Estrangeiros no momento
2004-02-27
 
... e um mau fim?
Mas o grande desenvolvimento que tem passado desapercebido está ligado ao Iraque. E não tem a ver com a inexistência de armas de destruição massiça. Tem a ver com o completo colapso da política norte-americana para o país. Finalmente emergiu uma liderança política iraquiana, mas não aquela que Washington esperava. Com muita paciêcia e valendo-se do apoio popular, o lider religioso xiita Ali Sistani acabou com os planos americanos de instalar um governo nomeado em reuniões de notáveis. E já determinou a agenda futura. O actual conselho provisório deve ser o orgão que assumirá a soberania iraquiana a meio do ano, com o único objectivo de realizar eleições até ao fim do ano. Sistani já domina o conselho provisório porque metade dos seus membros são xiitas que lhe prestam vassalagem, incluindo o antigo favorito do Pentagono Ahmed Chalabi. Como os americanos não podem ter ondas no Iraque neste periodo eleitoral, Sistani levará a sua adiante. E à cautela já exigiu uma resolução da ONU com a data das eleições iraquianas, para que depois das eleições americanas não surjam surpresas. Aos americanos resta agora manterem os sunitas na linha, à espera do futuro governo xiita. Quanto aos curdos, podem não conseguir a independência de jure, mas vão procurar garantir um estado dentro do estado, e lutar para que Kirkuk seja a sua capital. Quem se ri no meio disto tudo são os iranianos. NA
 
Um bom começo ...
Desde o início do ano começam finalmente a chegar algumas boas notícias dos EUA. Quando se esperava que as primarias democráticas descambacem em luta suicida, eis que um candidato capaz de apelar ao eleitorado vence de forma sistemática. E finalmente as sondagens começam a mostrar dificuldades para Bush. Os seus números são agora muito semelhantes aos que o pai tinha na measma altura. Esperemos que o resultado final seja o mesmo.

Acho que quando se fizer o balanço deste periodo, se vai concluir que para os americanos o momento da revelação foi o último discurso do Estado da União. Os primeiros discursos de Bush foram surpreendentemente bons. Desde logo porque as espectativas eram tão baixas. Mas Bush até conseguia ler os discursos, e os seus escritores sabiam o que faziam. Tem de se reconhecer que, por mais abjectas que sejam, expressões tipo "Eixo do Mal" foram eficazes. Que diferença este ano! O discurso foi mal concebido, e não esteve à altura do ritual, por mais ridículo que ele seja. E logo se viu que havia uma enorme desconexão entre as palavras e a expectativa popular pelo escárnio com que a referêcia a um assunto tão trivial como o casamento gay foi acolhida. A insistência neste assunto por parte dos republicanos pode agradar à direita religiosa, mas irá levá-la a votar? Em contrapartida, de certeza vai mobilizar todo o eleitorado gay a votar contra Bush. Se nem os conservadores levam a sério a hipotese de emendar a constituição... Esperemos que Bush se queime em mais uma fogueira.

Entretanto um ódio visceral inaudito uniu os democratas. Uma velha piada política americana diz que quando os democratas formam um pelotão de fuzilamento, se juntam em círculo e apontam para dentro. Nada disso este ano. Howard Dean foi inestimável a galvanizar o partido, mas os eleitores rapidamente concluiram que tinham de nomear alguém que penetrasse no centro. E até os candidatos compreenderam que os eleitores democratas não tolerariam divisões. Todos os debates têm evitado confrontos fraticidas. No debate de ontem foi claro que John Edwards, um comunicador nato, se retraiu para não atacar Kerry. Kerry é um político típico, e dele não há nada a esperar de inovador. Não irá mudar nada de essencial, apenas tentar governar de forma a agradar aos eleitores. E é por isso que as coisas NÃO serão as mesmas se Kerry for eleito: a ideologia voltará à gaveta. Rui, as declarações de Kerry que referiste à tempos não são brilhantes. Mas Kerry foi procurador, e teve de trabalhar para fundamentar os seus casos em tribunal, frente a júris. E no contexto político americano ser contra a pena de morte já é um milagre. Muito diferente de Bush, que no Texas montou um gabinete de perdões que lhe fornecia argumentos para NÂO perdoar nenhuma pena!

Em face das sondagens, Bush decidiu reagir, concedendo pela primeira uma entrevista televisiva. No programa "Meet the Press", com um entrevistador incómodo, o desempenho de Bush foi tão pobre que até os comentadores conservadores o criticaram. Nos extratos que vi, Bush parece um robot encravado que só consegue falar da guerra e definir-se como um presidente de guerra. Quando o entrevistador lhe pergunta se a forma como se pensou que os americanos seriam recebidos em Bagdad foi mal avaliada, sai a resposta mais brilhante: Eu acho que fomos bem recebidos em Bagdad... Esta entrevista apenas confirmou perante os próprios conservadores que Bush está em dificuldades. De tal forma que Luis Delgado já se agarra à candidatura de Ralph Nader. Mas Nader está totalmente isolado, este ano ninguém lhe dará espaço.

O essencial está para vir, ainda faltam muitos meses de campanha, mas é bom começar à frente.
NA

2004-02-25
 
...But were you expecting David Blunkett?
Em construcção...
[Infelizmente estou sem tempo para escrever o texto propriamente dito, mas fica já aqui o espaço reservado aproveitando a tua deixa Rui]AG
2004-02-23
 
Nobody expects the spanish inquisition!
Outro dia ao ler o jornal me estremeci com um presentimento do passado que atacava o agora para assim humilhar toda a pretensão humana de evolução ou autoconfiança na espécie.

O parlamento holandês aprovou uma proposição de lei que expulsaria de uma só vez a 26000 emigrantes. Só falta aprovar o Senado. As razões invocadas pelos parlamentares holandeses não disfarçam a xenofobia pura e dura dos mesmos ao aprovar semelhante coisa.

Enquanto li percebi o significado profundo das palavras de Monty Python: "Nobody expects the spanish inquisition!" A verdade é que nunca achei demasiada graça aos meninos ingleses mas naquele momento senti o gênio que ás vezes vive inconsciente no mais pequeno detalhe por mais absurdo que este detalhe nos pareça á primeira vista.

Se nos centramos nos judeus expulsados, em Espanha entre 1480 e 1492 se acredita haverem sido cerca de 100 mil. Ou seja, estariamos falando que Holanda a inicios do século XXI vai expulsar quase 1/4 deste número de uma só vez (e não em 12 anos). Poderão me referir que a comparação das dimensões não é válida pelas diferenças demográficas entre ambos períodos. Neste caso a pergunta será: O sofrimento situado no passado tem mais valor e são mais pecaminosos seus causadores que aquele situado no presente, devido a essas diferenças demográficas? É até provável que sim, afinal como diz Laurie Anderson, ou melhor, como dizia o seu pai:

Dady, dady.
It was just like you said.
Now that the living outnumber the dead.
I am one of many. *

Assim é como os holocaustos começam. Quando o sofrimento do outro por ser actual não tem o impacto melodramático de um bom (em geral mais bem mal) filme histórico, produzido em Hollywood.

