Estrangeiros no momento
2004-03-28
 
Estranhos Amores
Primeiro de tudo a brincadeira de haver dito que o Nuno Anjos era parecido com o Peter Sellers representando ao Doutor Estranhoamor e não com o Doutor em si mesmo se referia ao facto de achar que na tua defesa de uma oculta estratégia por detrás das acções de Sharon havia algo de um cômico representando (neste acaso "apresentando") como frio estratega o que afinal é apenas um louco perdido.

Era tão somente isto.

E na mesma linha sigo, acho que está a descobrir obscuras e inteligentes razões em uma estratégia que é tão somente uma fuga para a frente (atropelando a quantas almas sejam para isso necessárias) de alguém que se vê encurralado pela sua desonestidade e corrupção descobertas, e que se adicionam a outras perversões já conhecidas.

Em geral os pontos em que costumamos discordar, tu e eu, Nuno, são sempre referentes ao apreço aos nossos inimigos comuns, que que em mim talvez seja demasiado pouco e em ti demasiado grande. Ao passo que com o Filipe Moura costumo ter problemas com os amigos incomuns. Em realidade num post recente haverei tocado uma corda já sensível, de um escritor sul americano do seu coração. Filipe, todos temos um escritor sul americano de estimação com o qual ter divergências políticas não é verdade? Quanto ao Kramer não te tomo a mal, lhe tenho muito carinho a todos os Kramers, Woody Allens, e enfermos que amam e odiam o tempo em que lhes tocou viver e sou o primeiro a não rejeitar a família a que pertenço. Já agora como foi depois de Quinta Feira? Não cheguei a ouvir comentários sobre o texto do teu escritor sul americano de estimação.RF
 
O verdadeiro problema
No post anterior concluo que Sharon não é genocida, mas que procura a limpeza étnica dos territórios que deseja anexar. Isto não é uma política exclusiva de Sharon, mas uma política do Estado de Israel, seguida desde a independência. Recomendo a leitura da inquietante entrevista ao historiador Benny Morris no Atalntic Monthly. Morris é um defensor de Israel, mas demonstra claramente que a limpeza étnica da Palestina foi estratégia de estado em Israel. E mais, diz coisas como

"I think he [Ben Gurion] made a serious historical mistake in 1948. Even though he understood the demographic issue and the need to establish a Jewish state without a large Arab minority, he got cold feet during the war. In the end, he faltered... If he was already engaged in expulsion, maybe he should have done a complete job. I know that this stuns the Arabs and the liberals and the politically correct types, but my feeling is that this place would be quieter and know less suffering if the matter had been resolved once and for all."

Mas a entrevista deve ser lida na totalidade.
NA
 
Por onde anda o Estranhoamor
Em comentário ao meu anterior post, o Rui voltou a classificar a actuação de Sharon e também a minha análise de "strangelovianas". Bem, desde logo eu não concordo com a situação, apenas procuro compreendê-la. Mas o que eu não compreendi mesmo foi a insistência do Rui na ideia de loucura "a la Stragelove". Eu diria que a actuação de Sharon é maquivélica, porque ele defende a razão de estado da forma amoral que Maquiavel teorizou. E eu aceitaria que a minha análise fosse Maquiavélica. Mas a insistência do Rui obrigou-me a recordar Strangelove com mais precisão.

No filme de Kubrick a loucura da Guerra Fria é expressa em três caricaturas. O promíscuo general impotente que pensa estarem os comunistas a sabotar os seus preciosos fluidos corporais, e por isso decide começar a 3ª Guerra Mundial por conta própria. O conselheiro presidencial, cientista de cerrado sotaque germânico e agonizante com caimbras recorrentes no braço direito, que planeia a sobrevivência dos eleitos em minas e a repovoação da terra após a catástrofe, entre outro esquemas delirantes. Finalmente, o piloto do bombardeiro, cowboy em permanente entusiasmo parolo, que monta a bomba até ao alvo.

Tenho de reconhecer, Rui, que neste caso a história se repetiu como uma comédia sinistra. Das armas de destruição massiça que os inspectores não descortinavam às imaginadas ligações entre Saddam e a Al-Quaeda, os pretextos mais idiotas serviram para justificar uma invasão do Iraque que, no fundo, foi um ajuste de contas pessoal. Por trás do pano, os planos e análises dos ideólogos neoconservadores revelaram-se mais ridículos que os delírios de Stragelove. E os soldados americanos, que seriam recebidos como libertadores, acabaram por ter de montar a bomba. Todas as entrevistas os mostram prontos a cumprir o dever. Strangelove vive no Iraque e na Casa Branca.

