Estrangeiros no momento
2004-07-21
 
Coltrane hoje!
Não, não é o famoso John, mas o ainda não muito conhecido filho, Ravi Coltrane, que toca hoje em Oeiras. Nascido em 65, Ravi tinha dois anos quando o pai faleceu. Foi criado pela mãe Alice Coltrane, pianista que tocou com o marido nos seus últimos anos. Ravi Aprendeu o mesmo instrumento do pai, o saxofone, mas só decidiu enveredar profissionalmente pela música já tarde. Apareceu ao lado de Elvin Jones na digressão pela Europa em 91. Jones tinha sido o baterista de John Coltrane, mas não foi por favor que recrutou o filho Ravi, que deu boa conta de si nesses concertos. Apesar disso, Ravi não estava certo de querer prosseguir à sombra do pai. Só voltou a dar de si em 95, com o primeiro album. Desde aí gravou mais dois, e todos foram bem recebidos. Eu não conheço bem a sua música. Do que ouvi, parece-me não tanto sob a influência do pai, mas mais de Joe Henderson. Claro que Henderson era um discípulo de Trane, mas tinha um estilo muito pessoal. Em todo o caso Ravi Coltrane é um saxofonista sólido, com um som e estilo convincentes. Infelizmente, mais um concerto que vou falhar... não há tempo para tudo. E amanhã, no mesmo local, um dos fundadores do acid jazz, Roy Ayers. Um bom verão jazzístico, com mais novidades em breve!NA


2004-07-19
 
Basie!
Amanhã a Orquestra de Count Basie dirigida por Bill Hughes vem ao CCB. Eu já vi esta orquestra quando era dirigida por Frank Foster, e sem dúvida que mantém a concepção de Basie viva. Um bom concerto em perspectiva! Eu não vou...

Geralmente o CCB tem um público regular que vê todos os espectáculos, independentemente do seu tipo, pelo que a sala deve estar bem composta. Pena que esse público não seja respeitado nos concertos de Jazz. Como compreender que os concertos de jazz no CCB tenham sempre um som com uma ressonância absolutamente excessiva? Toda a clareza dos solos dos sopros é perdida. Até os pratos da bateria fazem echo. No centro da plateia o som é apenas suficiente. De lado e atrás é mediocre. E nos balcões é de mau a péssimo. Assim a sala que mais público trás aos concertos de jazz é a pior sala para os ouvir...
NA
2004-07-18
 
Jam Sessiom
E o Estoril Jazz 2004 fechou da melhor maneira com uma óptima jam session dirigida por Lewis Nash, com

Lew Soloff - trompete
Wycliffe Gordon– trombone
Vincent Herring – saxofone alto
Eric Alexander – saxofone tenor
Bill Cunliffe – piano
Peter Washington – contrabaixo
Lewis Nash – bateria

Nash escolheu o seu velho amigo Peter Washington e o excelente pianista mainstream Bill Cunliffe para a secção rítmica. Nash e Washington já gravaram juntos dezenas de vezes. São simplesmente a melhor equipa rítmica straight ahed dos dias de hoje. Nash tem uma batida regular mas cheia de drive, numa concepção baseada em Philly Joe Jones e Art Blakey, enquanto Washington tem um tempo imperturbavel e um som perfeito, na linha de Paul Chambers e Sam Jones. Ao seu lado Cunliffe alternou linhas evervescentes à Wynton Kelly com block chords à Red Garland. O resultado foi uma recriação com muita alma do estilo das secções rítmicas do Miles Davis clássico, com um entrosamento perfeito

Quanto aos sopros. há que destacar um solista exaltante, Wycliff Gordon. Os seus solos foram sempre electrizantes, quer quando adoptava um som mais clássico, quer quando optava por manipulacões multifónicas. O veterano Lwe Soloff foi uma revelação. Sollof, que normalmente anima a orquestra de Carla Bley, teve aqui
uma oportunidade de mostrar em extenso o seu estilo excêntrico e idiossincratico. Tem um som muito vocal e gosta de tocar no extremo, como o clássico Roy Eldrige ou o vanguardista Lester Bowie. Os saxofonistas portaram-se bem, Herring seguindo Charlie Parker e Cannobal Adderley, e Alexander dominando a liguagem do Coltrane clássico, da era Blue Train. Mas de facto não foram tão surpreendentes como os metais.

