Estrangeiros no momento
2004-03-28
 
Por onde anda o Estranhoamor
Em comentário ao meu anterior post, o Rui voltou a classificar a actuação de Sharon e também a minha análise de "strangelovianas". Bem, desde logo eu não concordo com a situação, apenas procuro compreendê-la. Mas o que eu não compreendi mesmo foi a insistência do Rui na ideia de loucura "a la Stragelove". Eu diria que a actuação de Sharon é maquivélica, porque ele defende a razão de estado da forma amoral que Maquiavel teorizou. E eu aceitaria que a minha análise fosse Maquiavélica. Mas a insistência do Rui obrigou-me a recordar Strangelove com mais precisão.

No filme de Kubrick a loucura da Guerra Fria é expressa em três caricaturas. O promíscuo general impotente que pensa estarem os comunistas a sabotar os seus preciosos fluidos corporais, e por isso decide começar a 3ª Guerra Mundial por conta própria. O conselheiro presidencial, cientista de cerrado sotaque germânico e agonizante com caimbras recorrentes no braço direito, que planeia a sobrevivência dos eleitos em minas e a repovoação da terra após a catástrofe, entre outro esquemas delirantes. Finalmente, o piloto do bombardeiro, cowboy em permanente entusiasmo parolo, que monta a bomba até ao alvo.

Tenho de reconhecer, Rui, que neste caso a história se repetiu como uma comédia sinistra. Das armas de destruição massiça que os inspectores não descortinavam às imaginadas ligações entre Saddam e a Al-Quaeda, os pretextos mais idiotas serviram para justificar uma invasão do Iraque que, no fundo, foi um ajuste de contas pessoal. Por trás do pano, os planos e análises dos ideólogos neoconservadores revelaram-se mais ridículos que os delírios de Stragelove. E os soldados americanos, que seriam recebidos como libertadores, acabaram por ter de montar a bomba. Todas as entrevistas os mostram prontos a cumprir o dever. Strangelove vive no Iraque e na Casa Branca.

Pronto, Bush é louco "a la Strangelove". Mas o Rui referia-se a Sharon, que eu acho maquiavélico. Ora, quando há dúvidas, nada como recorrer a um esquema simplificado. O protótipo de lider louco é Hitler. Seria maquivélico se as suas diatribes anti-semitas se destinassem apenas a ganhar o poder, como muitos pensavam à época. Mas quando os seus delírios criminosos irracionais se tornaram realidade, e com grande prejuizo para o esforço de guerra, a loucura revelou-se , muito mais do que strangeloviana, total.

Já o lider maquivélico máximo seria Estaline. A fome serviu para forçar a colectivização da terra. Os processos para controlar o partido. As purgas para dominar o exercito. O gulag para submeter as elites. O terror para enquadrar o povo. As deportações para delimitar os povos. Não havia moral, mas havia razão... Este é o motivo porque ainda hoje Estaline não é visto como Hitler. Mas os resultados finais são os mesmos, senão piores. Não foi Estaline irracional? As purgas destruiram o exército, acreditou firmemente no pacto com Hitler... Não era Estaline um sádico? Houve razão ou paranóia? Pois é, Estaline era outro louco. O meu esquema falhou, seria muito simplista. Ou é impossível distinguir real-politik de loucura, e no limite o maquiavelismo é strangeloviano?

Há que ser claro e dizer que Sharon nunca fez nada de magnitude comparavel a Hitler ou Estaline. Genocídio requer uma intenção de exterminio em massa sistemático. Ora Sharon nunca demonstrou na prática a intenção de exterminar os palestinianos. Demonstrou grande indiferença às vítimas inocentes que as suas acções provocam. Demonstrou ser terrorista. Praticou ou aceitou massacres, não de forma generalizada, mas sim para destruir o suporte dos inimigos. Apesar de ter defendido, não deportou os palestinianos. Apenas os torna prisioneiros e procura anexar o seu território. Não é movido por ódio racial, mas por desejo de criar uma grande Israel... Pois, e no fim desta conversa, isto é real-politik ou loucura?

Rui, eu ainda acho que é real-politik, porque Sharon sempre se controlou. Nunca ultrapassou o limite. E o limite é não alienar os EUA. Porque Sharon não exterminaria os palestinianos, mas não exitaria em expulsá-los se os EUA o permitissem. Mas, Rui, acho que finalmente compreendi o teu argumento, e é um bom argumento. Olha, o que sei é que por ter pactuado em limpezas étnicas feitas por sérvios-bósnios, por ter tentado criar a grande Sérvia, e por ter combatido a insurreição no Kosovo da mesma forma que Putin combate a insurreição chechena, Slobodam Milosevic foi atacado pela NATO, enviado para Haia, e está a ser julgado. E muito bem, na minha opinião, que sempre apoiei essa intervenção. Já vez onde eu gostaria que Sharon fosse parar.
NA



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