Pronto, Bush é louco "a la Strangelove". Mas o Rui referia-se a Sharon, que eu acho maquiavélico. Ora, quando há dúvidas, nada como recorrer a um esquema simplificado. O protótipo de lider louco é Hitler. Seria maquivélico se as suas diatribes anti-semitas se destinassem apenas a ganhar o poder, como muitos pensavam à época. Mas quando os seus delírios criminosos irracionais se tornaram realidade, e com grande prejuizo para o esforço de guerra, a loucura revelou-se , muito mais do que strangeloviana, total.

Já o lider maquivélico máximo seria Estaline. A fome serviu para forçar a colectivização da terra. Os processos para controlar o partido. As purgas para dominar o exercito. O gulag para submeter as elites. O terror para enquadrar o povo. As deportações para delimitar os povos. Não havia moral, mas havia razão... Este é o motivo porque ainda hoje Estaline não é visto como Hitler. Mas os resultados finais são os mesmos, senão piores. Não foi Estaline irracional? As purgas destruiram o exército, acreditou firmemente no pacto com Hitler... Não era Estaline um sádico? Houve razão ou paranóia? Pois é, Estaline era outro louco. O meu esquema falhou, seria muito simplista. Ou é impossível distinguir real-politik de loucura, e no limite o maquiavelismo é strangeloviano?

Há que ser claro e dizer que Sharon nunca fez nada de magnitude comparavel a Hitler ou Estaline. Genocídio requer uma intenção de exterminio em massa sistemático. Ora Sharon nunca demonstrou na prática a intenção de exterminar os palestinianos. Demonstrou grande indiferença às vítimas inocentes que as suas acções provocam. Demonstrou ser terrorista. Praticou ou aceitou massacres, não de forma generalizada, mas sim para destruir o suporte dos inimigos. Apesar de ter defendido, não deportou os palestinianos. Apenas os torna prisioneiros e procura anexar o seu território. Não é movido por ódio racial, mas por desejo de criar uma grande Israel... Pois, e no fim desta conversa, isto é real-politik ou loucura?

Rui, eu ainda acho que é real-politik, porque Sharon sempre se controlou. Nunca ultrapassou o limite. E o limite é não alienar os EUA. Porque Sharon não exterminaria os palestinianos, mas não exitaria em expulsá-los se os EUA o permitissem. Mas, Rui, acho que finalmente compreendi o teu argumento, e é um bom argumento. Olha, o que sei é que por ter pactuado em limpezas étnicas feitas por sérvios-bósnios, por ter tentado criar a grande Sérvia, e por ter combatido a insurreição no Kosovo da mesma forma que Putin combate a insurreição chechena, Slobodam Milosevic foi atacado pela NATO, enviado para Haia, e está a ser julgado. E muito bem, na minha opinião, que sempre apoiei essa intervenção. Já vez onde eu gostaria que Sharon fosse parar.
NA


2004-03-22
 
O Sheik e o General
A notícia do dia é sem dúvida o assassinio do Sheik Yassin, líder do Hamas, pelo exército Israelita. Inevitavelmente o acto foi condenado pela esquerda como terrorismo de estado e escalada inútil no conflito, enquanto a direita se congratulou com o fim de um líder terrorista. Eu vejo as coisas com mais frieza. No conflito Israelo-Arabe existem as lutas justas pela sobrevivência de Israel e pela independência da Palestina. E existem as lutas injustas pela aniquilação de Israel e a anexação da Palestina. Yassim sempre esteve do lado dos que querem varrer Israel, e nunca admitiu um entendimento. Isto é o mais importante, e não que Yassim tenha usado métodos terroristas. O terrorismo é apenas um método, muito abjecto, mas só um método. O que define se podemos ou não negociar com terroristas são os seus objectivos. E os objectivos de Yasim eram inegociáveis. Não acho que tenha sido inútil. Por outro lado o objectivo do terrorismo é submeter o inimigo pelo medo através de ataques a alvos indiscriminados. Oram neste caso o alvo foi muito concreto: um dirigente inimigo. Afinal Israel está em guerra desde 1948. Só houve tratados de paz com o Egipto e Jordânia. Não foi terrorismo de estado, foi guerra. A questão é que Sharon também tem um objectivo criminoso: a anexação de grande parte da Cisjordânia. E os palestinianos também estão legitimamente em guerra com Israel. Pois é, para mim um atentado contra Sharon não provocaria reacção diferente. De facto, hà alguns anos, os palestinianos assassinaram um ministro palestiniano. Sempre achei os protestos de Israel ridículos. Afinal, só os soldados é que morrem, enquanto o generais fumam charutos e se passeiam de cadeira de rodas?