Teremos que esperar que nossos netos nos perguntem sobre este período que estarão por então aprendendo na escola "em que os brancos europeus andavam assustados com tanta gente escura á sua volta". Aqui, que há tão pouco tempo era o paraíso na terra, cheio de meninos loirinhos e branquinhos como pequenas nuvens no jardim...

Pois o que eu digo, minha gente, é que um dia se saberá que essas nuvenzinhas estavam feitas de mijo e cheiravam mal. RF

* Speak My Language, Laurie Anderson
 
Epígrafe para a arte de furtar (Dia Z)
Roubam-me Deus,
Outros o diabo
-Quem cantarei?

Roubam-me a Pátria;
e a humanidade
outros ma roubam
-Quem cantarei?

Sempre há quem roube
Quem eu deseje;
E de mim mesmo
Todos me roubam
-Quem cantarei?

Roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo
-Aqui d'El Rei!

Jorge de Sena (1958)

AG
2004-02-22
 
Noel Rosa (1910-1937)
O meu amigo Miguel deu-me a conhecer este compositor, sambista e boémio carioca - pilar da Musica Popular Brasileira.
Um pequeno exemplo cantado por Djavan - "Tarzan, o filho do alfaite":


AG
 
Luís Villas Boas - Energúmeno do Mês
...pelas suas declarações ao Público e pela sua contribuição para a causa do obscurantismo e para o retrocesso civilizacional.AG
2004-02-18
 
Democracia ou Estado de Direito
Das duas coisas, Democracia é a que pode ser definida mais objectivamente. O Estado de Direito é apenas um nome para o que aquele grupo de pessoas usualmente designadas por humanistas consideram como regras minímas que qualquer Estado deve obedecer e proteger. As duas coisas óbviamente não são a mesma coisa e existem inúmeros exemplos actuais e passados em que estiveram opostas, e são de conhecimento geral: Alemanha hitleriana, a Argélia desde o último golpe de estado militar, para citar dois acontecimentos emblemáticos, um passado e outro mais recente e actual. Mas também existe uma história estabelecida de coincidência entre ambas as coisas. Basicamente esta história é a do século XX, em que as maiorias populacionais da maior parte dos países ocidentais conquistaram voz e cidadania.

Agora desde que estas maiorias se encontram satisfeitas a democracia tem demonstrado o seu lado perverso, como não sendo por si mesma um garante da protecção das minorias, uma das exigências do Estado de Direito moderno. Começando um período em que se torna clara a separação entre os dois conceitos. Este período é naturalmente o mesmo em que vemos a direita conquistar espaço político em comparação com uma esquerda, em geral (mas não sempre) mais identificada com a defesa do Estado de Direito, que o perde.

Um dos exemplos mais claros deste enfrentamento nos períodos recentes seria Guantanamo onde o Estado de Direito americano é óbviamente ameaçado e a Democracia é precisamente aquela que de alguma maneira "legaliza" esta ameaça. O outro é aquele que inspira este post, e é a tentativa do Conselho de Governo de Iraque actual de suspender uma série de direitos da mulher que já se encontravam estabelecidos, mesmo durante a ditadura de Saddam (isto óbviamente não quer dizer que Saddam fosse um garante do Estado de Direito...).

Este último caso é emblemático porque mostra os dois lados da questão. Saddam (que óbviamente era a negação da Democracia) defendeu este aspecto do Estado de Direito que consiste na defesa dos direitos da mulher. Com a sua queda o Conselho de Governo que o substitui pelas mãos da administração norte-americana de Bush Júnior, e que se supõe representar melhor a população iraquiana, principalmente no que a população chiíta se refere, tenta destruir estas conquistas do Estado de Direito que já haviam sido alcançadas.

Isto é especialmente importante para que todos nos demos conta do equivocadas que provavelmente estão as posições agora defendidas sobre a transição iraquiana pelos países, que no seu momento se opuseram correctamente a invasão do Iraque, e falamos de França, Alemanha, etc. Defender que se realizem, o antes possível, umas eleições iraquianas democráticas, com voto directo, etc, é no minímo ingenuidade e no máximo irresponsabilidade. Pelo menos para aqueles que defendem o Estado de Direito.

Agora que "o caldo está entornado" tenho sérias dúvidas de que seja responsável uma transição apressada de poderes, com eleições democráticas, etc, sem que estejamos seguros de que aqueles grupos que representam internamente em Iraque os valores humanistas que defendemos estão suficientemente fortalecidos e apoiados para que o resultado desta transição não seja trágico para a população iraquiana de qualquer etnia, sexo ou religião. RF
2004-02-17
 
Jantar
...claro que superior à cultura hebraico-greco-romano-árabe é a cultura afro-tupi-hebraico-greco-romano-árabe:


(Baden Powell/Vinicius de Moraes na voz de Mônica Salmaso e nos dedos de Paulo BellinatiAG
2004-02-16
 
Mentes veladas
...e eu não posso impor a minha opinião a ninguem, tem de ser a conclusão ao meu anterior post para qualquer um que acredite nos direitos humanos. Porque senão era fácil: metiam-se rabinos, padres e mulás no Campo Pequeno e ... que bela imagem, toda a padralhada estraçalhada, isto de respeitar os direitos humanos às vezes é tão chato...

Agora a sério:
André, Rui, vocês disseram o essencial sobre os problemas que a proibição do veu levanta, concordo com tudo o que disseram. Só duas notas adicionais. A primeira está relacionada com a desmontagem da ETA pelo Rui: eu não concordei com a lei que proibiu o Batasuna (o partido político legal da ETA), mas a lei foi eficaz: privou a ETA dos recrutas da juventude partidária, e deu espaço à mensagem nacionalista não violenta. Agora que a lei do véu foi aprovada, ao menos espero que ela resulte nalguma coisa, mesmo que não condorde com ela. Se for aplicada de forma cautelosa, como meio de pressão e não de exclusão, pode funcionar. Mas isso deixa as alunas à mercê de caprichos de políticos e juizes, e uma lei que faz isso é sempre má.

A segunda nota, mais longa, é uma reflexão sobre a unanimidade com que a lei foi aprovada. A esquerda uniu-se à direita, sem propor nada de diferente. Isto apenas mostra a degradação política em que caiu a sociedade francesa.

Para mim o ponto decisivo foi a inacreditável derrota de Lionel Jospin. Recordemos que o governo Jospin deu à França um periodo de crescimento económico e equilíbrio orcamental, com a consequente melhoria das condições sociais, ao mesmo tempo que conseguia levar em frente medidas como as 35 horas. Para conseguir isto, Jospin teve de ser rigoroso, e combater os muitos interesses corporativos que se escondem atrás de organizações de "esquerda", que apenas conseguem previlégios inaceitáveis para grupos muito específicos. Num país tão corporativo, um político honesto não é tolerável. E assim uma série de grupusculos troksyistas acabaram por entregar o poder à direita. Aqueles que não quiseram engolir o sapo Jospin acabarar por deglutir o elefante Chirac. Estão contentes. Quando é que a extrema-esquerda em França, ou em todo o lado, se deixará de patetices?

