Estrangeiros no momento
2003-12-30
 
Pouca escrita
O tempo não é muito para actualizar os blogues. E também não é muito para os ler. No meu caso, para além do espaço natural reservado a estar com a família, tenho-me dedicado a rever amigos (esta é a época em que se fazem os "jantares anuais" de tudo o que é grupo de amigos). Principalmente os meus (muitos) amigos que são "estrangeiros no momento", mais do que eu, o Nuno e o Guilherme temos sido.
A partir de Janeiro voltaremos ao ritmo normal. FM
 
Natal na estrada e no jornal
Está certo que as estatísticas dos acidentes de viação em Portugal são preocupantes, mas a campanha securitária e os títulos catastrofistas do DN são um exagero perfeito. Este Natal foi anunciado como tendo sido "o pior dos últimos três anos" nas estradas portuguesas. E se não tivesse sido? Se tivesse sido melhor que o do ano passado? Provavelmente teria sido anunciado como "o pior Natal deste ano", ou "o pior Natal do mês de Dezembro". FM
2003-12-23
 
Votos desta época
O Natal, hoje em dia, tem muito pouco de religioso. É sobretudo a festa do comércio e do consumo. Mas acima de tudo, para mim, o Natal é uma data que torna as pessoas na generalidade (pelo menos no Ocidente) mais felizes. As pessoas de todas as nacionalidades, cristãos, agnósticos e ateus. Os judeus têm o Hannukah. Antes de Cristo, já se festejava o solestício de Inverno. Esta é uma das razões para eu, que adoro manifestações colectivas, gostar muito desta altura do ano.
Espero que seja esse o caso dos nossos leitores, qualquer que seja a sua nacionalidade e religião, e onde quer que estejam: que sejam mais felizes nesta época. Season's greetings, como se diz nos EUA. Bom Natal para todos. FM
2003-12-22
 
Bush Jr vs. Saddan
Com medo de que este blog comece a ficar "respeitável" é muito importante começar por dizer que na opinião de parte deste blog (creio que não é só minha) Bush Jr representa uma ameaça muitissimo maior ao mundo que Saddam. Que representa neste exacto momento é uma obviedade, mas já representava antes da invasão do Iraque. E creio que é a isso que FM se refere de uma forma ou outra com su "ma non troppo".
Neste sentido abrir champanhe com a força de um orgasmo só teremos quando Bush Jr e o que ele representa seja varrido (pelo menos durante o máximo de tempo possível) do espectro político internacional.
É preciso dizer que todas as maldades que Saddan perpetuou e que são espampaneadas pela direita americana (e não só) agora, foram apoiadas e financiadas pela direita republicana, e pessoalmente por elementos da administração norte-americana actual. Pretender amenizar e esconder isto é tomar aos demais por estúpidos.
Tudo teria permanecido igual não fosse o estúpido do Saddan ter-se lembrado de invadir o Kuwait. O mau de servicio seria um imã qualquer do Irão, e Saddan passaria até por ser para estes senhores um líder de um país do Oriente Médio dentro do que cabe (ou caberia) bastante razoável e sensato.
Estúpidos e odiosos líderes políticos existem em toda parte, o maior problema é chegarem ao poder, e principalmente chegarem ao poder em países fulcrais como os EUA.
Ser da esquerda radical é óbviamente uma medida relativa, e dependendo de em relação a quê, um enorme elogio. Principalmente no momento actual em que os grandes líderes da direita mundial têem uma representação do calibre intelectual de senhores como Bush Jr e Berlusconi. Ser da esquerda moderada tão pouco é muito reconfortante, se se inclui nela personagens como Tony Blair. Assim que prefiro estar com a esquerda radical onde incluiríamos Koffi Annan e Jimmy Carter...
RF
P.S.:Qualquer representante ocidental (não iraquí) que tenha aberto uma garrafa de chamapanhe quando o Saddan foi preso é suspeito... muito.

2003-12-18
 
Kitty Hawk, North Carolina

Foi aqui, fez ontem cem anos, que começou a aviação. O primeiro vôo bem sucedido minimamente controlado com um aparelho motorizado. FM

 
Remarks and disclaimers
Finalmente, para evitar ser mal entendido, convém esclarecer duas coisas. Quando classifico como "honestidade intelectual" a atitude do Pedro Mexia quanto a separar a captura da política, tal não implica que quem faça o contrário seja necessariamente desonesto. Eu faço o contrário, e não ia chamar desonesto a mim próprio. O Pedro Lomba também é honesto, até porque escreve "não questiono a legitimidade e, muito menos, a sinceridade de quem aplaude a prisão de Saddam, mantendo uma posição crítica sobre a guerra."
De igual modo, quando escrevo que "não sou hipócrita" quando afirmo que não abro o champanhe, estou a falar só por mim. Aceito perfeitamente que o Zé Mário e o Manel o abram e que sintam este assunto de uma forma diferente da minha. Eu (e só eu) sentir-me-ia hipócrita a "tomar champanhe" nestas circunstâncias. Mas as pessoas são diferentes. A vida é real e de viés.
Queria somente deixar um abraço aos poetas líricos e ao pragmático advogado (e ao "duro" lá de Paris). Quando tiver oportunidade de estar mais um bocado com vocês, até bebo champanhe. FM
 
