Estrangeiros no momento
2003-11-10
 
Propinas (2) – Comparação com os EUA
Fui aluno de licenciatura em Portugal e de doutoramento nos EUA. Dei aulas a alunos de licenciatura de ambos os países. Posso portanto comparar os respectivos sistemas de ensino e financiamento.
Julgo que tal comparação faz sentido neste contexto, dado que os alunos americanos pagam um montante substancial de propinas quando comparado com o pago pelos portugueses, mesmo tendo em conta as diferenças entre rendimentos médios e PIBs de ambos os países.
Há que referir que nos EUA, como em Portugal, as universidades privadas cobram propinas muito mais elevadas do que as públicas. Mesmo assim, as famílias em condições de optar preferem as universidades privadas, por estas serem em geral as mais conhecidas e prestigiadas. Por muitos exemplos em contrário que sejam referidos, verdadeiras excepções que confirmam a regra, a verdade é que os filhos das famílias mais abastadas nos EUA frequentam as melhores universidades privadas, pelo menos ao nível de licenciatura, sendo nesse aspecto bastante privilegiados. O pagamento de propinas só acentua esta desigualdade, criando um autêntico sistema de castas que nada tem a ver com o mérito pessoal. Tomando como exemplo a universidade (estatal) que frequentei, localizada numa zona rica de Long Island: era frequentada, nos cursos de licenciatura, principalmente pelos filhos das classes trabalhadoras de Queens e Brooklyn, apesar de ter professores de Matemática, Física, Medicina e Engenharia porventura muito melhores do que muitas universidades privadas mas cuja frequência é considerada muito prestigiante. Mas o melhor exemplo será mesmo o do actual presidente dos EUA, formado em duas prestigiadas universidades privadas. É um facto aceite mesmo pelos seus apoiantes menos fanáticos que Bush só frequentou tais universidades devido à influência do seu pai...
Estas distorções só são possíveis num sistema em que as universidades escolhem elas próprias directamente os alunos que aceitam (mesmo as públicas), e são financiadas principalmente por propinas, cujo montante (no caso das universidades privadas) elas mesmas fixam. Dado que há quem tenha em mente um sistema em tudo semelhante em Portugal (que passará forçosamente pela privatização de algumas das nossas melhores universidades), convém ter estes dados em conta.
Significa isto que tudo neste tipo de sistema é mau? De maneira nenhuma, nem pouco mais ou menos. As vantagens deste sistema ficarão para mais tarde. FM


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