Entretanto Chirac meteu a esquerda no bolso com a guerra do Iraque. Mas isso não o tranquiliza. Como pode ser popular uma direita que aplaude Alain Juppe depois de ser condenado pelos empregos fictícios na Câmara de Paris, e em que Chirac só sobrevive devido à imunidade? Não admira que as últimas sondagens dêm 20% a Le Pen...
NA

 
Almoço
Qualquer pessoa de bom senso que já se tenha sentado a uma mesa a sul dos Pirinéus não pode deixar de acreditar na superioridade da cultura hebraico-greco-romano-árabe.AG

P.S: A cultura siamesa também não é nada má.
 
Não ao relativismo cultural!
Eu acredito de forma fanática na superioridade da cultura hebraica-greco-romano-árabe sobre a cultura judaico-cristã-muçulmana.

Mas isso é o que eu acredito... NA

 
©2004 Terra Santa Corporation All rights reserved
No Brasil se dizia (ou alguém que já não me recordo disse) que a crise perdurava desde tanto tempo porque seguia sendo um muito bom investimento.

Lembrei-me desta "piada" a propósito das últimas notícias simultâneas e paralelas sobre casos de corrupção de Ariel Sharon e Yasser Arafat. Descubrimos agora o verdadeiro significado de toda aquela confusão no Médio Oriente. Trata-se apenas de invetimentos de alto risco em uma região onde a matéria prima, que neste caso é a estupidez humana, é muito barata, e a mão de obra (se bem que tenha que constantemente ser renovada...) está também ao preço da chuva.

Esta grande corporação, de seu nome "Terra Santa", com filiais em todos os continentes do mundo e sede em Jerusalém está passando, últimamente, dificuldades com a manutenção de sua imagem comercial de conflito teritorial/religioso determinante, transparecendo á opinião pública outras facetas eventualmente "menos dramáticas". Mas não parece que isto prejudique a posição dominante do conflito no mercado da miséria humana mundial. Aliás há que ter em conta que tal como noutros casos (Enron, Parmalat, etc), este tipo de crises corporativas será apenas reflexo de uma crise mundial que imagina-se temporária.

Contamos então que rápidamente o Conflito Israel-Palestina se recupere moralmente para que nos siga servindo regularmente a dose de dramatismo histórico que todos necessitamos nestes tempos em que fukuyamas anunciam finais de histórias e começos de lenga-lengas economicistas. Ou será que vamos descobrir que o "Fuku" tinha razão, e a única maneira de tratar o problema vai ser com alguma lei tipo "Anti-trust" que proíba tácticas monopolizadoras desleais de um conflito no contexto de todos os conflitos mundiais?
RF
2004-02-14
 
Mordejai Vanunu - Refém do Grupo Armado, na posse de armas de destruição massiva, chamado Governo de Israel






Os árabes podem ter o petróleo, mas nós temos os fósforos.(Ariel Sharon)

Referindo-se a Shimon Peres, Issam Makhoul, deputado israelita disse:
Creio que será julgado severamente pela história por duas coisas: pelo seu papel na construção do reactor de Dimona e pela ordem que deu, quando era Primeiro Ministro, de cometer um acto de terrorismo ao sequestrar a Mordejai Vanunu em Itália em Setembro de 1986.

Vieram do serviço de inteligência e me disseram que se falasse me passava o mesmo que a Vanunu.(Trabalhador de Dimona, doente de cancro)

Mordejai Vanunu, é físico, mais específicamente nuclear e faz 18 anos, foi sequestrado em Itália pela facção denominada "Mossad" do grupo terrorista "Governo de Israel". Mordejai foi acusado de haver revelado segredos de estado e condenado a 18 anos em 1986. Parece ser que a mediados dos anos noventa o grupo terrorista "Governo de Israel" chegou a mudar o lugar onde o mantém refém para um hospital psiquiátrico.

O "crime" de Mordejai Vanunu foi haver revelado ao jornal britânico "The Sunday Times" que o grupo terrorista "Governo de Israel" possuía um plano de construção de armas de destruição massiva (ou como as chamam o Governo de Israel, "armas de defesa definitiva"), mais específicamente, armas nucleares. Informação que se veio a revelar correcta.

Mordejai Vanunu, um judeu nascido em Marrakesh, contou durante seu "julgamento" o período da sua infância em que na praça de Jamma el Fna (só este nome já é toda uma declaração de intenções, entende quem lá esteve, os outros terão que ir) de Marrakesh ao final do dia se juntavam "pessoas de todas as partes para vaguear e divertir-se", como quem relembra episódios de um Éden perdido.

Em abril de 1997 Mordejai dizia a Edgardo Krawiecki que apenas queria do "Governo de Israel" que o deixasse conviver com outros presos. Desde faziam naquele momento mais de dez anos que ele se encontrava em total isolamento. E depois aos embaixadores de Israel pelo mundo lhes faz confusão o que se diz do regime israelita...

Deveria ser libertado este ano mas existem dúvidas sobre seu futuro. Já foram publicadas notícias que afirmam que a Mordejai não será permitido sair de Israel depois de cumprida a pena. Mordejai no entanto, ele mesmo, já expressou o desejo de deixar Israel e viver nos Estados Unidos depois de cumprida a pena. Em carta escrita ao presidente Bill Clinton, que fez vários esforços para que recebesse a liberdade condicional (como é que não querem que eu goste do senhor?), e onde agradecia a preocupação de Bill, afirmava o desejo de não viver em Israel:

"Não posso ser cidadão de um estado que converteu minha vida em algo de tão duro tantos anos."

Mordejai terminava a carta solicitando a Clinton que lhe concedesse a cidadania americana.

Este post humildemente relembra este homem esquecido pelos meios de comunicação mundiais e que terá replicado aos juízes que o condenaram:

"Uma acção como a minha ensina aos demais que a própria reflexão, a de todo individúo, não é menos importante que a de seus chefes. Estes fazem uso da força e sacrificam milhares de pessoas no altar da sua megalomania. Não os sigam as cegas."

Há que dar atenção ás palavras deste homem que em dado momento foi internado "num hospital de malucos", nestes tempos de soldados que matam crianças, e constroem muros, separando-os de mães assassinas que se suicidam com vários kilos de dinamite em discotecas, para vingar a morte de seus irmãos mortos no dia antes, desde um helicóptero conduzido por netos de sobreviventes de Auschwitz, cujos pais se convenceram que o sofrimento de seus avós lhes dava o direito de roubar terra... terra prometida... como João que prometeu o apocalipse de fogo, e Mordejai avisou que o povo eleito já tinha ele também um plano para chegar lá... RF
 
Véus II - O nazismo para funcionar nos nossos dias tem, como todas as coisas, que ser cool
Quando me apercebi disto com mais clareza foi ao começar a conhecer os detalhes do caldo ideológico dos grupos indepedentistas bascos. Ora, a "sorte" que tiveram os nacionalistas bascos foi a de crescer e se organizar baixo a ditadura franquista de direita. Isto possibilitou que terminado o franquismo eles, os nacionalistas bascos - já agora começarei a chamar-los pelo nome honesto e sem hipocrisias inúteis - possibilitou que os neonazistas bascos, tivessem disponível uma organização independentista com uma imagem e vocabulário de esquerdas. Isto preparou um caminho com futuro para atrair os mais jovens em massa do país basco. Um caminho que uma ideologia autênticamente nazista nunca poderia abrir porque nunca estaria de acordo com os novos tempos, nunca seria suficientemente cool e se manteria minoritária.