Lirismos e pragmatismos
Já por diversas ocasiões o Pedro Mexia afirmou que o Zé Mário é um puro (não confundir com os charutos), um idealista. O Pedro conhece o Zé Mário muito melhor do que eu. Mas, pelo que eu conheço de ambos, afirmo isso mesmo dos dois: do Pedro e do Zé Mário. Cada um à sua maneira, são dois puros, dois indivíduos com uma cara só e que acreditam numa só coisa. Isso ficou bem demonstrado nos textos que ambos têm escrito nos últimos dias. É devido a isso que o Zé Mário abre o champanhe com a queda de um ditador sanguinário, seja em que circunstância for. É - estou perfeitamente convencido - por achar que é o melhor para o povo iraquiano e para o mundo que o Pedro defendeu a intervenção americana. E depois, o Pedro dá uma demonstração de honestidade intelectual quando escreve "Não percebo por que é que aqueles que foram contra a guerra não podem dizer que a captura de Saddam é uma boa notícia. São, evidentemente, coisas diferentes." Principalmente, quando recusa reclamar uma vitória política, ele que sempre defendeu a guerra e que tinha toda a legitimidade para a reclamar agora. Porque esta captura, não nos iludamos, é uma consequência da guerra. Já o Pedro Lomba escreve "Saddam apenas saiu do poder no Iraque por causa da guerra. E a guerra, feita por essa e muitas outras razões, foi uma decisão política que teve os seus defensores e críticos. Saddam estaria ainda hoje no seu belo palácio presidencial se a guerra não tivesse sido travada. (...) Há aqui uma vitória política. E essa, não pertence a todos." E eu estou plenamente de acordo. Como essa vitória não é minha, não abro o champanhe. (Não costumo comemorar com champanhe as vitórias políticas do Pedro Lomba.)
O que está aqui em jogo, a grande diferença, que transcende a habitual divisão esquerda-direita, é a divisão entre os líricos e os pragmáticos. Não sou propriamente um pragmático, mas já vivi o suficiente para não ser um idealista. A minha conclusão é que não é fácil discutir real-politik com poetas. FM

 
Champanhe para Bush
Foi mal recebido o meu texto "alegre, ma non troppo".
O Zé Mário "queixou-se" de que eu me tinha "queixado" de que ele e o Manel tinham "aberto champanhe" pela captura de Saddam.
A Ana Sá Lopes insinuou que eu era de "esquerda radical" (olhe que não, Ana, olhe que não). O João Miguel afirmou que lhe custava ler "num blog respeitável que esta captura é de lamentar se ela promover a reeleição de Bush". (Não sei a que blogue se refere o João aqui; exceptuando talvez a respeitabilidade, poderia ser a este, pelo menos no que à minha opinião diz respeito. Ou seja, enfio esta carapuça.)
Continua o João: "É imoral odiar Bush e Saddam da mesma maneira". E digo eu: totalmente de acordo. Por muito mau que Bush seja, nenhum ditador pode ser comparado a ele! Acrescento mais: com todas as suas misérias e desigualdades, o seu conservadorismo e o seu (falso) moralismo, com toda a sua falta de liberdades, não se pode comparar a América a nenhum país árabe. Entendi o 11 de Setembro de 2001 como um ataque a toda uma civilização (a ocidental), a mais livre que a humanidade alguma vez conheceu. Um ataque perpetrado por fundamentalistas que nunca mereceram a minha menor simpatia.
Sendo assim, é claro que fico muito contente com a captura de Saddam. Foi assim que comecei o texto "alegre, ma non troppo". Achei que isto fosse óbvio, mas pelos vistos não é. Estou a afirmá-lo mais uma vez.
Agora, julgo que também é evidente que esta captura não é indissociável da circunstância política em que ocorreu. E creio que ocorreu em muito má altura. Vem influenciar o processo eleitoral norte-americano, que se encontra numa fase crítica, a meu ver da pior maneira. Como não sou daqueles para quem democratas e republicanos (ou PS e PSD) são exactamente a mesma coisa (embora ache que deveriam ser muito mais diferentes do que são, por culpa dos democratas e do PS), fico muito apreensivo com isto. Não consigo separar este facto da captura de Saddam; por isso, não estou (globalmente) contente, e não "abro champanhe". Preferiria que tudo tivesse acontecido de outra maneira. Dão-me licença?
Uma nota final para o champanhe: aceito perfeitamente que o vão abrindo, bom proveito vos faça, principalmente lá para os lados de França, onde é autêntico e porventura mais corriqueiro e barato do que aqui. O Bush é que só bebe Coca-Cola... FM
2003-12-16
 
L'affaire champagne
O meu texto "alegre, ma non troppo" também andou metido ao barulho na "troca de correspondência". De facto, tenho andado com pouco tempo e a escrever depressa (a preparar uma mudança, justamente para o país do champagne), e se calhar não me exprimi bem. Amanhã, com mais tempo, espero clarificar a mesma posição. FM
 
A volta dos blogues
Conforme eu previra, com a captura de Saddam Hussein e a guerra do Iraque a voltar à ordem do dia, voltou uma certa crispação à blogosfera, com trocas de correspondência, indirectas e "bocas" entre blogues diferentes. Consequência disso, e da estranha disposição dos textos nos blogues que faz, como nota o João, que se tenha de ler "de baixo para cima", é um honesto cidadão abrir o Barnabé (podia ser um outro blogue; o que não falta agora são exemplos deste tipo) e levar com um texto do tipo "Ó Luciano, por amor de Deus, vai lá ler outra vez o comentário do Fernando Martins ao post do Pedro". Dá vontade de dizer: desculpem lá por me estar a meter na vossa conversa, rapazes. FM

