Estrangeiros no momento
2003-12-11
 
It don't mean a thing...
if it ain't got that swing, é o título de uma célebre canção de Duke Ellington, muitas vezes usada para definir o jazz. No jazz há músicos que logo nos agarram com o seu swing. Mas também há aqueles em que o swing só se compreende após audições repetidas. O swing não é tocar depressa, ou alto, ou forte. É uma atitude difícil de descrever, que causa um prazer irresistível no ouvinte. Por exemplo, o pianista de jazz mais famoso na actualidade é sem dúvida Keith Jarrett. Jarrett é um músico notável, de que eu gosto muito, e que tem muito swing, mas... em certas alturas é excessivo, cansativo. Leva-se demasiado a sério, e isso até se sente nos seus famosos gemidos: parece que a música lhe é arrancada a ferros! Nessas alturas é bom ouvir a beleza e clareza de Hank Jones, o maior pianista de jazz vivo. E, para o não iniciado, Hank Jones provavelmente soará como um pianista normal... é sem dúvida um pianista tradicional, um músico que cresceu na época do swing e começou a tocar na época do bebop. Mas a que ponto ele levou a tradição... com Hank Jones não há cá merdas, é um jazz bem esgalhado!

Ao contrário da minha relação fanática com o jazz, a minha relação com o cinema é bissexta. Não sou um frequentador muito regular das salas, mas vejo muito o que passa na televisão. Logo aí há uma perca na percepção do filme. Opiniões cinematográficas feitas a partir da televisão não serão as mais sólidas.
Ora foi na televisão que eu vi a maior parte dos filmes de Lynch e todos os filmes de Buñuel que eu conheço. E na televisão será Lynch o mais prejudicado. Além disso já vi esses filmes há algum tempo...

O que posso dizer é que Buñuel me agarrou de imediato! Buñuel tem swing a rodos! Há anos que vi os filmes dele, e ainda me lembro como me impressionaram. Buñuel provinha de uma família abastada, e, tal como o nosso glorioso ministro da defesa, foi educado por jesuitas. Nos anos trinta realizou dois filmes que levaram o surrealismo ao cinema: a curta metragem "El Perro Andaluz" e a longa metragem "L'Age D'Or". Fica famoso, mas basicamente não consegue filmar mais nada. Com a guerra vai para os Estados Unidos, mas também aí a sua fama o torna um proscrito. A sua carreira só recomeça no México, em 1947. Faz um filme que lhe traz a consagração: "Los Olvidados", sobre um grupo de crianças da Cidade do México (é um filme que influenciou obras como "Pixote", ou actualmente "Cidade de Deus"). Mas o grosso da sua fase Mexicana são melodramas comerciais, onde a paixão leva as personagens à obcessão e tragédia. Eis a esclarecedora sinopse de "Susana": "...neste melodrama uma jovem sensual foge de um reformatório e acaba por esconder-se na plantação de uma família profundamente religiosa. A sua apetência por sexo robusto e frequente leva ao caos" Um filme assim pode não ser o melhor do mundo, mas tem swing! Buñuel filma antes de tudo um melodrama, uma história folhetinesca, e respeita isso. Mas à medida que a paixão se tranforma em obcessão, a situação torna-se absurda e, bem no fundo, cómica, ou seja surreal. Quando Buñuel filma um drama, transmite todo o dramatismo, mas nunca cai no erro de se levar a sério.

Buñuel volta á Europa armado com esta experiência para filmar na Espanha franquista "Viridiana". Ainda bem que o referes, Rui, a seguir a Tristana é o que eu prefiro. Fernando Rey, o seu actor preferido no papel do aristocrata altivo e orgulhoso, é o tio de Viridiana. Antes de tomar os votos como freira, a muito devota Viridiana é chamada pelo tio. Quando este a vê, fica perturbado: ela é igual à sua falecida mulher. Obcecado, decide que tem de a possuir. Para isso trata de a seduzir, mas e´uma sedução baseada no engano, ele preverte-a. Filmar a preversão de uma beata na Espanha franquista tem muito swing!!!
A partir daí Buñuel filma na Europa uma série de grandes filmes. André, terás uma certa razão acerca "Belle de Jour", mas basta lembrar a cena em que Deneuve sonha ser violada para ver o lado cómico do filme. Buñuel certamente rir-se-ia muito com o soft-porn que possa ter inspirado.

Almodovar pode reclamar certa herança de Buñuel. Também ele filma melodramas com todo o respeito, mas injectando-lhes uma dose de estranheza. Certamente que em termos visuais Lynch é o herdeiro de Buñuel. Mas a verdade é que as situações de Buñuel estão mais perto de mim, e Buñuel me faz pensar e rir. Lynch nunca me marcou desta forma. Mas, Rui, falo a sério quando digo que gostava de rever os filmes de Lynch, porque provavelmente me passaram ao lado. Infelizmente os tempos em que a RTP2 fazia ciclos coerentes de cinema já lá vão...NA

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