Assim hoje podemos fácilmente ouvir um jovem basco defender a razão de existência do país basco com base em argumentos típicamente nazis como: uma identidade racial bastante definida, que segundo alguns se pode comprovar inclusive nos tipos sanguíneos da população basca, ao mesmo tempo que cita Che Guevara, ou defende o regime castrista e ataca a direita internacional. Já agora é preciso notar que este passado de luta contra Franco é também muito importante para que os jovens bascos da ETA não se ponham confusos pelo facto de pedirem a separação de um país onde a população em geral vive bastante pior que eles.

A minha idéia é que Chirac nesta última polêmica, inteligente como é, se apercebeu exactamente disso, da nova lei dos hipócritas e opressores futuros:

"O nazismo para funcionar nos nossos dias tem, como todas as coisas, que ser cool"

E assim sendo partiu ao ataque da comunidade muçulmana em França e de sua cultura aparentando defender o programa do partido comunista françês: laicicismo, direitos da mulher, etc.

O que tudo isto significa é que a partir de agora, teremos todas as pessoas de bem, que andar com os olhos muito mais abertos, já que os bandidos se estão pondo mais espertos que antes e mais dificeis de reconhecer... Começam até a enganar pessoas com tradição de idéias de esquerda estabelecida como o nosso amigo FM... o caso do Mário Vargas Llosa já é bastante diferente, e me coloca uma questão: FM será que não vês que o gajo é de direita??? Ou será que tu também és de direita e andastes nos enganando fingindo ser "cool"?

Já agora me lembro de uma coisa, houve um tempo, faz mais ou menos uns 70 anos, em que os bandidos também se puseram muito espertos e conseguiram enganar muita gente aparentando ser cools... Falo de um senhor chamado Adolfo... É verdade! Naqueles tempos o nazismo chegou a ser considerado moderno e cool. Basta olhar para aquelas fardas... Ao contrário dos véus das mulheres muçulmanas, aquelas roupas são cool ainda hoje em qualquer uma das grandes praças da moda mundial: em Paris, em Nova Yorque, em Roma, em Londres, em Madrid, em San Sebastian, em Jerusalém, em Bagdad, em Pequim, em Moscow, e em Lisboa... RF
 
Véus
Apesar de o essencial já ter sido dito pelo André acerca da proibição do Chirac de utilização de véus nas escolas, vou tentar acrescentar algumas coisas que creio são importantes de fazer notar aos que concordam com o senhor Chirac nesta questão. Em particular ao nosso amigo FM que anda a escrever barbaridades em outras partes.

Existe um engano essencial e muito simples nesta questão por parte daqueles que sendo laicos pensam que a posição do governo françês nesta matéria é correcta, que é o de perderem de vista que o véu é apenas uma vestimenta. Parece óbvio, mas o Filipe tal como todos os bons homens de esquerda que simpatizam com a proibição do véu já se esqueceram disto. Para eles o véu é um símbolo. E é este o pecado original do jacobino.

Ao lutarmos contra as formas primitivas de misticismo que subsistem na nossa sociedade não devemos nunca participar da sacralização dos símbolos e mitos que é tanto do agrado das almas religiosas. Caso contrário correremos o risco de confundir aquelas pessoas que pensamos estar a proteger. Me refiro, é claro, ás mulheres muçulmanas, para as quais o véu é muitas vezes tão somente uma peça de roupa que, ao ser proibida as ridiculariza mais que as protege. Existem muitas mulheres muçulmanas perfeitamente libertas e independentes que consideram o véu uma afirmação da sua identidade cultural tal como uma mulher negra americana considera o seu vestido azul folgado uma afirmação do orgulho nas suas origens africanas. Se proibimos a jovem muçulmana de usar o véu é muito provável que ela o tome como uma ofensa á sua cultura que nada tem a ver com a luta ou protecção dos seus direitos. E o que é pior, é que provavelmente ela terá razão...

Não tenham dúvidas de que esta forma de luta pelos direitos das mulheres muçulmanas, proibindo o véu, é realmente pura xenofobia cultural (que não devemos esquecer que é xenofobia de qualquer forma), revestida pelo "véu" da modernidade. Não é aliás por acaso que esta lei é tomada exactamente pelo mesmo governo que em grande parte ganhou as últimas eleições contra Le Pen mas também contra Jospin, precisamente, defendendo leis mais duras e restrictivas contra a emigração. E também não será por acaso que esta lei recebe tanto apoio de um electorado que já sabemos desde as últimas eleições se encontra profundamente radicalizado em torno de poisições que são, na melhor das hipóteses, de direita conservadora, e na pior, nazis. Chirac não está minimamente preocupado com a mulher muçulmana, o que lhe preocupa a ele, e a toda a direita francesa que apoia esta medida, é a existencia de uma grande comunidade muçulmana que põe em risco "the french way of life".

Á mulher muçulmana não se deverá defender defendendo a mulher muçulmana, mas sim defendendo a mulher em geral. Ou seja, mantendo, creando e incrementando todas as infraestructuras existentes e possíveis para a protecção da mulher, de modo que esta mulher muçulmana, como qualquer outra, sinta a segurança necessária para se defender no interior das comunidades onde vivam, sabendo que se necessário terá a ajuda da sociedade em geral. Desconfiar sempre de quem ajuda sem que se tenha pedido ajuda, e principalmente dos que só ajudam quando não se lhes pede. Um dia terás um deles de trás de ti pronto a aplicar uma eutanásia a título de intervenção humanitária num momento em que estejas distraído...

De qualquer forma, o que nunca pode ser feito é fazer com que a mesma mulher muçulmana seja a primeira a concordar com o homem muçulmano de que a sociedade francesa ataca os seus costumes e começa a ridicularizar-los desde pequeninos nas escolas, e de maneira institucional, por favor... RF
2004-02-12
 
Questionário
A obrigação do uso do véu é:

a) um atentado à liberdade individual
b) um atentado à laicidade do estado
c) um acto de descriminação sexual
d) todas as anteriores

A proibição do uso do véu é:

a) um atentado à liberdade individual
b) um atentado à laicidade do estado
c) um acto de descriminação étnica e religiosa
d) todas as anteriores

Quem fica a ganhar com a aprovação da nova lei em França:

a) a intolerancia e a discórdia.
b) Jean-Marie Le Pen e seus acólitos
c) Os movimentos fudamentalistas islamicos que vêm o seu "sex-appeal" reforçado junto da juventude francesa muçulmana.
d) todas as anteriores

Respostas: Liberté zéro points/freedom zero points; égalité zéro points/equality zero points; fraternité zéro points/fraternity zero points; La haine dix points/hatred ten points. AG
2004-02-11
 
Filipe Matamouros
O Filipe teve um acesso de reacionarismo católico. (...deve ser como a malária que mesmo depois de curada, de vez em quando têm-se umas recaídas agudas).

