E concordo com o que o Rui diz. A maioria dos emigrantes, de qualquer nacionalidade, está associada a profissões menos qualificadas, pois só emigra quem necessita em princípio. (Excepção feita aos judeus e a exilados, que são casos diferentes.) Também os ucranianos estarão, em Portugal, associados a empregos na construção civil, como os portugueses nos EUA. Só que os ucranianos não serão menos qualificados que os portugueses.
O texto do filho de um emigrante americano é notável na ironia e na capacidade de introspecção que revela. É por estas coisas que se vê de que é que os portugueses de facto gostam - dos hábitos que não são capazes de perder. E, em grande parte, ainda bem, digo eu! FM
2003-11-19
 
Estereótipos
O Rui tirou-me as palavras da boca.
Seria muito mais simpático imaginar um estereótipo Maria Helena Vieira da Silva, mas a realidade não é assim.
Apenas acrescento: não me parece que haja um estereótipo português, quer em Inglaterra, quer nos EUA. Nos EUA haverá apenas nas zonas de emigração portuguesa. No Reino unido nem isso, caímos na categoria de continentais ou mediterrânicos, nada mais. Não somos suficientemente conhecidos para podermos ser estereotipados.
Em França obviamente que a conversa é outra...



esquerda:Madame Souza in Belleville Rendez-Vous; direita: Vieira da Silva, Autoretrato (1930)
AG

 
Estereótipos portugueses
O nosso colega Nuno Anjos enviou-me há uns três anos este texto, que por alguma estranha razão andava a correr pelos emails do CERN. É uma boa ocasião para o divulgar aqui. Convido assim os leitores a apreciarem a visão que os luso-americanos de segunda e terceira gerações têm de si próprios. Para mim chega a ser comovente este texto escrito por um qualquer "filho da nação", que até sabe jogar sueca e tudo. Os estereótipos aplicam-se na generalidade aos emigrantes portugueses que eu conheci e com quem convivi, se bem que alguns poderiam aplicar-se também a outros povos e mesmo aos americanos. FM

Top ten warning signs that you may be PORTUGUESE:

#10. Your parents own a mercedes that's at least 20 years old.
#9. There are at least 6 people named Maria or Ze in your family.
#8. Guys: You've worn a pair of Jordache jeans with cowboy boots.
#7. Girls: You have at least 4 long black leather jackets in your closet.
#6. Your ears perk up when you hear the sound of "GOOOOOOOOAAAAAAAAL!"
#5. There's a Portuguese flag and/or mini soccer ball hanging from your rear view mirror.
#4. Somewhere in your house hangs a picture of the Last Supper.
#3. Your parents are shorter than you are.
#2. There's a chicken, rabbit, or pigeon coupe in your back yard.

And the #1 tip off that you may be Portuguese...

1) There's a construction truck parked out in front of your house.

And if you still wondering, ask yourself this...

Have you ever seen your grandmother, who doesn't speak a word of English, wearing anything but black?
Have you ever been to Newark N.J. at some point in your life?
Do you know where the town of Chaves is?
When you were a child, during lunchtime, did your portuguese rolled sandwiches make you feel like an outsider?
Is there enough hair on your body to frighten a werewolf?
Is there a 6' satellite dish in your yard or roof and do you prefer to eat at restaurants with 6' satellites on their yard or roof?
Do you raise an eyebrow every time you hear the words 'pork chop'?
In summer time, does your back yard smells of sardines?
If you live in CT, do you work at People's Bank?
Do you know how to play swacka? (even if you can't spell it correctly)

 
Portugueses no estrangeiro II
Reflexo de um estereótipo, Filipe?
Se os portugueses que estão no estrangeiro, ou estiveram no estrangeiro, e que portanto, os estrangeiros conhecem, são realmente governantas, empregadas de mesa, porteiras, etc, seria "exótico" que apresentassem num filme estrangeiro uma portuguesa como modelo de passarelle, ou como médica. Que eles existem, sim, é verdade, mas são exóticos.
Quando falamos de estereotipos e quando falamos de realismo? Eu creio que aqui é claramente uma questao de realismo. Que o cinema, a ficção televisiva portuguesa, etc muitas vezes seja muito pouco realista e goste de dar uma imagem de um Portugal aristocrata, antiguado mas "fino", isso sim é irrealismo por parte de Portugal. O Portugal dos porteiros, governantas, etc é muito mais real e numeroso.
Infelizmente isso nos faz recordar que Portugal é europeu por convenção. Na verdade é só Portugal. O país mais pobre a Ocidente de Europa, talvez juntamente com a Grécia.
Portugal é um país pobre, que já foi muito mais pobre, e que obrigou os seus filhos a fugirem em busca de um lugar onde pudessem comer e vestir com um minímo de dignidade.
Por acaso a minha família que também é de emigrantes emigrou para Angola e Brasil e não para Europa ou EUA, não contribuindo assim para a imagem "esterotipada" dos portugueses nesses países. Mas isso foi por acaso senão também teriam contribuído.
E outra coisa muito, mas mesmo muito importante: Governanta e Empregada de mesa são profissões que não deveriam implicar nenhuma imagem "negativa", e não devem ser postas no mesmo saco que "avozinha carrancuda do subúrbio de Paris", que aliás não creio que seja a imagem das portuguesas idosas no estrangeiro...RF
 
