Estrangeiros no momento
2003-12-02
 
O tal do Thanksgiving
Não é assim que se deveria começar. A destoar, ou talvez nem tanto, do Filipe. Mas, as virgens começam sempre mal.
Até gosto do "Thanksgiving". Em Inglaterra tive direito ao meu peru em casa do meu ex-orientador. Judeu, por sinal. A estória do "Thanksgiving" pode-se contar de muitas maneiras. Uma, diz, mais coisa menos coisa, assim: uns quantos loucos foram expulsos de Inglaterra, refugiaram-se em Leiden (onde vivi durante um par de anos) e daí embarcaram rumo ao Novo Mundo. Depois de uma mudança de barco em Plymouth (onde, por razões profissionais vou várias vezes) chegaram à América do Norte. A vida não lhes corria mal. Isto é, até as primeiras colheitas darem para o torto tal não era a ignorância das condições agro-climáticas locais. Não fora a assistência da malta que já lá vivia --- os tais que se chamam índios por outro disparate bastante conhecido --- tinha tudo morrido à fome. Talvez se tivessem evitado uns quantos problemas nos séculos seguintes, mas enfim ... na história não há esquiços, rascunhos para quem não conhece a palavra (Milan Kundera, para quem não tenho pachorra, em citação livre). A assistência veio com perus, milho, ... daí a ementa que sobrevive. Ora, os tais loucos muito agradecidos aos tais índios começaram a celebrar anualmente este evento da sua história recente, com um jantar a preceito, demonstrando o seu agradecimento a ... DEUS. Os tais dos índios como, realmente, não encaixavam muito bem no grande projecto, receberam como recompensa o que hoje se chama um genocídio.
Os ingleses celebram, com alguma piada, a 5 de Novembro a incineração de um católico que tentou mandar Westminster pelos ares. Mais exemplos não devem faltar de episódios sórdidos que deram em festas genuinamente positivas.
A este processo de positivisação, do qual gosto, chama-se "reclaiming". Sim, o mesmo que os holandeses fazem à terra debaixo do mar e que as comunidades homossexuais fizeram com o qualificativo "queer". A inexistência, pelo menos do meu conhecimento, de uma palavra ou conceito equivalente nas línguas de raíz latina talvez espelhe as diferentes dinâmicas de transformação social e cultural nos mundos latinos e anglo-saxónicos. Uma outra conversa que fica por conversar.
Tenho pena de ter falhado o "Thanksgiving" este ano. A seguir é o Natal, o ano novo (aliás, os meus anos), a Páscoa, o Pesah, o 25 de Abril,... desde que as colheitas não falhem.
Desculpe-se o mau jeito. As virgens são assim. GM

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