Estrangeiros no momento
2004-01-15
 
Notícias de Espanha
Dada a minha presença em Espanha me sinto na obrigação de apresentar e discutir alguns dos temas que assolam as folhas de jornal deste país.
Aznar Como deverão saber o homem vai deixar o poder. Poderia se candidatar a mais um mandato mas se lembrou de prometer na primeira campanha eleitoral em que saiu vitorioso, contra o socialismo que havia estado no poder até então, que se ganhasse não se candidataria a mais de dois mandatos. O homem teve a vida fácil para deixar a sua marca de uma boa governação relativa. O socialismo já tinha se enterrado bem quando ele chega ao poder. Houve os GAL, inúmeros casos de corrupção, o desemprego record. Básicamente se dizia (e ainda se diz...) que "os socialistas só sabem matar e roubar". Chegando ao poder Aznar e companheiros dedicaram-se a ser genuínos, exercendo de direita liberal católica conservadora. A economia, nos seus dados macroeconómicos melhorou, e permitiu essa coisa fabulosa que é veres a gente castelhana direitona e humilde orgulhosa de que Espanha cresce mais que Alemanha, mesmo que eles sigam ganhando igual de mal que sempre. O amor ao seu país de algumas pessoas é uma coisa fascinante... e é sempre impactante ver pobres de direita. Em relação a corrupção a verdade é que também parece que foram um pouco menos fascínoras que os socialistas. E em relação ao combate contra o terrorismo mais inteligentes. Houve a catástrofe do Prestige que eventualmente foi acima de tudo dramatizada por aqueles que desejavam manchar o governo de Aznar em proximidades de consultas populares. Ou seja, que é preciso reconhecer que quanto política nacional Aznar era um olho e um bigode numa terra de cegos. Quanto a política internacional a sua inteligência é seguramente mais discutível e pelo menos não parece ter uma simpatia tão unânime da população. Mas seguramente o seu sucessor, Rajoy, será eleito...
Franco Para um português, é sempre desconcertante ver como o baixote morto continua desde o além a estabelecer as pautas que Espanha segue. O sucessor de Aznar, Mariano Rajoy, entrou no PP espanhol das mãos de Fraga, actual presidente da Comunidade Autonoma da Galiza. Manuel Fraga foi um dos principais ministros de Franco e fundador do partido. Rajoy parece ser mais diplomático que Aznar mas também menos capaz que esse de galvanizar os intintos conservadores do seu eleitorado. Já veremos como serão as coisas depois de Rajoy terminar seu primeiro mandato, já que é provável que ele vencerá a próxima eleição.
Socialistas Parece ser um mal geral dos socialistas ibéricos, pois também em Espanha a credibilidade do PSOE anda pelas ruas da amargura. Pelo seu passado no governo, por não ter um líder suficientemente forte que desse a volta ao partido, deixando-o desembocar no triste espectáculo recente das eleiçoes para a Comunidade de Madrid. Perderá as próximas eleiçoes para Governo Central e terão que buscar novo líder. O interessante é ver o que o desespero faz a um partido, que tendo vocação nacional, envia o combate político a área da discussão dos nacionalismos regionais na esperança de mudar o espectro de votos que se adivinha para as próximas eleiçoes.
Nacionalismos Regionais A estratégia do partido socialista de apoiar uma ainda maior descentralização do poder em Espanha não me parece condenável á partida. O que me parece condenável é que esta postura apareça tão cerca das próximas eleiçoes. Me parece algo suficientemente sério para não entrar nos desvarios de promessas eleitorais... Por outra parte é interessante notar como o combate político se transforma desta forma não tanto num combate ideológico direita-esquerda mas num combate entre o espanholismo e os nacionalistas regionais. Neste aspecto devo dizer que não antipatizando com a descentralização do poder, antipatizo absolutamente com este nacionalismo de "mi río, mi pueblo"... E desconfio por príncipio de toda forma de esquerda nacionalista. Esquerda que é esquerda, canta a Internacional não anda por aí com chachadas nacional/regionalistas ainda por cima em regioes ricas (como é o caso do ERC de Catalunha)... Tudo muito suspeito em homens de esquerda. Ou seja, e para terminar antipatizo con a tónica nacionalista com que a Esquerda neste país está a discutir a descentralização do poder mas também sou consciente que os que não são nacionalista neste país são em geral espanholistas ( e mais específicamente castelhanistas), ou seja, que de uma forma ou de outra andam todos parvos com "mi río y mi fuente".
Independentismos A história de Espanha é a hitória de uma Yugoslávia medieval e renascentista. O que é curioso é verificar como depois de tanto tempo reaparecem estes primitivismos nacionalistas. E o problema principal de toda esta história é que ao final temos do lado contrário um grupo de pessoas que muitas vezes pecam por estarem situadas num nível muito parecido de discussão, que são como já disse os espanholistas-castelhanistas. Por exemplo é um facto que o Instituto Cervantes se preocupa somente com o ensino da língua castelhana, mas não do catalão, do galego e do euskera. Isso é assim porque Espanha é uma invenção de Castela... Ou seja, que o problema de toda esta discussão é que não há honestidade total das partes na abordagem do problema basicamente porque nenhuma se sente suficientemente forte para se dar ao luxo de ser clara e honesta. Neste aspecto deve ser um alívio para todos os portugueses que nossos ancestrais nos tenham livrado dessa confusão. Por outra parte é preciso destacar que só parece existir risco real de futura ruptura com o país Basco, com a Catalunha o risco é pequeno, e com Galiza inexistente. Galiza é historicamente e presentemente uma espécie de patrocinadora espiritual das ambiçoes castelhanas. Nao deixa de ser curioso para um português isso...RF

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