 
O artigo do dia (de há uma semana)
Prometi escrever mais sobre as propinas, mas o tempo não mo tem permitido. Entretanto, foi publicado há uma semana e passou relativamente despercebido um artigo que resume a minha posição em geral sobre o assunto (principalmente a parte 3). É de
Teresa de Sousa e recomendo-o vivamente. Era bom que trocássemos umas ideias sobre estes assuntos que ela aborda (não só as propinas). FM

 
A frase do dia
"Não há nada como ser obrigado à castidade para poder falar de sexo." Autor: João Pedro Henriques. Equiparo-a a "Everybody gets along when there is no possibility of sex", de Jerry Seinfeld. FM

2003-12-15
 
Alegre ma non troppo
A captura de um ditador genocida e o facto de ele ser obrigado a responder perante um tribunal pelos seus crimes são motivo de satisfação para qualquer pessoa decente.
Dito isto, nem este facto altera a minha convicção de que esta guerra é ilegítima, nem eu deixo de sentir uma certa apreensão por certas consequências do ocorrido.
Os defensores da guerra que são sérios e não meros oportunistas (destes já muito foi dito) estão plenamente convencidos da sua superioridade moral, desprezando as razões de quem não vê neste processo uma simples guerra dos bons contra os maus. Curiosamente, noutras questões acusam a esquerda deste tipo de procedimento. Eu não vou nessa conversa. Os vencedores desta guerra não são bons. Podem ser melhores que Saddam (são, sem dúvida), mas não o são o suficiente para que eu os apoie nesta guerra. Mentiram deliberadamente ao resto do mundo acerca das motivações desta guerra e tal não pode ser esquecido. Agora, que capturaram um adversário, afinal, fraquíssimo, aparecem como grandes libertadores. Mas não nos podemos esquecer de que foram coniventes com esse sanguinário, e que voltariam a sê-lo se fosse preciso.
A América, especialmente sob as administrações republicanas, não tem nada de se orgulhar no que diga respeito a relações privilegiadas com ditadores. É uma destas administrações, uma das piores, quer interna, quer externamente, que está no poder, e que indubitavelmente sai fortalecida com esta captura. É o líder que, em conjunto com o seu aliado Ariel Sharon, maior perigo representa para a paz mundial que sai fortalecido. Não sou só eu que assim penso: são os europeus.
Por isso, não sou hipócrita: apesar de ter ficado genuinamente feliz (pelo povo iraquiano) por esta captura, fico seriamente apreensivo com as consequências que possa vir a ter no mundo.
Eu só abro champanhe quando Bush perder. FM
2003-12-14
 
They got him
Fico contente, obviamente. Obviamente, também, a grande discussão vai voltar à blogosfera. A nossa agenda anda um pouco atrasada, mas não passaremos ao lado destes desenvolvimentos. FM
 
Pueblo nuevo
Este tem sido um ano aziago para a música cubana. Depois das mortes de Compay Segundo e de Célia Cruz, esta semana foi Rúben González. Se Célia sempre teve o reconhecimento que mereceu, por ter abandonado Cuba pouco após a chegada de Fidel Castro ao poder, Compay e Rúben tiveram de esperar muitos anos para serem consagrados pelo público mundial. Ainda bem que obtiveram esta consagração ainda em vida.
Compay Segundo era o rosto mais visível do projecto "Buena Vista Social Club", de que Rúben também participou. Neste projecto participavam castristas ferrenhos (como Omara Portuondo, grande amiga de Rúben) e moderados (como Compay). Célia Cruz, por sua vez, era talvez o rosto mais visível dos cubanos da oposição ao regime de Fidel exilados nos EUA. Quando ambos morreram, ainda estava nos EUA. A morte de Compay mereceu grande destaque nos EUA (títulos de página inteira "Adiós Compay" nos jornais hispânicos) e em Cuba. A morte de Célia, pelo que sei, foi praticamente ignorada em Cuba e parou, literalmente, as comunidades hispânicas nos EUA. As cadeias de televisão das comunidades hispânicas não falaram noutra coisa por uma semana. Célia Cruz teve direito a dois funerais, na Torre da Liberdade em Miami e na Catedral de Saint Patrick em Nova Iorque. Havia filas de horas de fãs que queriam contemplar a cantora pela última vez. A biografia de Célia Cruz é, de resto, um tema interessantíssimo, recheado de episódios notáveis. Fica para outra altura.
Tenho curiosidade de saber como foi esta notícia da morte de Rúben González recebida em Cuba e pela diáspora cubana nos EUA. Ó André Figueiredo, e se desses um pulinho ao Spanish Harlem? FM
2003-12-12
 
Terceira idade
Este texto é genial. Eu disse isto mesmo ao autor, Miguel Góis, que achou a classificação algo exagerada. Mas para mim não é. Quando estou em Portugal vivo com os meus pais, pelo que uma cena como a aqui descrita acontece-me quase todos os dias. Eu e a minha irmã temos de vigiar a escada do prédio e certificar-nos de que está vazia. É essa uma das razões pelas quais o nosso "sair, não sair", como diria o Zé Diogo, por vezes dura bem mais do que cinco minutos.
Acho que vou imprimir o texto do Miguel e colocá-lo nas caixas do correio de uma série de vizinhos. FM
 
