Estrangeiros no momento
2004-02-14
 
Véus
Apesar de o essencial já ter sido dito pelo André acerca da proibição do Chirac de utilização de véus nas escolas, vou tentar acrescentar algumas coisas que creio são importantes de fazer notar aos que concordam com o senhor Chirac nesta questão. Em particular ao nosso amigo FM que anda a escrever barbaridades em outras partes.

Existe um engano essencial e muito simples nesta questão por parte daqueles que sendo laicos pensam que a posição do governo françês nesta matéria é correcta, que é o de perderem de vista que o véu é apenas uma vestimenta. Parece óbvio, mas o Filipe tal como todos os bons homens de esquerda que simpatizam com a proibição do véu já se esqueceram disto. Para eles o véu é um símbolo. E é este o pecado original do jacobino.

Ao lutarmos contra as formas primitivas de misticismo que subsistem na nossa sociedade não devemos nunca participar da sacralização dos símbolos e mitos que é tanto do agrado das almas religiosas. Caso contrário correremos o risco de confundir aquelas pessoas que pensamos estar a proteger. Me refiro, é claro, ás mulheres muçulmanas, para as quais o véu é muitas vezes tão somente uma peça de roupa que, ao ser proibida as ridiculariza mais que as protege. Existem muitas mulheres muçulmanas perfeitamente libertas e independentes que consideram o véu uma afirmação da sua identidade cultural tal como uma mulher negra americana considera o seu vestido azul folgado uma afirmação do orgulho nas suas origens africanas. Se proibimos a jovem muçulmana de usar o véu é muito provável que ela o tome como uma ofensa á sua cultura que nada tem a ver com a luta ou protecção dos seus direitos. E o que é pior, é que provavelmente ela terá razão...

Não tenham dúvidas de que esta forma de luta pelos direitos das mulheres muçulmanas, proibindo o véu, é realmente pura xenofobia cultural (que não devemos esquecer que é xenofobia de qualquer forma), revestida pelo "véu" da modernidade. Não é aliás por acaso que esta lei é tomada exactamente pelo mesmo governo que em grande parte ganhou as últimas eleições contra Le Pen mas também contra Jospin, precisamente, defendendo leis mais duras e restrictivas contra a emigração. E também não será por acaso que esta lei recebe tanto apoio de um electorado que já sabemos desde as últimas eleições se encontra profundamente radicalizado em torno de poisições que são, na melhor das hipóteses, de direita conservadora, e na pior, nazis. Chirac não está minimamente preocupado com a mulher muçulmana, o que lhe preocupa a ele, e a toda a direita francesa que apoia esta medida, é a existencia de uma grande comunidade muçulmana que põe em risco "the french way of life".

Á mulher muçulmana não se deverá defender defendendo a mulher muçulmana, mas sim defendendo a mulher em geral. Ou seja, mantendo, creando e incrementando todas as infraestructuras existentes e possíveis para a protecção da mulher, de modo que esta mulher muçulmana, como qualquer outra, sinta a segurança necessária para se defender no interior das comunidades onde vivam, sabendo que se necessário terá a ajuda da sociedade em geral. Desconfiar sempre de quem ajuda sem que se tenha pedido ajuda, e principalmente dos que só ajudam quando não se lhes pede. Um dia terás um deles de trás de ti pronto a aplicar uma eutanásia a título de intervenção humanitária num momento em que estejas distraído...

De qualquer forma, o que nunca pode ser feito é fazer com que a mesma mulher muçulmana seja a primeira a concordar com o homem muçulmano de que a sociedade francesa ataca os seus costumes e começa a ridicularizar-los desde pequeninos nas escolas, e de maneira institucional, por favor... RF

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