Nota: É obvio que Sharon fez isto agora porque quer retirar de Gaza, mas não quer que os palestinianos cantem vitória. Ora, o importante é que Israel saia de Gaza, não os lideres do Hamas. Só nesta medida é que isto me satisfaz: é a melhor confirmação que Sharon quer mesmo sair do ninho de vespas. O problema é que a estratégia dele não é louca, como o Rui pensa. O que ele quer é negociar uma paz com um novo lider em Gaza, e apresentar isso como o prototipo da sua ideia de dividir a Cisjordania e negociar com lideres locais.
NA
 
Quarta Feira de Cinzas
Quarta-Feira próxima Durão e Blair se reúnen para abordar se imagina a questão terrorista. Como sabemos o papel central de Portugal na área temos a certeza que se tomarão muitas decisões importantes...

O erro de Aznar e em grande parte o de Durão Barroso foi acreditar que a sua aliança com os EUA representava para este algo mais que utilidade funcional temporária, achando que tinham presença estratégica na cabeça dos dirigentes americanos e ingleses.

A ingenuidade e estupidez de tais idéias fazem com que aqueles que andaram a pensar que a Península Ibérica se havia enchido de grandes estadistas comunguem da estupidez e ingenuidade destes líderes ibéricos, que só demonstraram para com o mundo talento para o teatro trágico-cómico.

Demonstraram também falta total de sentido da sua posição no mundo. Amanhã quando as lideranças de Alemanha e de França tenham melhores relaciones com a administração norte-americana (e inglesa por extensão), Espanha e Polônia (nem vale a pena referir Portugal) não representará absolutamente nada para EUA ou Reino Unido, e quem achar o contrário se ilude. Ao passo, que das cabeças das elites dirigentes de França e de Alemanha, e mesmo dos povos destes países, não desaparecerá tão cedo os receios sobre o europeísmo dos países medianos de Europa. E quer se quiera quer não, Shroeder e Chirac têem toda a razão quando dizem que estes países morderam a mão que lhes deu de comer. O pior de tudo, é que como qualquer cachorro raivoso, morderam sem que a médio e largo prazo ganhem nada com isso, e tenham isso sim, grandes riscos de perderem várias coisas.

Durão se vai reunir com Blair, tenho pena de Portugal porque vai noticiar-lo provavelmente em alguns meios de comunicação que sabemos todos quais são como sendo uma oportunidade de Portugal assumir uma posição charneira na política mundial, agora que o "lugar" conquistado pela Espanha de Aznar está vago (como se este lugar fosse sequer invejável...). Esperemos que não existam muitos meios de comunicação estrangeiros dando importância a notícia, para não amplificar a dimensão da nossa estupidez.

O que conseguiram para os seus cidadãos, Durão Barroso e Aznar, ao ligarem os países que dirigiam as aventuras desta estúpida administração norte-americana, foi apenas amplificar os complexos e pequeninices dos seus países e cidadãos.

Para aqueles que ao parecer ainda não entenderam: uma Europa sem importância nem dignidade não engendrará uma Península Ibérica mais importante nem mais digna. O lugar de Espanha e de Portugal passa por Europa. Nestes tempos de tanta estupidez á solta deveríamos exigir líderes mais responsáveis e inteligentes.
RF
2004-03-21
 
Depois da emoção
Uma das caracteristícas frequentes dos textos que apontam o 14M como uma victória dos terroristas, é não se referir a óbvia manipulação realizada pelo governo do Partido Popular no sentido de confundir e ludibriar a população espanhola antes das eleições sobre os culpados dos atentados por motivos óbvios. Fogem assim a questão essencial contra qual não têem argumentos e que legitima a opção do povo espanhol acima de qualquer discussão ideológica. Existe outro grupo apenas menos hipócrita em grau que não foge a esta questão apenas diz que isto é falso, e joga então com a capacidade de credulidade de quem o ouve ou lê. Mario Vargas Llosa pertence ao primeiro grupo dos hipócritas em grau máximo.

É preciso notar para os que têem dúvidas sobre a manipulação governamental da informação pública sobre a investigação dos atentados de 11M pelo governo nos dias seguintes e que antencederam as eleições, e apenas a titulo de exemplo, que o governo do partido popular foi admoestado quase oficialmente pelo governo alemão por não haver facilitado toda a informação e/ou haver apresentado informação deliberadamente incorrecta sobre a investigação, estando a segurança do seu país também em risco, como a de qualquer país europeu; a associação de jornalistas estrangeiros em Espanha apresentou protesto público ao governo espanhol pelo que ela considerou informação incorrecta que deliberadamente lhes foi apresentada.