Ainda sobre Buñuel
Na grande discussão, sobre este e outros cineastas, que aqui tem ocorrido, a minha modesta contribuição limita-se a recordar a frase de Cazuza: a burguesia não tem charme e nem é discreta. FM
2003-12-11
 
It don't mean a thing...
if it ain't got that swing, é o título de uma célebre canção de Duke Ellington, muitas vezes usada para definir o jazz. No jazz há músicos que logo nos agarram com o seu swing. Mas também há aqueles em que o swing só se compreende após audições repetidas. O swing não é tocar depressa, ou alto, ou forte. É uma atitude difícil de descrever, que causa um prazer irresistível no ouvinte. Por exemplo, o pianista de jazz mais famoso na actualidade é sem dúvida Keith Jarrett. Jarrett é um músico notável, de que eu gosto muito, e que tem muito swing, mas... em certas alturas é excessivo, cansativo. Leva-se demasiado a sério, e isso até se sente nos seus famosos gemidos: parece que a música lhe é arrancada a ferros! Nessas alturas é bom ouvir a beleza e clareza de Hank Jones, o maior pianista de jazz vivo. E, para o não iniciado, Hank Jones provavelmente soará como um pianista normal... é sem dúvida um pianista tradicional, um músico que cresceu na época do swing e começou a tocar na época do bebop. Mas a que ponto ele levou a tradição... com Hank Jones não há cá merdas, é um jazz bem esgalhado!

Ao contrário da minha relação fanática com o jazz, a minha relação com o cinema é bissexta. Não sou um frequentador muito regular das salas, mas vejo muito o que passa na televisão. Logo aí há uma perca na percepção do filme. Opiniões cinematográficas feitas a partir da televisão não serão as mais sólidas.
Ora foi na televisão que eu vi a maior parte dos filmes de Lynch e todos os filmes de Buñuel que eu conheço. E na televisão será Lynch o mais prejudicado. Além disso já vi esses filmes há algum tempo...

O que posso dizer é que Buñuel me agarrou de imediato! Buñuel tem swing a rodos! Há anos que vi os filmes dele, e ainda me lembro como me impressionaram. Buñuel provinha de uma família abastada, e, tal como o nosso glorioso ministro da defesa, foi educado por jesuitas. Nos anos trinta realizou dois filmes que levaram o surrealismo ao cinema: a curta metragem "El Perro Andaluz" e a longa metragem "L'Age D'Or". Fica famoso, mas basicamente não consegue filmar mais nada. Com a guerra vai para os Estados Unidos, mas também aí a sua fama o torna um proscrito. A sua carreira só recomeça no México, em 1947. Faz um filme que lhe traz a consagração: "Los Olvidados", sobre um grupo de crianças da Cidade do México (é um filme que influenciou obras como "Pixote", ou actualmente "Cidade de Deus"). Mas o grosso da sua fase Mexicana são melodramas comerciais, onde a paixão leva as personagens à obcessão e tragédia. Eis a esclarecedora sinopse de "Susana": "...neste melodrama uma jovem sensual foge de um reformatório e acaba por esconder-se na plantação de uma família profundamente religiosa. A sua apetência por sexo robusto e frequente leva ao caos" Um filme assim pode não ser o melhor do mundo, mas tem swing! Buñuel filma antes de tudo um melodrama, uma história folhetinesca, e respeita isso. Mas à medida que a paixão se tranforma em obcessão, a situação torna-se absurda e, bem no fundo, cómica, ou seja surreal. Quando Buñuel filma um drama, transmite todo o dramatismo, mas nunca cai no erro de se levar a sério.

Buñuel volta á Europa armado com esta experiência para filmar na Espanha franquista "Viridiana". Ainda bem que o referes, Rui, a seguir a Tristana é o que eu prefiro. Fernando Rey, o seu actor preferido no papel do aristocrata altivo e orgulhoso, é o tio de Viridiana. Antes de tomar os votos como freira, a muito devota Viridiana é chamada pelo tio. Quando este a vê, fica perturbado: ela é igual à sua falecida mulher. Obcecado, decide que tem de a possuir. Para isso trata de a seduzir, mas e´uma sedução baseada no engano, ele preverte-a. Filmar a preversão de uma beata na Espanha franquista tem muito swing!!!
A partir daí Buñuel filma na Europa uma série de grandes filmes. André, terás uma certa razão acerca "Belle de Jour", mas basta lembrar a cena em que Deneuve sonha ser violada para ver o lado cómico do filme. Buñuel certamente rir-se-ia muito com o soft-porn que possa ter inspirado.