Portugueses no estrangeiro
Governanta, empregada de mesa, avozinha carrancuda do subúrbio de Paris... pelas personagens-tipo de portugueses em filmes e séries, necessariamente reflexo de um estereótipo, dá que pensar a imagem que povos como os ingleses, americanos e franceses ainda fazem dos portugueses, em pleno séc. XXI. FM

 
Portugueses na televisão
Lembrei-me de um dos meus (muitos) episódios favoritos do Seinfeld: The Abstinence. Bem, este pertence mesmo à "lista curta"; era daqueles que eu nos EUA via sempre que desse, pela m-ésima potência da n-ésima vez.
Neste episódio a namorada do George não pode ter relações sexuais. Graças a isso, o George vai ficando gradualmente muito mais esperto. Ensina as leis físicas dos projécteis aos jogadores de basebol dos Yankees e, num abrir e fechar de olhos, aprende português para comunicar com a empregada (portuguesa) do diner na Bradway onde o grupo se reúne sempre. Ainda me lembro de ela a perguntar "mais café?" num sotaque perfeito, ao que o George responde "sim, por favor".
O resto do episódio eu não conto, mas é de antologia. E a portuguese waitress tem um papel fundamental. FM
2003-11-18
 
Portugueses no cinema
André, a propósito do teu texto: já ouviste falar no filme "O Amor Acontece" ("Love Actually" no original)? É mais uma daquelas comédias londrinas idiotas com o Hugh Grant, o que para mim já diz tudo. Aqui tem-se falado muito nisso, pois a Lúcia Moniz desempenha uma governanta portuguesa chamada Aurélia. Um dos criadores tinha uma governanta com o mesmo nome. Não será a personagem principal, mas no filme ainda põe o homem apaixonado por ela a aprender português... (O João também escreveu sobre o assunto.) FM
 
Geração do bom gosto
Mais uma das (várias) coisas em comum com a malta da "Geração de 70": desta vez, a série de humor preferida do Pedro Mexia é também a minha (no meu caso, empatada com o Seinfeld). Depois da paixão do João Miguel Tavares pelo Chico Buarque, da do Zé Mário pelo Jorge Luís Borges, da minha pelo Vargas Llosa este também é mais um caso que convida a rever a separação esquerda/direita baseada em critérios culturais. (Embora, no caso do Vargas Llosa, não seja correcto classificá-lo como "de direita".) No entanto, ainda é possível que estes casos sejam somente excepções que não contrariam a regra. Mas voltarei a estes assuntos ciclicamente. FM
2003-11-17
 
A praga dos directos
Preparava-me para ver o concerto do sensacional Compay Segundo, sexta à noite, na RTP1.
A transmissão estava anunciada para a 1:30. Sintonizei a RTP1 era 1:25. O concerto já tinha começado... À 1:32 houve um intervalo de dez minutos. Da transmissão original, de uma hora, acabei por assistir somente a pouco mais de metade.
Histórias como esta ocorrem todos os dias e os portugueses parecem aceitá-las muito bem, de tal forma estão habituados a elas. Eu não estou habituado e nem as aceito. Desde há muito que defendo, e já o escrevi no Blog de Esquerda, que o principal problema, a pior característica da televisão portuguesa é o total incumprimento dos horários. A justificação para tal não é somente os compromissos publicitários, como eu julguei por algum tempo (por comparação com os pontuais canais por cabo). Nos EUA não há menos publicidade na televisão em sinal aberto (bem pelo contrário), e os horários são cumpridos. O problema em Portugal surgiu desde que se convencionou que todos os programas transmitidos em directo (não só os eventos desportivos, para os quais ainda pode haver alguma justificação) começam e não têm hora para acabar. Tal acontece particularmente com (todos) os telejornais, e é uma consequência directa da tabloidização dos mesmos. E é ver-se, nos três canais generalistas, com começo à hora marcada (oito da noite) sucederem-se os directos a propósito dos motivos mais absurdos, as gravações das novelas da TVI que foram assombradas, o "povo" (que na sua maioria votou no actual governo ou não votou) sempre a ser ouvido e a queixar-se do mesmo, os comentadores, as mesmas reportagens que já passaram à hora do almoço, o resumo dos mesmos jogos de futebol. Não importa a que horas o telejornal acabe: de seguida seguem-se mais directos, seja da "Operação Triunfo", dos "Ídolos" ou do "Big Brother". Entrevistam-se os concorrentes e respectivas famílias. E ninguém se importa a que horas dão as telenovelas. Nem as séries ou os filmes ou concertos, atirados para a madrugada. Eu até já nem me importaria com isso (felizmente tenho videogravador), desde que esses programas dessem... à hora marcada! Só que isso, nem as próprias estações de televisão sabem prever: é à hora que calhar! Geralmente muito mais tarde do que o previsto, mas às vezes há programas suprimidos para compensar a larga duração dos "directos", e acaba por acontecer o que aconteceu com o concerto do Compay...
Finalmente parece haver um grupo de espectadores sensíveis a esta praga. A credibilização da informação televisiva e o respeito pelos horários da televisão em Portugal estão directamente relacionados e formam uma causa a defender. FM