E isto são apenas exemplos para quem deles necessite.
RF
 
A propósito da emoção
(Troço de estupidez da autoria de Mario Vargas Llosa para emocionar a todos que o leiam antes de quinta feira.)

"Respecto al 11-S estadounidense, el 11-M madrileño ostenta un añadido en la estrategia terrorista: además de causar el mayor número posible de asesinatos, la intención de influir brualmente en la circunstancia política del país victimado. lo consiguió en toda línea: gracias a la salvaje matanza, un número considerable de electores españoles, dolidos y enfurecidos, votaron a la oposición y derribaron al partido de Gobierno, al que hasta entonces todos los sondeos auguraban la victoria. Según un consenso unánime castigaban así la decisión de Aznar de apoyar la intervención militar anglo-norteamericana en Irak contra Sadam Husein, que fue siempre muy impopular en España. De este modo, José Maria Aznar, el estadista que desde la transición dio el impulso más potente al crecimiento económico del país, creó cerca de cuatro millones y medio de puestos de trabajo, modernizó más las instituiciones y dio a España una presencia y dinamismo en la escena internacional que no tenía desed el Siglo de Oro, era humillado y convertido en chivo expiatorio de la bestialidad homicida de Al Qaeda. De ingratitudes semejantes está hecha también la democracia(...)"

Não tenho paciencia para citar mais... e acho que já chega para emocionar. A metade antes é um blá blá para boi dormir, e a metade depois é reiterativa da estupidez já reconhecível neste troço.
RF
 
Esclarecimento sobre as muitas formas de ganhar
Haveriam ganhado os terroristas do atentado de 11M em 14M se o povo espanhol não tivesse votado no PSOE para não causar erros de interpretação que levassem a pensar que os terroristas houvessem ganhado.
A estupidez é muito traiçoeira e as suas formas de ganhar são quase infinitas, mas no dia 14M seguramente ela sofreu uma grande derrota. Infelizmente não acontece todos os dias...
RF
 
Mario Vargas Llosa - Estúpido de Coração
O escritor latino americano Mario Vargas Llosa cuja veia de "estúpido-sul-americano-branco-novo-rico-apaixonado-pela-elegância-da-estupidez-dos-brancos-norte-americandos" já havíamos notado faz tempo, demonstrou mais uma vez seus maravilhosos dotes no El País de hoje.
Filipe tu que me desculpes, mas a verdade é que é absolutamente impossível perceber a tua admiração pelo individúo, que nunca foi capaz de apresentar em todos os inúmeros textos jornalísticos e de opinião que li dele, uma única chispa de genialidade que me estimule a ler uma única frase da sua escrita de ficção.
Hoje ao ler o seu texto do El País "Madrid en el corazón", a sua falta de gênio se confirmou, a sua fascínora maneira de aparentar humanidade no exercício da estupidez natural do homem de direita também (existem excepções a esta estupidez natural, mas Mário Vargas Llosa não é uma delas). Aliás a linhagem a que pertence a estupidez de direita de Vargas Llosa é a mesma que a da "estupidez de direita com bonomia" da direita demócrata norte americana nos seus momentos de menor cáracter.
Também na linha de personagens como Bush, John Kerry, Paulo Portas (mais específicamente o seu partido), e outras maravilhas da natureza humana que tais, defende a injustiça que fizeram ao bom Aznar, que o terrorismo venceu no 14M, que é um erro abandonar a aliança invasora do Iraque, e outras barbaridades que exigem o talento de um bom (?) escritor sul americano para conseguirem ser publicadas em qualquer jornal com mais de um milhar de tiragem.
RF
2004-03-18
 
Carta desde Espanha
1
Os últimos acontecimentos não me inspiraram vontade de escrever neste blog nenhuma. Para quê? A humanidade ficará mais inteligente graças a isso? Alguém tem dúvida de que o sofrimento que o homem já causou ao homem justificam plenamente que o homem deixe de existir de uma vez por todas?
A estupidez humana, o seu cáracter gratuito, a sua asqueroza teimosia confirmaram-se mais uma vez. Não há absolutamente nada que a humanidade possa fazer para borrar a sua total falta de dignidade.
Apesar de tudo isso desde um ponto de vista individual cada um, incluindo os exemplares mais ignóbeis da raça humana, crê ter as suas razões para seguir vivendo. Eu sou também um exemplo disso.