Almodovar pode reclamar certa herança de Buñuel. Também ele filma melodramas com todo o respeito, mas injectando-lhes uma dose de estranheza. Certamente que em termos visuais Lynch é o herdeiro de Buñuel. Mas a verdade é que as situações de Buñuel estão mais perto de mim, e Buñuel me faz pensar e rir. Lynch nunca me marcou desta forma. Mas, Rui, falo a sério quando digo que gostava de rever os filmes de Lynch, porque provavelmente me passaram ao lado. Infelizmente os tempos em que a RTP2 fazia ciclos coerentes de cinema já lá vão...NA
2003-12-10
 
Victim of Geography
Nesta altura do ano a latitude ataca-me. Definho com os meios dias crepusculares. Preciso de voltar ao sul, à luz e à cor.AG


André Derain "On the Thames"
 
Buñuel e Lynch, sim.
Nuno é uma infelicidade (para ti) não apreciares Lynch. Que desde meu ponto de vista é um realizador que é genial não pelos seus efeitos mas muito mais pela sua posta en cena, pela sua genialidade narrativa, e pela sua atitude plástica (no sentido da pintura, e não no mal sentido) ao filmar e escolher o que filma.
Quanto a comparação me parece perfeitamente razoável. Quanto a buscar as diferenças nas causas da igualdade me parece isso sim um equívoco. Além de que considerar que o surrealismo de Dali e Buñuel era uma " reacção visceral ao conservadorismo, catolicismo e machismo espanhol tradicional" tem muito que se lhe diga. Se ambos se caracterizavam por essa "reacção", isso não significa que fosse a causa da "forma" como expressaram esta mesma "reacção".
Seria importante em nome da universalidade de ambos (Dali e Buñuel - já agora, é curioso que Lynch seja ele mesmo pintor e realizador... e em muitos aspectos freudiano como Dalí) não restringir a crítica que ambos fizeram ao contexto espanhol...
Já referistes a temática de Buñuel falta referir a de Lynch por se acaso isso nos ajuda a chegar as parecenças entre ambos e, vã arrogância de minha parte, a gostares de Lynch. Em minha humilde opinião, este senhor tem a quase totalidade da sua filmografia (e a totalidade da sua filmografia mais pessoal) baseada no desespero/medo do homem em "não ser bom", ou não deixarem que o seja, em particular no contexto familiar (casal, filhos, etc). Parece muito banal dito desta forma, mas a genialidade no seu estado mais puro aparece precisamente nestas obras que parecendo que falam do que é mais banal alcançarem o ângulo que só se obtém dos abismos e precipícios que existem nas partes que se acreditavam mais que exploradas da alma humana.
Mas realmente não será pela temática (o cinema não é tão pouco a arte do ensaio) que os dois se aproximam mas pela forma, e imaginário de suas obras. Já referi as parecenças entre "El Perro Andaluz" e Blue Velvet. E vou referir outras com aquela que para mim dos filmes que vi de Buñuel é o que no seu momento mais me encantou (se bem que Buñuel não seja dos meus realizadores favoritos): "Viridiana". Em que uma mulher que deseja ser boa e salvadora dos miseráveis termina assassinada pelos próprios mendigos que recolhe em sua casa. Neste filme, em particular, não reconhecer algumas similitudes com a essência daquilo que anda pelos filmes de Lynch, é não haver visto "Blue Velvet", "Fire Walk With Me/Twin Peaks", "Lost Highway", ou "Eraserhead". Para referir aqueles filmes que mais me apaixonaram de Lynch. Também gosto dos outros, mas estes são os essencias desde meu ponto de vista.
Além do mais deverias ter vergonha de não concordares com o Woody. Um apaixonado pelo jazz como tu, e um tipo esperto e que sabe dessas coisas das "películas"! Mas já vi que a tua onda é neo realismo...
RF
 
Ainda a descendência de Buñuel
Não será um certo estilo de soft-porn europeu anos 70 inícios de 80 descendente directo do Belle de Jour? AG
 
Para quando o fim da sociedade aberta?
Alguém sabe explicar quem é Paulo de Almeida Sande? O que fez de relevante para assinar uma coluna semanal no DN chamada "Sociedade Aberta"? Não fazemos a mínima ideia do que faz para ganhar a vida, para além de escrever a dita coluna, pois é identificado como "contemporâneo". Boa. Mas os articulistas não são todos contemporâneos? O que tem este para ser diferente dos outros? Tomemos Vera Roquette como exemplo: é contemporânea, mas pelo menos fez alguma coisa de relevante e reconhecido pela sociedade. Exactamente: apresentou o "Agora, Escolha!", o precursor da SIC Gold. Vera Roquette escreve no mesmo espaço, noutro dia da semana. O espaço que já foi de Clara Pinto Correia e Óscar Mascarenhas, nos tempos áureos do DN. Presentemente, é o espaço ocupado pelas colunas de Vera e Paulo, as colunas dos títulos pedantes, respectivamente "Veracidades" e "Sociedade Aberta". Desta sociedade aberta eu sou inimigo. E também não simpatizo particularmente com o Popper, que escreveu sobre os inimigos da sociedade aberta mas já não é contemporâneo. Simpatizo com Mário Soares, que tem um programa na SIC chamado... "Sociedade Aberta". E que tem currículo suficiente, e marcou a nossa época de maneira a poder ser chamado "contemporâneo".
Na passada sexta-feira, a coluna "Sociedade Aberta" tinha por título "Fim". Julguei que fosse acabar, mas parece que não. FM