Diz o Filipe neste texto a propósito da questão do véu nas escolas francesas que "o véu para mim representa uma opressão das mulheres islâmicas com que não devemos pactuar"

Primeiro, a questão do véu no sistema educativo francês sempre me pareceu um subterfugio da frança reacionária e xenófoba para usar a laicidade do estado em seu favor. Se a França é a pátria do jacobinismo, não nos podemos tambem esquecer de que é a pátria da reação católica mais radical (dos sagrados corações, sagradas famílias e outras coisas que tais). Ao leitor mais interessado sobre a génese do reacionarismo católico aconselha-se a leitura de Stendhal.

Desde que o mundo é mundo que a mulher é oprimida das mais diversas formas em todas as culturas de todos os continentes. A libertação da mulher neste nosso canto do planeta é uma conquista recente e que está longe de estar acabada e em relação ao qual não podemos baixar os braços. A libertação é tão compativel com o islão como o é com o cristianismo nos seus diversos sabores.
Temos o privilégio de viver numa sociedade mais livre porque a circunstancia histórica ditou que essa libertação começasse por aqui (tinha que começar algures) e não por causa de uma qualquer suposta superioridade da nossa civilização judaico-cristã (ou será greco-romana?)

Símbolos, ou resquícios de símbolos da opressão da mulher temo-los em todo o lado. Não esquecer que as mulheres cristãs também usavam/usam véu (as boas maneiras permitem à mulher usar o chapeu dentro de casa e dentro da igreja e ao homem não). As noivas cristãs usam véu, as freiras usam véu etc. etc.
E já agora.. lá em casa quem é que faz o jantar, é o papá ou a mamã?

A questão essencial por trás do véu é a questão do pudor, e é evidente que as raizes do pudor são profundamente retrógradas e quase sempre machistas. Mas podem estar tão profundamente enraizadas na cultura que transcendem a esfera moral.

Nem de propósito, mas antes do natal vi uma exposição sobre o véu no museu de arte contemporânea aqui do burgo (em que quase todas as instalações eram de artistas-mulheres-muçulmanas). Uma delas mostrava uma sequência enorme de fotos de mulheres tiradas pelo exército francês numa aldeia argelina algures na década de 50.
Num esforço burocrático-colonial de cadastrar a população, o exército ia de aldeia em aldeia fotografar toda a gente. Ora as mulheres eram obrigadas a desnudar a cara para a fotografia, e o resultado é quase sempre um olhar zangado, ultrajado, desafiador**.

O meu argumento definitivo:Acham que numa aula de natação as alunas devem ser obrigadas a desnudar os seios para salvaguardar a sua liberdade?

Filipe, o sentimento, mais que as palavras, do teu texto parece mostrar que continuas a acreditar na superioridade civilizacional da margem direita do mediterrâneo. Não quererás tu repensar um bocadinho a tua posição ou preferes estar na ilustre companhia de Berlusconis e Le Pens?AG

* obrigado Yasser pelo apelido
** obrigado Mané pela discussão da exposição
2004-02-07
 
O que vai nu e quem o veste
Os governos de Espanha e Polônia estão muito chateados por haver perdido um negócio milhonário referente ao equipamento (roupas, etc) para o novo exército iraquiano.
Parece que a proposta americana tinha "casualmente" a metade do preço da espanhola e polaca. É assim... quem faz acordos com bandidos depois se arrepende...
Imagino que algumas pessoas no governo espanhol devem estar entrando em desespero ao ver que correm o risco de não fechar nenhum grande negócio em Iraque antes das próximas eleições, o que em caso de que as percam significaria ter sido tão cara-de-pau (os portugueses não podem ser esquisitos com brasileirismos que são em realidade tão somente terminologia científica) para não ganhar nada em troca...
Se bem que, infelizmente, é pouco provável que o PP espanhol perca as próximas eleições, Bush Jr poderia ser caridoso e dar-lhes desde já uns trocos. Poderia deixar que os polacos se responsabilizassem dos calções do futuro exército iraquiano, e os espanhóis do papel higiênico para os quartéis. Ou eventualmente, deixavam o papel higiênico para Portugal, alegrando o Durão por ter patrocinado aquela "açoreanada", e para o Aznar, que é "mais importante", deixavam-lhe o negócio dos sabonetes.
Agora para aqueles que dizem, tal como John Kerry (o cada vez mais provável candidato demócrata contra o Bush Jr), que o que esteve mal foi a gestão do pós-guerra e não a guerra em si, e específicamente criticam o facto de se ter desfeito o exército iraquiano, agora já terão percebido porquê se fizeram as coisas como se fizeram. É que quando se destrói se cria a necessidade de reconstruir e com ela uma série de oportunidades de negócio... RF
 
Pois de novo será, mas agora de uma maneira nova
Começamos a correr o risco de tornar este blog num foro de discussão sobre o aborto entre pessoas-que-estão-do-ponto-de-vista-da-maior-parte-das-pessoas-essencialmente-de-acordo (seguramente que em alemão isto poderia ser uma palavra só). Mesmo assim não fugirei da discussão. A última vez que me lembro de ter desistido de discutir um tema com alguém, foi uma vez no metro de Lisboa (não me lembro qual estação), já faz alguns anos, em que um velho insistia comigo que eu era cabo-verdiano "e não devia negar-lo porque a minha raça era muito bonita".
Antes de mais nada não vou tentar fazer-te mudar de posição sobre o aborto, Nuno. Te direi ao contrário, que não por causa do teu texto mas de outros dois que já referirei, o bom senso obriga-me a admitir que sou precisamente eu quem não está em desacordo contigo. Aliás esta é uma tendência muito forte minha: a de fazer sem dar-me conta o papel do advogado do diabo e quando finalmente a outra pessoa concorda comigo, eu me apercebo que concordo com a sua opinião inicial, o que faz com que todos voltemos a estar basicamente em desacordo. Há quem diga que este “meu problema” se chama em linguagem coloquial, “demência”.
Mas a verdade é que estaria mentindo dizendo que é este exactamente o caso agora. Mais correctamente se deveria dizer neste caso que descobri que dentro de um intervalo de erro que podemos chamar de intervalo-de-concordância-não-sociopata (este também é um termo que em alemão se poderia escrever em uma palavra só... seguro que sim) eu, tu e o Filipe (quase que escrevi Felipe só para punir-lo...) estamos de acordo.
Agora quais foram os dois textos que me permitiram chegar a esta brilhante conclusão?
O primeiro é este da Silvia Sousa, e com o qual eu me encontrei por acaso fazendo uma coisa que tenho até vergonha de dizer, que é... lendo outros blogs....
O outro é de uma outra mulher (provavelmente isso não é coincidência, é que elas têem uma classe de lógica que me resulta absolutamente imbatível...), dessa vez espanhola, e que li no El País de ontem. A autora se chama Soledad Gallego-Díaz e o texto: “La Capacidad de Hacerse Respetar”. Neste caso não posso pôr um enlace porque os-muito-cabrões do “El País” têem aquilo “fechado”... de qualquer forma vou pôr aqui partes do artigo (afinal eu paguei o jornal!), espero que ninguém seja tão filho-da-puta (essa e o os-muito-cabrões seguramente que os alemães têem em uma palavra só) para delatar-me para o “El País”:

Entre las muchas cosas que escribió Fukuyama sobre el fin de la Historia hubo una especialmente sugestiva. Será una época, dijo, con una única perspectiva: años y años en que prevalecerá el cáculo económico y la resolución de problemas técnicos. Siglos de aburrimiento.