2
Soube do que acontecia tomando o café antes de começar a trabalhar os atentados tinham acabado de ocorrer. No bar (em Espanha os cafés são bares) insistiam que era ETA antes do governo começar a apontar na mesma direcção. Eu achava tudo demasiado violento mesmo para os sanguinários de ETA. ETA é capaz dematar muitos mais, mas menos de cada vez. Não por ser mais boa, mas por ter uma táctica de afirmar a sua insanidade diferente. Desde o inicio, e o digo sem nenhum orgulho, mas como a coisa mais banal do mundo, desconfiei da informação dada pelo governo, do seu conteúdo e do seu tom. Como eu, grande parte de Espanha apercebeu-se naqueles momentos de até que ponto chegava a canalhice, a arrogância, e o desprezo do Partido Popular espanhol pelo próprio povo espanhol. Se equivocaram. Mesmo eu me equivoquei, pois achei que a táctica ia resultar, que Espanha não ia ter capacidade de reacção e votaria em sentido contrário. Espanha é mais inteligente que pensávamos eu, e Aznar. A diferença é que eu estou contente por isto e Aznar não. Digam o que disserem foi o descaramento dos últimos movimentos de manipulação do governo que levaram a sua queda definitiva, mais que o não á guerra do iraque ou que os atentados em si mesmos.

3
Pelo mundo inteiro vejo que o que aconteceu em Espanha (me refiro a manipulação da informação e não aos atentados) se repete. Qualquer meia hora de conferência de imprensa do governo actual dos EUA ultrapassa mil vezes em desfaçatez e banditismo ao governo de Aznar. Uma das formações da coligação actual portuguesa é várias vezes mais mal formada que a maior parte dos elementos de governo do PP espanhol, e as recentes declarações de apoio a este mesmo PP espanhol também ajudam a demonstrar-lo. Ouvir Tony Blair querer transformar uma opção madura e absolutamente democrática de uma nação européia em rendição, é demonstração não só de má fé como também de grosseria e incapacidade total ao diálogo. Se diria que estas pessoas não estão preparadas para desempenhar a profissão que escolheram com dignidade mas apenas com interesses obscuros. Espanha se deu conta disso, muito me temo que seja um caso isolado.

4
Aznar, Bush, Blair, Berlusconi, e também Durão Barroso são em muito grande parte responsáveis indirectos do que aconteceu 11 de Março em Madrid.
Gastar esforços materiais e humanos em uma guerra (a de Iraque) que nada tinha que ver com a guerra ao terrorismo, em particular, ao fundamentalista islâmico e a Al Quaeda significou em última análise desperdiçar tempo e oportunidade de evitar o 11M. Além disso esta guerra de Iraque não só possibilitou que os verdadeiros culpados do 11S se recuperassem como ainda que se fortalecessem tendo agora uma nova causa mártir para o mundo árabe.

5
Iraque não era um ninho de terroristas como nos mentiram os governos de Estados Unidos, de Grã Bretanha, de Espanha, de Itália e de Portugal. Mas agora é. Como ver então a posição do candidato espanhol eleito Zapatero de retirada de tropas de Iraque? Já o dise e reafirmo. Será uma irresponsabilidade que a comunidade internacional ocidental abandone Iraque sem mais. Por outro lado é uma vergonha que não seja a ONU a controlar o terreno. Neste sentido de forçar a uma solução do tipo ONU para Iraque considero a posição de Zapatero válida e positiva.

6
Kerry pede hoje que Zapatero não retire as tropas de Iraque. Estive acompanhando nos últimos dias os programas de informação televisivos americanos: notícias, entrevistas, programas de opinião. Nunca senti uma clastrofobia tão grande. Nunca vi tanto cinismo, hipocrisia, e manipulação em consecutivo. Agora de cada vez que ouça um americano dizer que os europeus são cínicos, hipócritas ou o que seja, me rirei a gargalhadas. Descobri que os americanos andam a décadas a confundir a sua estupidez com ingenuidade e sinceridade.

7
Hoje tenho o orgulho de viver num dos poucos países europeus em que os cidadãos podem não ter asco do governo que elegeram. Não participei desta eleição mas me deixam participar do prazer que a mesma genera.

8
Faz muito pouco tempo eu trabalhava em Madrid, apanhava transportes públicos (autocarro e metro) numa estação a menos de um kilometro de uma das estações envolvida no ataque. Me parece tudo tão improvável, extraterrestre. É como se houvesse um universo paralelo em que sou um palestino ou um israelita morto no Oriente Médio por um missíl ou por uma bomba. Num universo paralelo qualquer acabaram de me matar. Acabaram de nos matar a todos.

Estamos todos de luto por nós mesmos.

RF

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