Estrangeiros no momento
2004-02-07
 
Pois de novo será, mas agora de uma maneira nova
Começamos a correr o risco de tornar este blog num foro de discussão sobre o aborto entre pessoas-que-estão-do-ponto-de-vista-da-maior-parte-das-pessoas-essencialmente-de-acordo (seguramente que em alemão isto poderia ser uma palavra só). Mesmo assim não fugirei da discussão. A última vez que me lembro de ter desistido de discutir um tema com alguém, foi uma vez no metro de Lisboa (não me lembro qual estação), já faz alguns anos, em que um velho insistia comigo que eu era cabo-verdiano "e não devia negar-lo porque a minha raça era muito bonita".
Antes de mais nada não vou tentar fazer-te mudar de posição sobre o aborto, Nuno. Te direi ao contrário, que não por causa do teu texto mas de outros dois que já referirei, o bom senso obriga-me a admitir que sou precisamente eu quem não está em desacordo contigo. Aliás esta é uma tendência muito forte minha: a de fazer sem dar-me conta o papel do advogado do diabo e quando finalmente a outra pessoa concorda comigo, eu me apercebo que concordo com a sua opinião inicial, o que faz com que todos voltemos a estar basicamente em desacordo. Há quem diga que este “meu problema” se chama em linguagem coloquial, “demência”.
Mas a verdade é que estaria mentindo dizendo que é este exactamente o caso agora. Mais correctamente se deveria dizer neste caso que descobri que dentro de um intervalo de erro que podemos chamar de intervalo-de-concordância-não-sociopata (este também é um termo que em alemão se poderia escrever em uma palavra só... seguro que sim) eu, tu e o Filipe (quase que escrevi Felipe só para punir-lo...) estamos de acordo.
Agora quais foram os dois textos que me permitiram chegar a esta brilhante conclusão?
O primeiro é este da Silvia Sousa, e com o qual eu me encontrei por acaso fazendo uma coisa que tenho até vergonha de dizer, que é... lendo outros blogs....
O outro é de uma outra mulher (provavelmente isso não é coincidência, é que elas têem uma classe de lógica que me resulta absolutamente imbatível...), dessa vez espanhola, e que li no El País de ontem. A autora se chama Soledad Gallego-Díaz e o texto: “La Capacidad de Hacerse Respetar”. Neste caso não posso pôr um enlace porque os-muito-cabrões do “El País” têem aquilo “fechado”... de qualquer forma vou pôr aqui partes do artigo (afinal eu paguei o jornal!), espero que ninguém seja tão filho-da-puta (essa e o os-muito-cabrões seguramente que os alemães têem em uma palavra só) para delatar-me para o “El País”:

Entre las muchas cosas que escribió Fukuyama sobre el fin de la Historia hubo una especialmente sugestiva. Será una época, dijo, con una única perspectiva: años y años en que prevalecerá el cáculo económico y la resolución de problemas técnicos. Siglos de aburrimiento.

Ora, vou fingir por enquanto que não vi que ela, ou mais precisamente Fukuyama, basicamente está falando de um dos aspectos que diferencia a vossa posição da minha. Se diria que eu sou de uma esquerda de antes do Fim da História e voçês de uma, mais moderna, que já está no, ou está para lá do, Fim da História, seja lá o que o Fim da História for. Mas pronto vou fingir que não vi, porque realmente apesar de isso tudo ser verdade não é onde eu quero chegar, assim que voltemos ao texto de Soledad Gallego-Díaz:

Y dado que el aburrimiento se produce, sobre todo, cuando no se nos escucha, serán, pues, siglos en los que se nos hablará sin responder jamás a nuestras preguntas. Años en los que se nos inundará con polémicas que no nos importarán.

Depois disso o artigo continua, fazendo uma análise desde o ponto de vista expressado sobre a situação política actual de Espanha e afirmando, muito bem do meu ponto de vista, que o importante políticamente em Espanha agora, é saber porquê se apoiou a invasão do Iraque. Na medida que é nessa questão que se joga “la capacidad de hacerse respetar” da cidadanía espanhola. Eu faria só uma correcção referente ao facto de que "o porquê" realmente todos sabem, assim que o que importa saber é se a sociedade espanhola aceita este "porquê".
De qualquer forma a questão central aqui é realmente que não havendo nenhum de nós os dois mudado de opinião, eu mudei em parte de opinião acerca de nossa discordância, sem haver mudado realmente, mas eu sei que tu me entendes.

P.S.: Os palavrões e as piadinhas de gosto duvidoso se justificam, na medida em que, ao fim e ao cabo, são realmente as únicas coisas de interesse neste post. RF

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