Ora, vou fingir por enquanto que não vi que ela, ou mais precisamente Fukuyama, basicamente está falando de um dos aspectos que diferencia a vossa posição da minha. Se diria que eu sou de uma esquerda de antes do Fim da História e voçês de uma, mais moderna, que já está no, ou está para lá do, Fim da História, seja lá o que o Fim da História for. Mas pronto vou fingir que não vi, porque realmente apesar de isso tudo ser verdade não é onde eu quero chegar, assim que voltemos ao texto de Soledad Gallego-Díaz:

Y dado que el aburrimiento se produce, sobre todo, cuando no se nos escucha, serán, pues, siglos en los que se nos hablará sin responder jamás a nuestras preguntas. Años en los que se nos inundará con polémicas que no nos importarán.

Depois disso o artigo continua, fazendo uma análise desde o ponto de vista expressado sobre a situação política actual de Espanha e afirmando, muito bem do meu ponto de vista, que o importante políticamente em Espanha agora, é saber porquê se apoiou a invasão do Iraque. Na medida que é nessa questão que se joga “la capacidad de hacerse respetar” da cidadanía espanhola. Eu faria só uma correcção referente ao facto de que "o porquê" realmente todos sabem, assim que o que importa saber é se a sociedade espanhola aceita este "porquê".
De qualquer forma a questão central aqui é realmente que não havendo nenhum de nós os dois mudado de opinião, eu mudei em parte de opinião acerca de nossa discordância, sem haver mudado realmente, mas eu sei que tu me entendes.

P.S.: Os palavrões e as piadinhas de gosto duvidoso se justificam, na medida em que, ao fim e ao cabo, são realmente as únicas coisas de interesse neste post. RF
2004-02-06
 
De novo o aborto
Rui, volto de novo à nossa discussão sobre o aborto, porque eu, ao contrário do Filipe, não mudei de posição. Temo que em relação à questão do financiamento do aborto nunca nos venhamos a entender. Tu entendes que a mulher nunca pode ser "vítima" da biologia. É a mulher que fica grávida, e portanto ela tem o direito de escolher se leva a gravidez até ao fim, sem mais questões. Eu estou de acordo, até à última vírgula. Entendo que se põe uma questão bem pragmática: quem paga a conta? A minha resposta: os envolvidos na questão, se ele for um homem decente. Se não, terá de ser a mulher. A sociedade só deve apoiar excepções resultantes de incapacidade mental, educacional ou económica.

Dizes tu que assim estou a eliminar a liberdade de escolha. Estaria a faze-lo se não admitisse exepções. O que eu estou a dizer é: quem precisa de ajuda para concretizar uma escolha tem de o demonstrar. Repara que há problemas até mais críticos que a falta de dinheiro: a falta de especialistas. Se hoje a falta de obstetas já obriga muitas maternidades a fechar, então como se iriam assegurar abortos ilimitados no Sistema Nacional de Saúde (SNS)? Isto sem contar com que muitos médicos se negariam a fazer abortos.

Dirás que estou a ser machista e a colocar a mulher em desvantajem: a mulher não pode ficar dependente do homem, e mesmo com o apoio de alguns homens e com as exepções, muitas vezes serão elas a arcar com a despesa. Esta objecção seria crítica antes da contracepção moderna e da emancipação profissional da mulher. Com as possibilidades actuais, para a mulher que cumpra as precauções básicas, a gravidez não desejada ficou reduzida ao mesmo nível de um vulgar acidente. E isso faz toda a diferença. Todos, homens e mulheres, estamos sujeitos a acidentes, e se o aborto for legal, pagar um será bem mais barato que arranjar o automóvel. Reparem que esta comparação é apropriada. Legalizado, o aborto não deve ser encarado como drama, ou moralmente condenável. Será um acto normal, feito para reparar um acidente contraceptivo. Causará certa mossa na carteira durante esse mês, nada demais, o suficiente para assegurar que uma cirurgia (com riscos para a mulher) nunca será o contraceptivo primário. Nós nunca poderemos reverter totalmente a biologia: a mulher terá sempre que tomar precauções contraceptivas, e estará sempre sob risco de acidente contraceptivo, mas com o aborto legal, mesmo que pago, isso não será nada demais.

O caso concreto que referes, em que uma mulher fica grávida devido a um preservativo furado, enquadra-se nesta situação. Já os outros casos são mais complexos. A questão das prostitutas que não usam preservativo porque os clientes não querem é muito grave, mas por causa das doenças sexualmente transmissiveis. A maior parte das prostitutas usa a pílula! A que prostitutas te referes? As acompanhantes que frequentam os hoteis e discotecas ganham em dias o que eu ganho por mês. As alternadeiras dos bares do interior devem ser obrigadas a tomar a pílula pelos donos das casas, para renderem o máximo. As prostitutas de rua são quase sempre toxicodependentes que necessitam de muito apoio e são claramente casos de exepção.

Fundamental é um mecanismo para concretizar as exepções. Um dos grandes problemas do país é a falta de uma rede institucional de apoio, acolhimento e refúgio para mulheres em risco e filhos menores. As mulheres vítimas de violência doméstica não rompem a relação abusiva por falta de alternativa financeira e alojamento. Uma tal rede de apoio, com pontos em todos os municípios, seria o local ideal para tratar dos processos de aborto com apoio estatal. As mulheres que aí se dirigissem teriam várias alternativas. Por exemplo, referes o caso de mulheres sem autonomia financeira que querem abortar mas não têm o apoio dos maridos. Tal situação por si só já é um caso de exepção. Mas a solução é apoiar esses abortos repetidamente? Só como situação transitória. Soluções passariam por fornecer a pílula gratuitamente, implantar um contraceptivo subcutâneo, colocar um dispositivo intra-uterino, e, muito idealmente, conseguir dar uma maior independência à mulher na sua relação.

