Estrangeiros no momento
2003-11-25
 
Mickey
No passado dia 18, 75 anos passaram desde a criação do Mickey. Segundo reza a história, Walt Disney teve a ideia de criar uma personagem que era um rato ao observar um destes animais no seu próprio escritório. Esta foi uma efeméride que passou despercebida em grande parte da blogosfera. Mas não passou, e nem poderia passar, despercebida a mim. Eu aprendi a ler com as revistas Disney! (Na verdade, sempre preferi o Patinhas.)
As revistas Disney pertencem ao mesmo pacote de produtos que, como a Coca-Cola, são símbolos comerciais do 25 de Abril. Ignoro se, antes de 1974, as revistas Disney brasileiras já circulavam em Portugal, mas sei que a sua grande explosão se deu logo após, justamente com a minha geração, com a posterior consequente edição directamente em Portugal (em português europeu). Nem de propósito, a editora que as publica no Brasil (propriedade de uns judeus italianos de esquerda, o mesmo grupo que viria a descobrir o escândalo que derrubou Collor de Melo) chama-se... Abril (neste caso, uma evocação da libertação da Itália do fascismo). Em Portugal, infelizmente, a subsidiária chamava-se Morumbi, nome de um bairro fino de São Paulo, até ser integrada no grupo de Balsemão.
As revistas Disney, que supostamente representavam a moral americana, o estilo americano de vida, chegavam a minha casa envolvidas no Diário de Lisboa. A partir do momento em que começou a minha consciencialização política séria, havia uma contradição entre a moral de certas histórias americanas (notem o americanas - bem diferentes das brasileiras ou italianas) e a Política de A a Z de Fernando Piteira Santos, ou o Canal da Crítica de Mário Castrim. E sei que, em outras famílias, chegava embrulhada em "O Diário". Quem sabe, até mesmo no "Avante"!
Por tudo isto, a minha geração também é a geração das revistas Disney, e uma geração não pode cortar assim tão facilmente com as suas referências. Quem cresceu entre Disney e Marx, a certa altura teve de fazer uma opção. (A maior parte das vezes fala-se da escolha entre Cristo e Marx, mas creio que para a minha geração, urbana, laicizada, democratizada e americanizada, Disney foi bem mais influente do que Cristo.)
Para alguns, como o João Miguel Tavares (os seus colegas de coluna nunca tiveram verdadeiramente de fazer esta opção), a escolha definitiva veio a seguir ao 11 de Setembro de 2001. Mas para mim e creio que para a maior parte das pessoas a opção não foi tão radical. Se o Mickey era apresentado como um "defensor da lei e da ordem" nas bandas desenhadas americanas (como sempre, o Bem contra o Mal), a verdade é que nem tudo se resumia a estas histórias. Outras histórias Disney, escritas no Brasil e principalmente na Itália, apresentavam um humor mais adulto e outras preocupações sociais. Tinham uma preocupação mais de divertir e menos de educar. Neste aspecto, a banda desenhada Disney aproxima-se muito mais, enquanto "conquista de Abril", das novelas brasileiras do que da Coca-Cola. A sua influência deveria ser reavaliada.
A esquerda recorda, com razão, Walt Disney como um colaborador de McCarthy e um apóstolo do conservadorismo social que caracteriza um estilo americano de vida. Mas o Mickey, "símbolo universal da boa vontade" nas palavras de Jimmy Carter, não tem culpa. FM


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