2003-12-09
 
Buñuel e Lynch
Rui, infelizmente sou um dos que tentou mas nunca se converteu a Lynch. Descobri-o com Blue Velvet, e ainda mais com Dune, admirei Erarserhead, mas perdi a paciência com Twin Peaks e Wild at Heart. Lost Highway recuperou-me um pouco, mas não o suficiente para ir ver Mulholland Drive... em todo o caso a falha será minha.
Mas compará-lo a Buñuel, eu acho um equívoco. A verdade é que o surrealismo de Buñuel, como o de Dali, era uma forma de traduzir a reacção visceral ao conservadorismo, catolicismo e machismo espanhol tradicional. É uma reacção contra algo que, no entanto, é inevitável, e por isso o fim trágico. Há sempre uma relação amor-ódio. Para mim a melhor súmula da sua obra é um dos últimos filme, Tristana.
Tristana (Catherine Deneuve) é a protegida de Don Lope (Fernando Rey), um velho aristocrata que, na verdade, a deseja. Ela não o suporta, e prefere um jovem, belo mas pobre, com quem foge. No entanto, quando as realidades da vida se fazem sentir, ela volta e acaba por casar com o velho aristocrata. E Don Lope, obcecado e vergado pelos anos, aceita a relação extramarital. Parece um mero folhetim, mas Buñuel fá-lo de uma forma perfeita, como hoje Almodovar faz as suas histórias. Com o tempo Buñuel descartou os efeitos, para ir ao essencial. Já Lynch, para mim, não só abusa dos efeitos, como não tem uma base tão intensa em que assentar as suas histórias.
Se calhar estou a ser muito duro, tenho de ver mais filmes do Lynch! NA
2003-12-08
 
A camarada Odete na revista
Deu muito que falar a participação de Odete Santos numa revista do Parque Mayer, muito por causa de um texto (aquilo nem era um texto, era uma frase) do Daniel Oliveira.
Creio que o Daniel põe a questão de uma forma desapropriada. Não pode um político ter uma carreira de espectáculo, e vice-versa? Não terão os artistas direito a ocuparem cargos políticos? (A Odete não é nenhum Schwarzenegger ou Reagan, porém.) Muitos artistas são aliás apoiantes regulares do Bloco de Esquerda e participantes nas suas campanhas. Conseguirá o Daniel garantir que nunca um destes artistas ocupará um dia um cargo político pelo Bloco? (Bastando para tal ocupar um lugar nas listas, devido aos conhecidos esquemas de rotatividade.)
Também não concordo com as críticas ao texto do Daniel escritas por Pacheco Pereira (que, armado em Pipi, não permite que se façam links) ou por Ana Sá Lopes. Não creio que haja um mínimo de machismo ou de misoginia no texto do Daniel; fosse Bernardino Soares ou Jerónimo de Sousa a participar no teatro e a sua reacção teria sido provavelmente a mesma. O que motiva o Daniel é uma muito óbvia (e não só de agora) obsessão anti-PCP.
O que é pena, pois tal cegueira leva-o a atirar ao lado de um alvo bastante fácil. Com efeito, acho bastante infeliz a participação de um membro do PCP numa revista (e não é isto que é enfatizado pelo Daniel). Acho muito infeliz que o secretário-geral do PCP tenha ido à revista. E isto porque a revista e o Parque Mayer são géneros decadentes, feitos na sua esmagadora maioria por indivíduos vendidos a Santana Lopes. Eu aposto que nem naquela, nem em qualquer outra revista há uma rábula que seja ao actual Presidente da Câmara de Lisboa. Odete Santos e o Estado-Maior do PCP, ao participarem nisso, estão a aceitar a política camarária para o Parque Mayer. A ida de Carlos Carvalhas à revista pode ser vista como o início do apoio do PCP à candidatura presidencial de Santana Lopes. Se Odete Santos queria fazer teatro (algo que me parece natural, dadas as suas evidentes capacidades dramáticas), que não fizesse teatro reaccionário, que é o que é a revista hoje. Se não arranjasse melhor, que ficasse lá por Setúbal. Alguns desses actores também se venderam, mas ao menos foi a António Guterres. FM
2003-12-06
 
As manchetes e as sondagens (2)
Outro exemplo de uma sondagem muito mal usada pelas manchetes foi uma recente, encomendada pelo Público mas referia muito timidamente, e somente na edição em papel, sobre a sobre a opinião dos portugueses acerca da ocupação do Iraque. O Paulo Pereira teve a gentileza de nos enviar um texto sobre este assunto, disponível no Blog Social Português, para o qual chamamos a vossa atenção. FM

 
"Buñuel está na extratosfera" e em companhia
A Woody Allen no "El País" de ontem a propósito do seu último filme, "Anything Else", e de uma eventual gag a um filme de Buñuel ("El Angel Exterminador") que é feita nele, lhe perguntaram se o cineasta espanhol estava incluído na sua lista essencial de influências européias além das já conhecidas: Bergman, Fellini, etc. Ele respondeu que viu todos os filmes de Buñuel mas que este está na extratosfera, que é um realizador com descendência impossível... Depois se corrigiu: a única descendência possível de Buñuel talvez seja David Lynch, segundo Woody Allen.
Registro aqui este comentário porquê exactamente a mesma idéia me ocorreu ao ver "El Perro Andaluz" de um Buñuel mais na extratosfera que nunca. Percebi imediatamente que grande parte do "programa" cinematográfico de Lynch foi banalizar Buñuel (no bom sentido: de retirar o que de "pedante" há em Buñuel).
Veja-se a mão cortada numa rua de Paris de Buñuel e a orelha cortada de Lynch em uma pequena cidade americana ("Blue Velvet"). Em ambos: os insectos comendo a carne humana. Em Buñuel com o estrondo possível no cinema mudo, em Lynch com subtileza silenciosa e a cores (maravilhosas).
O bonito disso é que afinal até Buñuel tem descendência e está na extratosfera em (boa) companhia.
RF
2003-12-05
 