Na prática eu considero que a liberdade de escolha é o mais importante, e por isso votei e votarei favoravemente no referendo (alias, eu acho que não devia haver referendo, a Assembleia devia resolver isto imediatamente). Mas conheço pessoas que votaram contra por causa deste problema! O aborto deve ser livre, mas só pode ser pago pelo estado se houver razões concretas. Esses critérios podem ser amplos. O ideal seria que houvesse um local onde a mulher se dirigisse para expor a sua situação a um técnico social qualificado, que a encaminharia então para o hospital se fosse caso disso, mas que lhe daria também apoio alternativo.
Repara que permitir o acesso directo das mulheres que querem abortar aos hospitais seria muito complicado, se as urgências já são o que são. E já imaginaste o que seria uma consulta abortiva num centro de saúde? Todos os velhotes da terra saberiam quem ia abortar! Por isso acho que a minha solução até é a mais eficaz! NA

 
Roubar e Matar
É já um lugar comum que o caminho que em geral os criminosos utilizam para chegar ao poder é prometer e oferecer ao povo exactamente o que o povo espera. Pois Sharon não é mais que outro exemplo disso: um criminoso comum.
O homem enfrenta-se com a Justiça do seu país acusado de diversos (parece que são 3) casos de corrupção. Para o povo de Israel, Sharon desobedeceu um dos 10 Mandamentos, o 8º para sermos específicos, o do "Não furtarás". Acontece que antes ele já havia desobedecido outro que todos considerávamos mais importante, o 6º, o do "Não matarás", sem que o "povo elegido" se tivesse escandalizado.
Parece então que no judaísmo moderno os mandamentos considerados mais importantes agora, são os últimos e não os primeiros como pensávamos antes. Mas mentira, pois primeiro de tudo Ariel Sharon já havia desobedecido o 10º: "Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, e seu servo, e sua serva, e seu boi, e seu asno, e tudo que seja de teu próximo." Será que Sharon resolveu desobedecer os mandamentos de trás para frente?
No entanto parece inclusive que agora está arrependido de haver desobedecido o último mandamento pois anunciou o plano de retirada da faixa de Gaza. Será que vai arrepender-se de trás para frente também? Ou será, que ele apenas segue o conselho de um velho amigo judeu (chamado Henry Kissinger) de comportar-se como um louco de modo a convencer o inimigo de que se está louco, assustando-o...
A questão que um se põe á maneira de outro judeu (chamado Woddy Allen) acerca desta estratégia é: qual a diferença entre ela e estar-se realmente louco? RF
 
A propósito de Robert Dole e Paus e Tetas
I was thinking of things that I hate to do
SEX WITH YOUR PARENTS
Things you do to me or I do to you, baby
SEX WITH YOUR PARENTS

Something fatter or uglier than Rush Rambo
Something more disgusting than Robert Dole
Something pink that climbs out of a hole
And there it was - SEX WITH YOUR PARENTS

I was getting so sick of this right wing republican shit
These ugly old man scared of young tit and dick
So I try to think of something that made me sick
And there it was - SEX WITH YOUR PARENTS

Now these old fucks can steal all they want
And they can go and pass laws saying you can't say what you want
And you can't look at this and you can't look at that
And you can't smoke this and you can't snort that
And me baby - I got statistics - I got stats
These people have been to bed with their parents

Now I know you're shocked but hang and have a brew
If you think about it for a minute you know that it's true
They're ashamed and repelled and they don't know what to do
They've had sex with their parents
When they looked into their lovers eyes they saw - mom
In the name of the family values we must ask whose family
In the name of the family values we must ask - Senator

It's has been reported that you have had
Illegal congress with your mother, - SEX WITH YOUR PARENTS
ah, Senator
An illegal congress by proxy is a
Pigeon by any other name, - SEX WITH YOUR PARENTS

Senators you polish a turd
Here in the big city we got a word
For those who would bed their beloved big bird
And make a mockery of our freedoms
Ah, without even using a condom
Without even saying "no"
By god we have a name for people like that
It's - hey motherfucker

Lou Reed - Sex With Your Parents (Motherfucker)
 
"O homem que enfrentou os franceses"
A frase é de Robert Dole (lembram-se dele?) e é referente a Aznar. Uma coisa importante que a frase não refere é que Aznar enfrentou os franceses mas provavelmente também os espanhóis.
De qualquer modo parece ser que Aznar é admirado na condição de que se oponha a uma França que seja incômoda para os EUA. O que basicamente significa que quando França seja novamente amiga dos EUA, Espanha voltará a não pintar nada em termos internacionais como não pintava antes da invasão de Iraque e na prática continua a não pintar. E isto é importante que se lembrem todos aqueles em Espanha (e também em Portugal) que acham Aznar muito astuto em termos diplomáticos.
A frase também me parece interessante desde o ponto de vista que nos possibilita ver a Chirac como "O homem que enfrentou os americanos".
E se Aznar enfrentou os franceses para agradar os americanos, Chirac enfrentou os americanos para agradar a quem? Aos alemães? É provável, e nesse caso Shroeder enfrentou os americanos para agradar a quem? Aos alemães também? Ou seja, que o computo geral deveria ser: Aznar enfrentou os franceses (e os espanhóis) para agradar os americanos, Chirac enfrentou os americanos para agradar os alemães (mas no caminho pelo menos não foi em contra do que desejavam os franceses), e Shroeder enfretou os americanos para agradar aos alemães.
Nesta história quem me parece de longe melhor posicionado desde um ponto de vista democrático (e para aqueles que valoram uma valoração deste tipo) é Shroeder, apesar de Chirac não estar nada mal...
Agora a questão mais interessante é sem dúvida: Bush enfrentou os iraquianos para agradar a quem? Isto cheira-me a apresentação de um filme (futuro?) de Oliver Stone...RF
2004-02-05
 
Sexo, Miséria, Paus e Outras Tetas - Traduções de Pasolini para "Brasileiro" e "Canadense"

Os Outros Românticos

Eram os outros românticos, no escuro
Cultuavam outra idade média situada no futuro
Não no passado
Sendo incapazes de acompanhar
A baba Babel de economias
As mil teorias da economia
Recitadas na televisão
Tais irredutíveis ateus
Simularam uma religião
E o espírito era o sexo de Pixote então
Na voz de algum cantor de rock alemão
Com o ódio aos que mataram Pixote a mão
Nutriam a rebeldia e a revolução
E os trinta milhões de meninos abandonados do Brasil
Com seus peitos crescendo, seus paus crescendo
E os primeiros mênstruos
Compunham as visões dos seus vitrais
E seus apocalipses mais totais
E suas utopias radicais
Anjos sobre Berlim
"O mundo desde o fim" *
E no entanto era um sim
E foi e era e é e será sim

(They were the other romantics, in darkness
They made a cult of another middle age
Located in the future not in the past
Being incapable of following
The blah, blah, bubble of economics recited on television
These irreducible atheists
Simulated a religion
And the Spirit was the sexy of Pixote
In the voice of some German rock singer
With retrad for those who killed Pixote by hand
They nurtured rebellion and revolution
And the thirty million abandoned kids of Brazil
With their tits growing, their dicks growing,
Their first menstruations
Composed the visions in their stainglass windows
And their most complete apocalipses
And their radical utopias
Angels over Berlin
The world since the end
And all the while it was a yes
It has been, it was, it is, and will be yes)**

