Estrangeiros no momento
2004-02-11
 
Filipe Matamouros
O Filipe teve um acesso de reacionarismo católico. (...deve ser como a malária que mesmo depois de curada, de vez em quando têm-se umas recaídas agudas).

Diz o Filipe neste texto a propósito da questão do véu nas escolas francesas que "o véu para mim representa uma opressão das mulheres islâmicas com que não devemos pactuar"

Primeiro, a questão do véu no sistema educativo francês sempre me pareceu um subterfugio da frança reacionária e xenófoba para usar a laicidade do estado em seu favor. Se a França é a pátria do jacobinismo, não nos podemos tambem esquecer de que é a pátria da reação católica mais radical (dos sagrados corações, sagradas famílias e outras coisas que tais). Ao leitor mais interessado sobre a génese do reacionarismo católico aconselha-se a leitura de Stendhal.

Desde que o mundo é mundo que a mulher é oprimida das mais diversas formas em todas as culturas de todos os continentes. A libertação da mulher neste nosso canto do planeta é uma conquista recente e que está longe de estar acabada e em relação ao qual não podemos baixar os braços. A libertação é tão compativel com o islão como o é com o cristianismo nos seus diversos sabores.
Temos o privilégio de viver numa sociedade mais livre porque a circunstancia histórica ditou que essa libertação começasse por aqui (tinha que começar algures) e não por causa de uma qualquer suposta superioridade da nossa civilização judaico-cristã (ou será greco-romana?)

Símbolos, ou resquícios de símbolos da opressão da mulher temo-los em todo o lado. Não esquecer que as mulheres cristãs também usavam/usam véu (as boas maneiras permitem à mulher usar o chapeu dentro de casa e dentro da igreja e ao homem não). As noivas cristãs usam véu, as freiras usam véu etc. etc.
E já agora.. lá em casa quem é que faz o jantar, é o papá ou a mamã?

A questão essencial por trás do véu é a questão do pudor, e é evidente que as raizes do pudor são profundamente retrógradas e quase sempre machistas. Mas podem estar tão profundamente enraizadas na cultura que transcendem a esfera moral.

Nem de propósito, mas antes do natal vi uma exposição sobre o véu no museu de arte contemporânea aqui do burgo (em que quase todas as instalações eram de artistas-mulheres-muçulmanas). Uma delas mostrava uma sequência enorme de fotos de mulheres tiradas pelo exército francês numa aldeia argelina algures na década de 50.
Num esforço burocrático-colonial de cadastrar a população, o exército ia de aldeia em aldeia fotografar toda a gente. Ora as mulheres eram obrigadas a desnudar a cara para a fotografia, e o resultado é quase sempre um olhar zangado, ultrajado, desafiador**.

O meu argumento definitivo:Acham que numa aula de natação as alunas devem ser obrigadas a desnudar os seios para salvaguardar a sua liberdade?

Filipe, o sentimento, mais que as palavras, do teu texto parece mostrar que continuas a acreditar na superioridade civilizacional da margem direita do mediterrâneo. Não quererás tu repensar um bocadinho a tua posição ou preferes estar na ilustre companhia de Berlusconis e Le Pens?AG

* obrigado Yasser pelo apelido
** obrigado Mané pela discussão da exposição

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