 
Má fama aos Filipes
O EURO 2004 é um assunto controverso. Eu próprio não tenho uma opinião bem definida sobre o assunto. É claro que a construção de (tantos) novos estádios acarreta uma grande porção do erário público; o que é discutível é a relativa (in)utilidade dos novos estádios. Agora, uma coisa está a tornar-se clara, e deveríamos interiorizá-la desde já: em todo este processo, o dinheiro mais desperdiçado no EURO 2004 é o do chorudo salário do selecionador Luiz Felipe Scolari. Ainda bem que este pinochetista que só foi campeão do mundo por acaso não sabe escrever (ou escreve mal) o seu (meu) nome. (Isto não tem nada a ver com a grafia brasileira em geral; somente com o Felipe.) FM

 
Um texto que eu poderia ter escrito...
...salvaguardando o talento para a escrita do respectivo autor. Mas, quando vi a reportagem das imagens de santas a chorarem no distrito de Aveiro, tive a mesma ideia que o Zé Mário. FM

2003-11-16
 
Da honestidade
Hoje no Público, três docentes do ensino superior escrevem sobre o Liceu Francês e a necessidade de um factor de conversão das notas deste para o acesso ao ensino superior.
Dizem-nos logo no primeiro parágrafo:"A nossa posição de docentes e responsáveis por organismos científicos permite-nos ter uma visão algo diferente da maioria dos cidadãos e por isso, seguramente, fornecedor um contributo importante para a discussão do estatuto dessa escola no panorama do ensino português."
Não pondo minimamente em causa o que é defendido no referido artigo, pergunto-me se de facto estas três iluminadas personalidades falam apenas na posição imparcial de "docentes e responsáveis por organismos científicos", ou se também não estarão a falar enquanto pais de alunos da referida escola?AG
2003-11-14
 
Poderia acontecer a mim...
...e a muitos outros bloggers uma história como esta. FM
2003-11-13
 
Uma frase a reter
"Há vinte anos que eu penso que, se houver terceira guerra mundial, ela surgirá por causa de Israel e da sua continuada cegueira e tentação de resolver o problema palestiniano, não através de um qualquer acordo de paz, mas através, desculpem, da "solução final" - do extermínio político, cívico e, se necessário, humano dos palestinianos." (Miguel Sousa Tavares)