Caetano Veloso (para Jorge Mautner) 1989

* Antônio Cícero, Luciano Figueiredo e Khliebnikov
** Tradução para Inglês: Arto Lindsay


E não concordo com algo central do poema do Paolo (do ponto de vista de tese e "deixando o estético ao lado" - como se eu soubesse fazer isso...): o sexo é a vã consolação de todos e não só dos miseráveis. Como diz um canadense que tal como o Caetano além de poeta sabe umas coisas (este agora vai sem tradução) -:


Closing Time

Ah we're drinking and we're dancing
and the band is really happening
and the Johnny Walker wisdom running high
And my very sweet companion
she's the Angel of Compassion
she's rubbing half the world against her thigh
And every drinker every dancer
lifts a happy face to thank her
the fiddler fiddles something so sublime
all the women tear their blouses off
and the men they dance on the polka-dots
and it's partner found, it's partner lost
and it's hell to pay when the fiddler stops:
it's CLOSING TIME

Yeah the women tear their blouses off
and the men they dance on the polka-dots
and it's partner found, it's partner lost
and it's hell to pay when the fiddler stops:
it's CLOSING TIME

Ah we're lonely, we're romantic
and the cider's laced with acid
and the Holy Spirit's crying, "Where's the beef?"
And the moon is swimming naked
and the summer night is fragrant
with a mighty expectation of relief
So we struggle and we stagger
down the snakes and up the ladder
to the tower where the blessed hours chime
and I swear it happened just like this:
a sigh, a cry, a hungry kiss
the Gates of Love they budged an inch
I can't say much has happened since
but CLOSING TIME

I swear it happened just like this:
a sigh, a cry, a hungry kiss
the Gates of Love they budged an inch
I can't say much has happened since
CLOSING TIME

I loved you for your beauty
but that doesn't make a fool of me:
you were in it for your beauty too
and I loved you for your body
there's a voice that sounds like God to me
declaring, declaring, declaring that your body's really you
And I loved you when our love was blessed
and I love you now there's nothing left
but sorrow and a sense of overtime
and I missed you since the place got wrecked
And I just don't care what happens next
looks like freedom but it feels like death
it's something in between, I guess
it's CLOSING TIME

Yeah I missed you since the place got wrecked
By the winds of change and the weeds of sex
looks like freedom but it feels like death
it's something in between, I guess
it's CLOSING TIME

Yeah we're drinking and we're dancing
but there's nothing really happening
and the place is dead as Heaven on a Saturday night
And my very close companion
gets me fumbling gets me laughing
she's a hundred but she's wearing
something tight
and I lift my glass to the Awful Truth
which you can't reveal to the Ears of Youth
except to say it isn't worth a dime
And the whole damn place goes crazy twice
and it's once for the devil and once for Christ
but the Boss don't like these dizzy heights
we're busted in the blinding lights,
busted in the blinding lights
of CLOSING TIME

The whole damn place goes crazy twice
and it's once for the devil and once for Christ
but the Boss don't like these dizzy heights
we're busted in the blinding lights,
busted in the blinding lights
of CLOSING TIME

Oh the women tear their blouses off
and the men they dance on the polka-dots
It's CLOSING TIME
And it's partner found, it's partner lost
and it's hell to pay when the fiddler stops
It's CLOSING TIME
I swear it happened just like this:
a sigh, a cry, a hungry kiss
It's CLOSING TIME
The Gates of Love they budged an inch
I can't say much has happened since
But CLOSING TIME
I loved you when our love was blessed
I love you now there's nothing left
But CLOSING TIME
I miss you since the place got wrecked
By the winds of change and the weeds of sex.

Leonard Cohen 1992
RF
2004-02-02
 
Lost in translation
A tradução em si deu menos trabalho do que formatar as duas colunas em html...diletantismos pós-modernos.

Sesso, consolazione della miseria!

Sesso, consolazione della miseria!
La puttana è una regina, il suo trono
è un rudere, la sua terra un pezzo
di merdoso prato, il suo scettro
una borsetta di vernice rossa:
abbaia nella notte, sporca e feroce
come un'antica madre: difende
il suo possesso e la sua vita.
I magnaccia, attorno, a frotte,
gonfi e sbattuti, coi loro baffi
brindisi o slavi, sono
capi, reggenti: combinano
nel buio, i loro affari di cento lire,
ammiccando in silenzio, scambiandosi
parole d'ordine: il mondo, escluso, tace
intorno a loro, che se ne sono esclusi,
silenziose carogne di rapaci.

Ma nei rifiuti del mondo, nasce
un nuovo mondo: nascono leggi nuove
dove non c'è più legge; nasce un nuovo
onore dove onore è il disonore...
Nascono potenze e nobiltà,
feroci, nei mucchi di tuguri,
nei luoghi sconfinati dove credi
che la città finisca, e dove invece
ricomincia, nemica, ricomincia
per migliaia di volte, con ponti
e labirinti, cantieri e sterri,
dietro mareggiate di grattacieli,
che coprono interi orizzonti.

Nella facilità dell'amore
il miserabile si sente uomo:
fonda la fiducia nella vita, fino
a disprezzare chi ha altra vita.
I figli si gettano all'avventura
sicuri d'essere in un mondo
che di loro, del loro sesso, ha paura.
La loro pietà è nell'essere spietati,
la loro forza nella leggerezza,
la loro speranza nel non avere speranza.



Sexo, consolação da miséria!

Sexo, consolação da miséria!
A puta é uma rainha, o seu trono
é uma ruina, a sua terra um pedaço
de merdoso campo, o seu ceptro
uma carteira de verniz vermelha:
ladra na noite, suja e feroz
como uma velha mãe: defende
os seus haveres e a sua vida.
Os chulos, à volta, em bando,
inchados, abatidos, com os seus bigodes
brindisinos ou eslavos, são
chefes, governantes: combinam
no escuro, os seus negócios de cem liras
olhando-se em silencio, trocando
senhas secretas: o mundo, excluído, cala-se
para aqueles que se excluem,
silenciosas carcaças de predadores.

Mas nos dejectos do mundo, nasce
um novo mundo: nascem leis novas
onde já não há lei; nasce uma nova
honra onde honra é a desonra...
Nascem poder e nobreza,
Ferozes, nos amontoados de barracas,
nos espaços abertos onde se crê
que a cidade acaba, e onde ao invés,
recomeça, inimiga, recomeça
milhares de vezes, com pontes
labirintos, estaleiros e aterros,
por atrás de vagas de prédios
que cobrem horizontes inteiros.

Na facilidade do amor
o miserável sente-se homem:
assenta a confiança na vida, acabando
a desprezar quem tem outra vida
Os filhos lançam-se à aventura
seguros de estarem num mundo
que deles, do seu sexo, tem medo.
A sua piedade está em ser impiedoso,
a sua força na sua leveza
A sua esperança em não ter esperança.

Pier Paolo Pasolini 1961, traduzido por mim AG

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