As manchetes e as sondagens (1)
"66% concordam com as propinas", anunciou o DN de 3ª feira. Em abstracto, este título está correcto. Mas neste momento o que está em discussão é o aumento brutal das propinas, e não somente a sua existência. O "homem da rua" lê esta manchete como "66% dos portugueses estão com o Governo na questão das propinas". Articulistas como Francisco Sarsfield Cabral afirmam descaradamente que esta batalha está ganha pelo Governo, em termos de opinião pública. Nada mais errado, no entanto, de acordo com a mesma sondagem: 59.5% dos inquiridos não concordam com os aumentos propostos pelo Governo. Mais notável ainda: 24.2% dos inquiridos acham que os estudantes não devem pagar propinas em nenhuma circunstância. Ou seja: 24.2% dos portugueses estão à minha esquerda, pelo menos nesta matéria. Nada mau.
No entanto, quem se limitar a ver a primeira página do jornal não conclui nada disto. O destino provável desta manchete é, portanto, o de juntar-se à que dizia "maioria apoia portagens", outra manchete baseada numa sondagem, muito divulgada no princípio deste ano, pois era a do exemplar do DN que aparecia em todos os anúncios do jornal. Que, desde então, passou a ostentar as cores da coligação governamental (azul e laranja) no cabeçalho. Ou seja, faça-se publicidade ao jornal mas, acima de tudo, faça-se publicidade ao governo. FM

 
Ergam escadas, partam muros
Leio a crítica do concerto dos Cabeças no Ar no DN. Deste jornal pode esperar-se tudo, mas não é sem surpresa que verifico que, para o jornalista Ricardo Fonseca, os Xutos & Pontapés "há dez ou quinze anos atrás convocavam a falange punk rock e os «gajos da passa»"!
Mas quem é este indi­víduo? Que idade terá? Sobretudo, onde passou a adolescência? E em que Universidade se formou? Onde é que o DN o foi buscar para escrever críticas a concertos? Ao Correio da Igreja?
Que saudades de quando era o João Miguel Tavares a escrever sobre os concertos... Até com isso o 11 de Setembro acabou. FM
2003-12-04
 
Antiquê?
O Zé Mário e companhia não se devem importar de eu estar sempre a remeter para lá hoje, mas este texto, de Jorge Candeias, precisa de ser lido. Recorda-me uma retrospectiva de judeus no cinema (no Museu Judeu de Nova Iorque, claro) que IGNORAVA o Woody Allen. FM
 
Jesus Correia
Esta é uma evocação ainda mais tardia do que a do Blogue de Esquerda, de que gostámos. Só acrescentamos que este foi um ano aziago para as velhas glórias do Sporting, depois de também terem partido Vasques e Damas.
Sempre que um velho sportinguista morre, lembro-me do meu avô. Estas velhas glórias ainda viram o Sporting fazer a "dobradinha" em 2002. Travassos, pelo menos, viveu para assistir ao fim do grande jejum, em 2000. O meu avô, nem isso... O pai do treinador Augusto Inácio também não. Creio que teriam morrido mais felizes se tivessem assistido. Restará para sempre a memória destes homens que construíram o Sporting. FM

 
Estude-se o Pipi!
Li em qualquer lugar que o Big Brother (o programa, não o Orwell, infelizmente) vai passar a fazer parte do programa do Ensino Secundário. A ideia em si não é má, desde que bem aplicada, o que significa que não deve ser posta em prática com um programa decadente. Se um dos objectivos da escola é desenvolver o intelecto, então que os alunos estudem os Big Brothers intelectuais que, como já tive ocasião de referir, creio serem os blogues.
Não direi que qualquer blogue cumpra esta função, mas destaco dois que, a meu ver, a cumprem perfeitamente, embora de formas bem diferentes (de certa maneira, estes blogues são opostos): O Meu Pipi e o Dicionário do Diabo. O primeiro destes blogues até já se referiu a este assunto (lamentavelmente, é impossível fazer links para lá). Estude-se o Pipi, pois. FM

2003-12-03
 
Mais plural
Introduzimos um sistema de comentários. É grátis, anónimo e indolor.
Aceitamos comentários construtivos, destrutivos, desconstrutivos, palavras de apreço ou insultos gratuitos.
Anything goes...AG
 
Velha, sempre velha
Uma frase (na verdade são duas, mas poderia ser só uma, se o seu autor, o insuspeito Pedro Lomba, fosse outro): "A direita, para começar, nunca é nova. É velha, sempre velha." Tudo bem. Não poderia estar mais de acordo. Agora, ainda no mesmo texto: o que fará o Pedro estar convencido de que tem uma melhor perspectiva do mundo do que as outras pessoas? De que não vê o mundo "pela sua janela"? FM
 
Fancy poultry
Caro André (de A Ponte),
quando chegas ao ponto de estares em Nova Iorque e pensares na música do José Cid (também já me sucedeu, descansa...), é altura de parares para pensar, pois algo se passa. Provavelmente estás com saudades da terra. Não há nada de errado nisso, e só há um remédio eficaz: meteres-te no PATH e ires a Newark. Não custa nada... Sais na Newark Penn Station e estás logo na Ferry Street, no coração do Ironbound. Tens muito por onde escolher para comeres uma boa refeição, tomares um bom vinho e um bom café sem ser no Starbucks, comprares um bacalhau e um bolo rei... Verás que a saudade passa-te logo, e acima de tudo ficas com vontade de ouvir a Suzanne Vega em vez do José Cid. FM