O texto completo, no "Público" de 7 de Novembro, está aqui. FM
 
A transição do DN (I)
Quem usava e abusava para lá dos limites do minimamente decente deste tipo de "argumentação" ("quem não está comigo é antiamericano e antisemita") era este senhor, de seu nome António RF (Rabino Fundamentalista - quem achar um possí­vel significado para o A, comunique-nos).
ARF foi director-adjunto do DN desde 1996 até ao passado Domingo. Conforme se poderão recordar, durante a administração Clinton ARF começou por atacar fortemente a NATO e a sua intervenção no Kosovo. Alcunhou a NATO de "maior esquadrão da morte do planeta" e classificou a referida intervenção (apoiada pelos governos europeus, na sua generalidade de esquerda, e fortemente apoiada pela já social-democrata/ecologista Alemanha, como se recordam) como uma tentativa de vingar a "humilhante derrota de Hitler nos Balcãs".
Entretanto, ainda antes do nazi-hebraico Ariel Sharon ser eleito Primeiro-Ministro de Israel, aquando da provocatória visita à Esplanada das Mesquitas de Jerusalém que originou a Intifada de Al-Aqsa, já contava, como posteriormente sempre contou, com o apoio incondicional de ARF, o que seria um caso raro na imprensa ocidental e único na imprensa europeia (supostamente) de "referência".
A grande viragem do DN foi "assumida" no dia 12 de Setembro de 2001. Bastava ver as primeiras páginas dos jornais: enquanto o "Público" intitulava o 11 de Setembro, qual "The New York Times", como "o atentado que mudou o mundo", o que constituiu um bom sumário para a posteridade daquele dia horrível, válido ainda hoje, o DN escrevia, simplesmente, "Guerra" em letras duplamente garrafais (ocupavam duas páginas), qual "New York Post". ARF, a partir daí, definitivamente "pôs as manguinhas de fora" e os editoriais do DN tornaram-se insuportáveis para qualquer pessoa equilibrada. O que era "o maior esquadrão de morte do mundo" sob a administração Clinton tornou-se, sob a administração Bush, uma máquina "vingadora" e "libertadora".
O que mais me surpreendeu em ARF foi o facto de ter sido nomeado durante um Governo PS (que, pelos vistos, não sabia escolher os seus boys assim tão bem) e a relativa complacência com que os seus artigos, alguns deles peças de puro fascismo (estou a lembrar-me de, a 10 de Junho de 2002, se ter referido ao "Dia da Raça"), eram aceites. A malta de esquerda preferia atirar-se ao Luís Delgado que, ao contrário de ARF, nunca escondeu minimamente o que defendia e que escrevia artigos que, às vezes de tão risíveis, não eram para ser levados a sério.
A presença de ARF na direcção do DN representou - estou certo disso - uma grande quebra nas vendas do jornal e a recusa do mesmo por parte dos leitores habituados a Ferreira Fernandes. A "crise" e a "recessão" não podem servir de justificação, pois não afectaram a concorrência. Terá sido por este motivo que ARF foi afastado do DN. O que, em nome do pluralismo, e independentemente do que a nova direcção venha a fazer, só é de saudar. FM
2003-11-12
 
Move on, Gore
O combate à guerra do Iraque permitiu-me, ainda em terras do tio Sam, tomar contacto com democratas, ecologistas, trotskistas, comunistas e outros liberals. Destes, os mais influentes são (por terem mais dinheiro) os democratas da "linha Howard Dean" do movimento Move On.
O antigo vice-presidente americano Al Gore discursou num evento organizado por este movimento no passado Domingo. Aqui ficam as principais ideias por ele defendidas (o discurso completo pode ser (tele)visto aqui):

"I want to challenge the Bush Administration's implicit assumption that we have to give up many of our traditional freedoms in order to be safe from terrorists.
Because it is simply not true.
In fact, in my opinion, it makes no more sense to launch an assault on our civil liberties as the best way to get at terrorists than it did to launch an invasion of Iraq as the best way to get at Osama Bin Laden.
In both cases, the Administration has attacked the wrong target.
In both cases they have recklessly put our country in grave and unnecessary danger, while avoiding and neglecting obvious and much more important challenges that would actually help to protect the country.
In both cases, the administration has fostered false impressions and misled the nation with superficial, emotional and manipulative presentations that are not worthy of American Democracy.
In both cases they have exploited public fears for partisan political gain and postured themselves as bold defenders of
our country while actually weakening not strengthening America
."

Gosto de mostrar este tipo de discursos por várias razões: para mostrar a uma certa esquerda que a América não é só Bush, e para mostrar aos meninos da "Geração de 70" e outros que tais que é possível criticar a política americana sem se ser necessariamente "antiamericano". Ou será que Al Gore, Jimmy Carter e tantos outros são "antiamericanos"? FM

 
Belleville Rendez-Vous
Já ouviram falar deste brilhante (não perfeito, mas brilhante) filme de gangsters cuja a heroína é uma carrancuda avozinha portuguesa saída de um subúrbio de Paris que dá pelo nome de Mme. Souza.
É uma produção franco-belgo-canadiana de animação dirigida por Sylvain Chomet e podem saber mais sobre ela aqui.
Para quem tiver dúvidas sobre a lusitanidade de Mme. Souza, ela brinda-nos com uma versão bem lusa (embora um pouco... schoenbergiana) de um clássico da canção nacional.
Uma heroína portuguesa numa longa metragem estrangeira - merece um lugar no Panteão ou mesmo nos Jerónimos. Nos dias que correm é uma façanha bem mais dificil do que velejar até à India ou escrever poemas épicos em dodecassílabos.
AG
2003-11-11
 
