Estrangeiros no momento
2004-03-18
 
Carta desde Espanha
1
Os últimos acontecimentos não me inspiraram vontade de escrever neste blog nenhuma. Para quê? A humanidade ficará mais inteligente graças a isso? Alguém tem dúvida de que o sofrimento que o homem já causou ao homem justificam plenamente que o homem deixe de existir de uma vez por todas?
A estupidez humana, o seu cáracter gratuito, a sua asqueroza teimosia confirmaram-se mais uma vez. Não há absolutamente nada que a humanidade possa fazer para borrar a sua total falta de dignidade.
Apesar de tudo isso desde um ponto de vista individual cada um, incluindo os exemplares mais ignóbeis da raça humana, crê ter as suas razões para seguir vivendo. Eu sou também um exemplo disso.

2
Soube do que acontecia tomando o café antes de começar a trabalhar os atentados tinham acabado de ocorrer. No bar (em Espanha os cafés são bares) insistiam que era ETA antes do governo começar a apontar na mesma direcção. Eu achava tudo demasiado violento mesmo para os sanguinários de ETA. ETA é capaz dematar muitos mais, mas menos de cada vez. Não por ser mais boa, mas por ter uma táctica de afirmar a sua insanidade diferente. Desde o inicio, e o digo sem nenhum orgulho, mas como a coisa mais banal do mundo, desconfiei da informação dada pelo governo, do seu conteúdo e do seu tom. Como eu, grande parte de Espanha apercebeu-se naqueles momentos de até que ponto chegava a canalhice, a arrogância, e o desprezo do Partido Popular espanhol pelo próprio povo espanhol. Se equivocaram. Mesmo eu me equivoquei, pois achei que a táctica ia resultar, que Espanha não ia ter capacidade de reacção e votaria em sentido contrário. Espanha é mais inteligente que pensávamos eu, e Aznar. A diferença é que eu estou contente por isto e Aznar não. Digam o que disserem foi o descaramento dos últimos movimentos de manipulação do governo que levaram a sua queda definitiva, mais que o não á guerra do iraque ou que os atentados em si mesmos.

3
Pelo mundo inteiro vejo que o que aconteceu em Espanha (me refiro a manipulação da informação e não aos atentados) se repete. Qualquer meia hora de conferência de imprensa do governo actual dos EUA ultrapassa mil vezes em desfaçatez e banditismo ao governo de Aznar. Uma das formações da coligação actual portuguesa é várias vezes mais mal formada que a maior parte dos elementos de governo do PP espanhol, e as recentes declarações de apoio a este mesmo PP espanhol também ajudam a demonstrar-lo. Ouvir Tony Blair querer transformar uma opção madura e absolutamente democrática de uma nação européia em rendição, é demonstração não só de má fé como também de grosseria e incapacidade total ao diálogo. Se diria que estas pessoas não estão preparadas para desempenhar a profissão que escolheram com dignidade mas apenas com interesses obscuros. Espanha se deu conta disso, muito me temo que seja um caso isolado.

4
Aznar, Bush, Blair, Berlusconi, e também Durão Barroso são em muito grande parte responsáveis indirectos do que aconteceu 11 de Março em Madrid.
Gastar esforços materiais e humanos em uma guerra (a de Iraque) que nada tinha que ver com a guerra ao terrorismo, em particular, ao fundamentalista islâmico e a Al Quaeda significou em última análise desperdiçar tempo e oportunidade de evitar o 11M. Além disso esta guerra de Iraque não só possibilitou que os verdadeiros culpados do 11S se recuperassem como ainda que se fortalecessem tendo agora uma nova causa mártir para o mundo árabe.

5
Iraque não era um ninho de terroristas como nos mentiram os governos de Estados Unidos, de Grã Bretanha, de Espanha, de Itália e de Portugal. Mas agora é. Como ver então a posição do candidato espanhol eleito Zapatero de retirada de tropas de Iraque? Já o dise e reafirmo. Será uma irresponsabilidade que a comunidade internacional ocidental abandone Iraque sem mais. Por outro lado é uma vergonha que não seja a ONU a controlar o terreno. Neste sentido de forçar a uma solução do tipo ONU para Iraque considero a posição de Zapatero válida e positiva.

6
Kerry pede hoje que Zapatero não retire as tropas de Iraque. Estive acompanhando nos últimos dias os programas de informação televisivos americanos: notícias, entrevistas, programas de opinião. Nunca senti uma clastrofobia tão grande. Nunca vi tanto cinismo, hipocrisia, e manipulação em consecutivo. Agora de cada vez que ouça um americano dizer que os europeus são cínicos, hipócritas ou o que seja, me rirei a gargalhadas. Descobri que os americanos andam a décadas a confundir a sua estupidez com ingenuidade e sinceridade.

7
Hoje tenho o orgulho de viver num dos poucos países europeus em que os cidadãos podem não ter asco do governo que elegeram. Não participei desta eleição mas me deixam participar do prazer que a mesma genera.

8
Faz muito pouco tempo eu trabalhava em Madrid, apanhava transportes públicos (autocarro e metro) numa estação a menos de um kilometro de uma das estações envolvida no ataque. Me parece tudo tão improvável, extraterrestre. É como se houvesse um universo paralelo em que sou um palestino ou um israelita morto no Oriente Médio por um missíl ou por uma bomba. Num universo paralelo qualquer acabaram de me matar. Acabaram de nos matar a todos.

Estamos todos de luto por nós mesmos.

RF

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