 
Un detalle
Caríssimo Ruy:
Perdona-me por no hablar espanol como tu e perdona mis errores, pero creo haber detectado una pequena inconsistencia en tu texto "Uma apresentação pelada". Quando escribes "não estamos cerca de ninguém conhecido", creo que quieres escribir per supuesto algo como "no estamos cerca de ningún conocido".
Abrazos fuertes e besos para Mayté,
Filipe (con "i"). FM

2003-12-02
 
Iniciações
Apenas um reparo mais ou menos politicamente correcto, Guilherme: não são só as virgens que por vezes começam mal. Os virgens também. No resto, plenamente de acordo. FM
 
O tal do Thanksgiving
Não é assim que se deveria começar. A destoar, ou talvez nem tanto, do Filipe. Mas, as virgens começam sempre mal.
Até gosto do "Thanksgiving". Em Inglaterra tive direito ao meu peru em casa do meu ex-orientador. Judeu, por sinal. A estória do "Thanksgiving" pode-se contar de muitas maneiras. Uma, diz, mais coisa menos coisa, assim: uns quantos loucos foram expulsos de Inglaterra, refugiaram-se em Leiden (onde vivi durante um par de anos) e daí embarcaram rumo ao Novo Mundo. Depois de uma mudança de barco em Plymouth (onde, por razões profissionais vou várias vezes) chegaram à América do Norte. A vida não lhes corria mal. Isto é, até as primeiras colheitas darem para o torto tal não era a ignorância das condições agro-climáticas locais. Não fora a assistência da malta que já lá vivia --- os tais que se chamam índios por outro disparate bastante conhecido --- tinha tudo morrido à fome. Talvez se tivessem evitado uns quantos problemas nos séculos seguintes, mas enfim ... na história não há esquiços, rascunhos para quem não conhece a palavra (Milan Kundera, para quem não tenho pachorra, em citação livre). A assistência veio com perus, milho, ... daí a ementa que sobrevive. Ora, os tais loucos muito agradecidos aos tais índios começaram a celebrar anualmente este evento da sua história recente, com um jantar a preceito, demonstrando o seu agradecimento a ... DEUS. Os tais dos índios como, realmente, não encaixavam muito bem no grande projecto, receberam como recompensa o que hoje se chama um genocídio.
Os ingleses celebram, com alguma piada, a 5 de Novembro a incineração de um católico que tentou mandar Westminster pelos ares. Mais exemplos não devem faltar de episódios sórdidos que deram em festas genuinamente positivas.
A este processo de positivisação, do qual gosto, chama-se "reclaiming". Sim, o mesmo que os holandeses fazem à terra debaixo do mar e que as comunidades homossexuais fizeram com o qualificativo "queer". A inexistência, pelo menos do meu conhecimento, de uma palavra ou conceito equivalente nas línguas de raíz latina talvez espelhe as diferentes dinâmicas de transformação social e cultural nos mundos latinos e anglo-saxónicos. Uma outra conversa que fica por conversar.
Tenho pena de ter falhado o "Thanksgiving" este ano. A seguir é o Natal, o ano novo (aliás, os meus anos), a Páscoa, o Pesah, o 25 de Abril,... desde que as colheitas não falhem.
Desculpe-se o mau jeito. As virgens são assim. GM
 
Os novos colegas
É com todo o prazer que recebemos os novos "estrangeiros no momento": o Guilherme e o Nuno, dois antigos colegas de curso nossos.
O Nuno já aqui tem escrito, como colaborador externo, pelo que já devem estar habituados ao seu estilo moderado provocador. É português, embora por razões profissionais vá a Genebra de vez em quando.
O Guilherme já foi desnudado pelo Rui. Ficaram a saber o estado civil e o número de filhas do rapaz; para outro tipo de pormenores, perguntem a um dos dois. Deixem-me tentar uma apresentação sucinta, do tipo CV: é português (almadense), embora as pessoas digam que é um estrangeirado. Na verdade é um cidadão do mundo (da Europa e da Oceânia).
Cremos que o blogue fica sem dúvida alguma mais rico com a sua presença e com o muito que têm para dizer. No entanto, não há aqui nenhuma ruptura com o estilo anterior. Ambos enquadram-se perfeitamente no que este blogue tem sido: AAs da LEFT que andam ou têm andado lá por fora. Este continua a ser um blogue de esquerda desalinhada e (agora ainda mais) plural. Futebolisticamente, poderia haver mais pluralismo: há um benfiquista com juízo, que prefere não falar de futebol ou dizer que é do Real Madrid, agora que anda por Espanha; há dois sportinguistas racionais, desses que têm o desplante de reconhecer que o Sporting perde bem quando o adversário é melhor (um deles nem liga ao futebol); e há dois sportinguistas ferrenhos (no meu caso, por vezes irracional).
Finalmente, apesar do alargamento do número de colaboradores, continua a haver uma curiosa predominância de pessoas que passaram a adolescência em Queluz. Mais pormenores virão com o passar do tempo. E agora, vamos aos textos. FM

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