A direita segundo Cunhal
"Pessoalmente, não os odeio. (...) A classe, sim, odeio, odeio com um ódio de morte. Odeio-lhes a moral, as ideias, os hábitos, os sentimentos, as palavras. Tudo quanto vem deles é empeçonhado. Temos de fazer o mundo de novo, amigo." (Manuel Tiago, Até Amanhã, Camaradas)

(Nota: na evocação de Álvaro Cunhal publicada no DN de ontem, o desenho de um homem a andar de bicicleta que servia de ilustração foi tirado da capa da edição ilustrada deste mesmo livro e é da autoria de Rogério Ribeiro, que também foi o coordenador da execução do painel que se encontra à entrada da sede do PCP.) FM
 
Esquerda
Os textos anteriores do Rui (com os quais concordo, embora ache que não podemos argumentar assim ab aeternum) colocam-nos de acordo a mim, ao Pacheco Pereira, ao Pedro Mexia e a tantos outros: são autêntico texto de esquerda, a esquerda verdadeira, por tudo o que têm de optimismo, crença na Humanidade e, sobretudo, crença na História (para além de um ou outro erro de ortografia...). Refiro aqui a História como trajecto para um objectivo a alcançar, uma ideia muito referida por Pacheco Pereira (que também escreve uns textos de esquerda às vezes). Muito bem, Rui. Um grande abraço! FM

 
O Homem e a Máquina
Entretanto os ideais da Revolução Francesa são hoje "universais". O Homem evoluiu?
Duvido. O Homem não existe, o que existe é mesmo só o homem, assim com minúsculas. Mortal, e débil. Dura agora um pouco mais mas se ele aprende mais é graças a que existe mais para aprender, a que graças ás descobertas acumuladas existem melhores condiçoes para ele aprender. Mas ele continua minúsculo, qualquer treta e toma com Bush, Bin Laden, etc. Continuamos a ser os mesmos macacos e se hoje nos damos ao luxo de sermos "melhores" é graças a máquina. A tecnologia, o conhecimento, mas para a maior parte das pessoas a tecnologia tão somente, é o que possibilita a condição de bem estar miníma para que ousemos ser "bons".
Se costuma dizer que escápamos a evolução natural e agora somos lamarckianos.
Um dia a máquina nos virá salvar e nos fará de tal forma feliz que ousaremos todos ou a maior parte de nós (nunca somos todos e ainda bem) ser comunistas. Assim Marx e a máquina a vapor de mãos dadas.
RF
2003-11-10
 
Balanço do comunismo
Alguém se lembra quão sanguinários foram os tempos posteriores a Revolução Francesa, incluindo a própria Revolução, é claro? Todos se lembram... muito poucas vezes.
Os ideais daquela Revolução se tornaram de tal forma universais que a sua importância para uma definição de base de qualquer política minímamente digna do ponto de vista moral ofuscaram o que a Revolução em si significou de barbárie, violência e desprezo pelo individúo em si no seu momento.
O mesmo penso se passa, ou melhor, passará, com a Revolução Comunista Russa.
Esta Revolução em si na práctica e em especial os tempos que se lhe seguiram não me fascinam.
Creio que é muito complicado fazer um balanço positivo agora da Revolução Comunista Russa. Este balanço a ser feito o será no futuro. Quando a base moral que lhe inspirou sejam suficientemente universais para fazer esquecer o horror que ela veio a provocar em seu momento. Esperemos todos que chegue o dia. Se a história for racional e eu creio que em parte o é esse dia inevitavelmente chegará.
Mas convém não esquecer que da Revolução Francesa ao século XX das democracias e do políticamente correcto decorreram uns aninhos...RF
 
