Estrangeiros no momento
2004-02-27
 
Um bom começo ...
Desde o início do ano começam finalmente a chegar algumas boas notícias dos EUA. Quando se esperava que as primarias democráticas descambacem em luta suicida, eis que um candidato capaz de apelar ao eleitorado vence de forma sistemática. E finalmente as sondagens começam a mostrar dificuldades para Bush. Os seus números são agora muito semelhantes aos que o pai tinha na measma altura. Esperemos que o resultado final seja o mesmo.

Acho que quando se fizer o balanço deste periodo, se vai concluir que para os americanos o momento da revelação foi o último discurso do Estado da União. Os primeiros discursos de Bush foram surpreendentemente bons. Desde logo porque as espectativas eram tão baixas. Mas Bush até conseguia ler os discursos, e os seus escritores sabiam o que faziam. Tem de se reconhecer que, por mais abjectas que sejam, expressões tipo "Eixo do Mal" foram eficazes. Que diferença este ano! O discurso foi mal concebido, e não esteve à altura do ritual, por mais ridículo que ele seja. E logo se viu que havia uma enorme desconexão entre as palavras e a expectativa popular pelo escárnio com que a referêcia a um assunto tão trivial como o casamento gay foi acolhida. A insistência neste assunto por parte dos republicanos pode agradar à direita religiosa, mas irá levá-la a votar? Em contrapartida, de certeza vai mobilizar todo o eleitorado gay a votar contra Bush. Se nem os conservadores levam a sério a hipotese de emendar a constituição... Esperemos que Bush se queime em mais uma fogueira.

Entretanto um ódio visceral inaudito uniu os democratas. Uma velha piada política americana diz que quando os democratas formam um pelotão de fuzilamento, se juntam em círculo e apontam para dentro. Nada disso este ano. Howard Dean foi inestimável a galvanizar o partido, mas os eleitores rapidamente concluiram que tinham de nomear alguém que penetrasse no centro. E até os candidatos compreenderam que os eleitores democratas não tolerariam divisões. Todos os debates têm evitado confrontos fraticidas. No debate de ontem foi claro que John Edwards, um comunicador nato, se retraiu para não atacar Kerry. Kerry é um político típico, e dele não há nada a esperar de inovador. Não irá mudar nada de essencial, apenas tentar governar de forma a agradar aos eleitores. E é por isso que as coisas NÃO serão as mesmas se Kerry for eleito: a ideologia voltará à gaveta. Rui, as declarações de Kerry que referiste à tempos não são brilhantes. Mas Kerry foi procurador, e teve de trabalhar para fundamentar os seus casos em tribunal, frente a júris. E no contexto político americano ser contra a pena de morte já é um milagre. Muito diferente de Bush, que no Texas montou um gabinete de perdões que lhe fornecia argumentos para NÂO perdoar nenhuma pena!

Em face das sondagens, Bush decidiu reagir, concedendo pela primeira uma entrevista televisiva. No programa "Meet the Press", com um entrevistador incómodo, o desempenho de Bush foi tão pobre que até os comentadores conservadores o criticaram. Nos extratos que vi, Bush parece um robot encravado que só consegue falar da guerra e definir-se como um presidente de guerra. Quando o entrevistador lhe pergunta se a forma como se pensou que os americanos seriam recebidos em Bagdad foi mal avaliada, sai a resposta mais brilhante: Eu acho que fomos bem recebidos em Bagdad... Esta entrevista apenas confirmou perante os próprios conservadores que Bush está em dificuldades. De tal forma que Luis Delgado já se agarra à candidatura de Ralph Nader. Mas Nader está totalmente isolado, este ano ninguém lhe dará espaço.

O essencial está para vir, ainda faltam muitos meses de campanha, mas é bom começar à frente.
NA


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