Propinas (2) – Comparação com os EUA
Fui aluno de licenciatura em Portugal e de doutoramento nos EUA. Dei aulas a alunos de licenciatura de ambos os países. Posso portanto comparar os respectivos sistemas de ensino e financiamento.
Julgo que tal comparação faz sentido neste contexto, dado que os alunos americanos pagam um montante substancial de propinas quando comparado com o pago pelos portugueses, mesmo tendo em conta as diferenças entre rendimentos médios e PIBs de ambos os países.
Há que referir que nos EUA, como em Portugal, as universidades privadas cobram propinas muito mais elevadas do que as públicas. Mesmo assim, as famílias em condições de optar preferem as universidades privadas, por estas serem em geral as mais conhecidas e prestigiadas. Por muitos exemplos em contrário que sejam referidos, verdadeiras excepções que confirmam a regra, a verdade é que os filhos das famílias mais abastadas nos EUA frequentam as melhores universidades privadas, pelo menos ao nível de licenciatura, sendo nesse aspecto bastante privilegiados. O pagamento de propinas só acentua esta desigualdade, criando um autêntico sistema de castas que nada tem a ver com o mérito pessoal. Tomando como exemplo a universidade (estatal) que frequentei, localizada numa zona rica de Long Island: era frequentada, nos cursos de licenciatura, principalmente pelos filhos das classes trabalhadoras de Queens e Brooklyn, apesar de ter professores de Matemática, Física, Medicina e Engenharia porventura muito melhores do que muitas universidades privadas mas cuja frequência é considerada muito prestigiante. Mas o melhor exemplo será mesmo o do actual presidente dos EUA, formado em duas prestigiadas universidades privadas. É um facto aceite mesmo pelos seus apoiantes menos fanáticos que Bush só frequentou tais universidades devido à influência do seu pai...
Estas distorções só são possíveis num sistema em que as universidades escolhem elas próprias directamente os alunos que aceitam (mesmo as públicas), e são financiadas principalmente por propinas, cujo montante (no caso das universidades privadas) elas mesmas fixam. Dado que há quem tenha em mente um sistema em tudo semelhante em Portugal (que passará forçosamente pela privatização de algumas das nossas melhores universidades), convém ter estes dados em conta.
Significa isto que tudo neste tipo de sistema é mau? De maneira nenhuma, nem pouco mais ou menos. As vantagens deste sistema ficarão para mais tarde. FM

 
Balanço do comunismo
Filipe, concordo com o balanço que fazes dos aspectos que ainda se podem considerar positivos da influência do comunismo no século 20. Primeiro: ao contrário de um mito muito espalhado, foi o Exército Vermelho (e não as democracias ocidentais) que derrotou o nazismo. Segundo: foi graças ao movimento operário ocidental, e à pressão simultânea que constituía o comunismo da Europa de Leste, que se conseguiram os avanços sociais e laborais social democráticos (quanto a mim, a pior consequência da queda do comunismo foi a viragem à direita da Internacional Socialista desde 1990). Terceiro: parece-me que também devemos colocar na folha de balanço o apoio da URSS e demais «vermelhos» ao movimento descolonizador que, desde 1945, pôs um fim, mesmo que relativo e ambíguo, a séculos de colonialismo. (Apesar dos problemas que muitas ex-colónias europeias enfrentam, na África, na Ásia e na Oceânia, a libertação dessas regiões da tutela colonial permanece como um dos maiores progressos do século 20). (Ricardo Alves)

(Resposta breve: tens toda a razão, Ricardo. O papel do comunismo no fim do colonialismo também não pode ser esquecido. Obrigado pelo teu comentário. FM)
2003-11-07
 
7 de Novembro de 2003
Não quero terminar sem me referir aos desenvolvimentos contemporâneos.
O artigo de Álvaro Cunhal é, de facto, lamentável sem ser verdadeiramente surpreendente. Na verdade começa bem, ao reconhecer que a acção de 11 de Setembro de 2001 foi “terrorista” (nada mau, se pensarmos nas teses delirantes que se ouviram na altura, por parte de responsáveis do seu partido e não só). As considerações que tece sobre o combate ao terrorismo e a acção dos EUA também me parecem bem.
Porém, defender e esperar alguma coisa dos países com “comunistas” no poder (China, Cuba, Vietname, Laos, Coreia do Norte) só confirma que Álvaro Cunhal foi ultrapassado pela História e já nela não voltará a ter grande participação. Nem ele, nem a esquerda que o idolatra e que segue à risca tudo aquilo que diz. Não é essa esquerda que constituirá o necessário “perigo vermelho”. Dessa esquerda, só podemos ter pena e concluir que o 7 de Novembro de 1917 não valeu a pena.
No entanto, ao pensar em homens como Gorbachev e ao ler a sua entrevista, direi que algo valeu a pena, afinal, e que ainda há esperança.
Vou ver, hoje à tarde, o filme “Adeus, Lénine”. É bom não esquecer que o muro caíu faz no Domingo catorze anos. FM

 
7 de Novembro de 1974
Nasci às 20:10 em Lisboa. No dia seguinte, quis o destino (sim, o destino...) que a primeira peça de roupa que vesti na vida fosse um fato vermelho. Circulava ao colo do meu pai que, embevecido, perguntava a todos os membros da família: “Já viram o meu comunistazinho? " FM
 
7 de Novembro de 1917
Como analisar a Revolução Bolchevista, 86 anos depois?
Muito já terá sido escrito e dito sobre este assunto. Por minha parte, adolescente que era aquando da queda do Muro de Berlim, já não devo ter ilusões. A História está contada e os factos são conhecidos. Não vou pôr-me a recordar as peripécias da revolução e nem a esperança que esta trouxe a muita gente (sugiro, para tal, uma revisitação do filme Reds de Warren Beatty). Tão-pouco reverei o estalinismo e os seus crimes, pois hoje em dia é tópico de discussão comum, com a qual eu me congratulo e na qual participo.
Apenas direi, em jeito de balanço, duas coisas que são frequentemente esquecidas, mas não o podem ser numa análise honesta. A primeira é que a URSS foi decisiva para a derrota de Hitler. A segunda é que foi o medo do comunismo no Ocidente que forçou um notável desenvolvimento social e consequente melhoria das condições de vida dos trabalhadores. Estado-providência, segurança social, sindicatos livres, férias remuneradas, teriam sido muito mais difíceis de conseguir se não fosse o “medo dos vermelhos” por parte do patronato. Numa altura em que, em Portugal e em grande parte do resto do mundo, se observa um ataque sem paralelo a estes direitos (não ao que neles funcione mal, mas aos direitos em si), numa atitude de desforra da História por parte de um patronato que condescendeu mas nunca os aceitou, vale a pena pensar nisto. É uma consequência natural de só haver uma superpotência, sem ninguém que lhe faça frente, governada por gente que ainda não se conformou com o ter perdido a Guerra Civil.
Vale a pena pensar na falta que um “perigo vermelho” faz. FM

 
Technicolor

Ernst Ludwig Kirchner: "Zwei Frauen auf der Strasse"
AG
2003-11-06
 
As propinas (I): a questão da qualidade
Vou ao longo dos próximos dias abordar os diferentes aspectos do problema das propinas.
A minha posição geral é a mesma do João, com algumas diferenças em pormenores que, por agora, não são significativos (pode ser que o venham a ser no futuro). Parece-me no entanto que o João está a adiar a sua resposta ao problema. João, na hipótese de as Universidades portuguesas serem tão boas como tu e eu desejaríamos, aceitarias que se pagassem propinas ou não?
De qualquer maneira, parece-me ilegítimo que se peça aos estudantes e às suas famílias para pagarem mais exactamente pelo mesmo produto, só que "requentado". Até porque a experiência destes anos demonstra que as propinas não se traduzem numa melhoria da qualidade do ensino. A única consequência visível das propinas tem sido o continuado desinvestimento do Estado, pelo menos nos Governos PSD.
E é isso que me leva a duvidar seriamente das intenções do Governo quando afirma que este aumento é "em nome da qualidade".
Podem chamar-nos (a mim e ao João) "americanizados", mas a verdade é que nas Universidades americanas em geral há uma qualidade que nas Universidades portuguesas não há. Regressando ao debate de há duas semanas na RTP1, deu-me pilhas de raiva ver o Prof. Barata Moura afirmar despreocupadamente que as Universidades portuguesas têm qualidade. O que é verdade é que, conforme afirmou o Prof. Tribolet, as Universidades portuguesas são terrivelmente ineficientes. São um autêntico desperdício de recursos!
No referido debate, concordei com quase todo o diagnóstico do Prof. Tribolet, mas discordo drasticamente da receita por ele proposta para resolver os problemas. O Prof. Tribolet era a favor das propinas, mas todos os seus argumentos eram contra! Ou será que ele acha que é a dizer que as Universidades portuguesas desperdiçam recursos que ele convence seja quem for a pôr lá dinheiro?
As Universidades americanas são mais exigentes do que as portuguesas (e isto não tem nada a ver com "exames mais difíceis", que é o que a cultura livresca indígena entende por "exigência"). Terá isto a ver com o facto de os seus alunos pagarem propinas elevadas, apesar dos apoios referidos pelo João? É possível que sim, em parte, mas de certeza que não explica tudo. Voltarei a este assunto da qualidade do ensino, uma vez que conheço por dentro os dois sistemas.
Por outro lado, gostaria francamente de ver os estudantes pedirem mais qualidade. A verdade é que, com o actual sistema, não podem pedir mais qualidade e ser contra uma lei de prescrições. A qualidade do ensino também se traduz na exigência, e não é por isso compatível com o insucesso escolar sistemático. Mas a atitude dos alunos face ao Ensino também ficará para outro dia. FM
2003-11-04
 
Onde é que eu já vi isto?
Imaginem um blogue vagamente kafkiano, onde escreve um rapaz português, de esquerda e sportinguista, a fazer doutoramento em Física Teórica nos EUA. Querem saber ao que me refiro? Vejam aqui. FM
 
Novos blogues
A confirmarem, uma vez mais, o Blog de Esquerda como a maior escola bloguística nacional, só comparável com a Academia de Alcochete no domínio do futebol, é com todo o prazer que anuncio mais dois blogues, ambos da responsabilidade do Tiago Barbosa Ribeiro, itálico como eu. Temos assim um blogue pessoal, Murmúrios do Silêncio, e um blogue de trabalho (presumo): Guerra Civil Espanhola. A serem lidos com atenção. FM
2003-11-03
 
Memória real
Enquanto o Ivan e o Tulius não nos oferecem uma descrição da Parada de Halloween deste ano, fiquemos com os textos "coordenadas vitais" (sei como isso é...) e "confesso que praxei" (isso já não sei tanto). FM

 
The SPOT
Para que é que eu estive com esta lenga-lenga toda? Bem, este Sábado o Rui esteve em Lisboa. Fomos jantar com mais AAs da LEFT. Depois do jantar, na Rua da Atalaia, números 25 e 27, encontrámos um bar todo enfeitado para o Halloween. O nome do bar? The SPOT. Como diria o Caetano, alguma coisa aconteceu no meu coração... FM
 
Festas de Long Island (II)
A alternativa era quando havia festas no "The SPOT". O SPOT era um bar e ponto de encontro no Campus, da responsabilidade da associação de estudantes de doutoramento e onde às vezes eram organizadas festas democráticas para estes alunos (mas de acesso gratuito exclusivo a estes! Os convidados teriam de pagar entrada). Apareciam geralmente os "excluídos" do clube privado.
No Halloween havia sempre duas festas: a "pública" e a "privada", que competiam entre si pelo número de alunos. Eram sempre as mesmas pessoas em ambas as festas. Algumas das pessoas poderiam atrair-me, e se eu ia às festas era para me encontrar com elas, mas não posso dizer que gostasse muito. Obviamente sentia-me melhor na festa do SPOT.
Entretanto, este ano o SPOT acabou e as festas públicas também... Essa é uma história triste a que regressarei. FM
 
Festas de Long Island (I)
Em Stony Brook, onde estudei, as festas eram geralmente organizadas em casas grandes habitadas por alunos de doutoramento. "Espalhava-se" durante a semana que haveria uma festa na casa tal, no dia X a tal hora, e apareciam os alunos de doutoramento americanos (e alguns mais americanizados) quase todos. Este foi um conceito de festa que sempre me fez confusão. A verdade é que poucas vezes (as vezes a que fui) alguém responsável pelas festas me convidou explicitamente. Era sabido que bastaria aparecer, que a minha presença seria automaticamente aceite. Ora eu, como bom marxista, nesta altura nunca poderia aparecer. Depois, nunca percebi se era suposto levar cerveja, e a verdade é que às vezes aqueles tipos bebiam que nem loucos e o ambiente tornava-se desagradável. Finalmente, eu nunca poderia oferecer uma festa dessas nos exíguos apartamentos T0 (ou T-1) que habitei, e tinha a sensação de que aquelas festas eram apesar de tudo um clube mais ou menos privado, cuja organização ia rodando entre os seus diferentes membros. Eram o entretenimento, a vida cultural que um subúrbio como Long Island poderia oferecer.
Vai daí, preferia dar à chave do meu querido e saudoso Hyundai Accent 1998 e rumar a Manhattan, onde o divertimento é para todos os que o possam pagar, mas sem necessidade de convite. FM
2003-11-02
 
Para a Carla
Neste dia, uma entrada mais pessoal.
“Ao entregar-se, a mulher experimentada parece dar mais do que a si mesma; enquanto a jovem, ignorante e crédula, não sabendo nada, nada pode comparar, nem apreciar. (...) Manifestam-se, aliás, indecisões, receios, temores, tempestades, na mulher de 30 anos que são impossíveis de encontrar numa rapariga. Chegada àquela idade, a mulher exige de um jovem que este lhe restitua a estima que ela lhe sacrificou; (...) ao passo que a rapariga só sabe queixar-se. Em suma, além de todas as vantagens da sua posição, a mulher de 30 anos pode tornar-se rapariga, desempenhar todos os papéis, ser pudica e ir ao ponto de se embelezar com uma infelicidade. Entre ambas ergue-se a incomensurável diferença existente entre o previsto e o imprevisto, entre a força e a fraqueza. A mulher de 30 anos satisfaz tudo e a jovem, sob pena de não o ser, nada satisfará.” (Honoré de Balzac, A Mulher de Trinta Anos) FM


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