Em resumo, foi um concerto que recriou a estética do hardbop clássico, tocada por solistas de primeira linha, muito empenhados. No final o verdadeiro teste: enquanto os diletantes fugiam do vento gélido que tornou a presença no Parque de Palmela uma tortura, os fanáticos resistiam, e tiveram direito à devida recompensa: um Stompin' At The Savoy com Gordon e Soloff com surdinas.
NA

2004-07-17
 
Clayton-Hamilton Jazz Orchestra
A grande revelação do festival aconteceu no penúltimo dia, com a muito agradavel surpresa que foi a Clayton-Hamilton Jazz Orchestra (CHJO):

TROMPETES
Bijon Watson
Eugene Snooky Young
Clay Jenkins
Gilbert Castellanos
Sal Cracchiolo

TROMBONES
Ira Nepus
George Bohanon
Ryan Porter
Maurice Spears

SAXOFONES
Jeff Clayton - alto
Keith Fiddmont - alto
Rickey Woodard - tenor
Charles Owens - tenor
Lee Callet - baritono

SECÇÃO RITMICA
Tamir Hendelman - piano
Jim Hershman - guitarra
Christoph Luty - contrabaixo
Jeff Hamilton - bateria
John Clayton – contrabaixo e maestro

As big bands provocam uma reacção estranha ao público de jazz. Largos sectores consideram-nas demasiado convencionais - anacronismos de uma outra era que sobrevivem só para deliciar saudosistas. Preferem o Miles clássico, o hard bop da Blue Note, as fúrias Coltraneanas, a fusão dos anos 70, ou os sons planantes da ECM. Carla Bley ou Dave Holland são o seu ideal de grande orquestra. Já para os que sabem que o jazz nasceu antes de Charlie Parker, as big bands são uma paixão, e os seus concertos são rituais imperdiveis. Ver uma big band é como observar uma equipa de futebol, em que cada elemento tem a sua função na estratégia colectiva, mas a inspiração individual pode fazer toda a diferença.

Eu, claramente, afirmo-me como fã de big bands. Nos últimos anos, tive a sorte de ver concertos bons e muito bons por várias big bands: o primeiro concerto que vi ao vivo foi a orquestra de Count Basie dirigida por Frank Foster; George Grunz presentou na Culturgest uma orchestra recheada de grandes solistas; o mesmo palco viu uma performance enérgica da Vanguard Jazz Orchestra; a libertária Mingus Big Band teve um desempenho notável no Seixal; sobretudo, Carla Bley e Dave Holand fizeram grandes concertos, muito prejudicados pela execrável sonorização do CCB.

O que posso dizer do concerto a CHJO é que nunca tinha visto uma big band tocar com tal empenho e intensidade. A comunhão dos músicos com o seu director e arranjador, John Clayton, foi total. Dave Holland terá todo um arsenal de solistas de topo, e Carla Bley uma biblioteca de arrranjos originais superlativa. A despretenciosa orquestra dirigida por John Clayton (mesmo que o irmão Jeff Clayton e o amigo Jeff Hamilton sejam co-lideres, não há dúvida de que John é a alma da orquestra) não tem tais recursos, mas atinge o mesmo nível! A orquestra tem um som entre a simplicidade de Basie, que homenageia explicitamente nos excelentes blues, e a sofisticação à Thad Jones, utilizada nos tempos lentos. A banda só tem três solistas de primeiro plano: O próprio John Clayton, quando deside tocar contrabaixo, o baterista Jeff Hamilton, o melhor baterista de big bang dos nossos dias, e o tenor de Ricky Woodard, que evoca com gosto e paixão o som dos grandes clássicos. Mas todos os outros deram o máximo e foram muito bem usados. Um exemplo é o veterano Snooky Young, que aos 85 anos arrancou um grande solo em surdina no blues inicial. Porém a força desta equipa é o jogo colectivo, e é um jogo bem ofensivo. A elegante mas férrea direcção de John Clayton aliada a um empenhamento colectivo total levaram a CHJO ao mesmo nível da banda de Basie de 55-60!

O Marsalis ja eu sabia que ia ser bom... Agora estes, sim senhor, que revelação!
NA

2004-07-16
 
Soulbop banhada
No melhor pano cai a nódoa, e o Estoril Jazz 2004 teve a sua com o patético concerto da Soulbop Band



Randy Brecker – trompete
Bill Evans – saxophone tenor, soprano
Hyram Bullock – guitarra
Dave Kikoski – piano
Victor Bailey – contrabaixo
Steve Smith – bateria

Perante a nulidade da proposta musical, a única forma positiva de encarar este evento é como espectáculo circense. É impressionante como músicos que tocam tanto podem tocar tao mal. Randy Brecker foi, em tempos, um grande do hard-bop, com sólidas contribuições ao lado de Horace Silver. Ao lado do irmão, o conhecido saxofonista Michael Brecker, liderou uma banda de jazz-rock interessante. Ainda possui uma técnica sólida, um som poderoso, e toca linhas com classe, usando bem o espaço. Isto quando quer. Porque neste concerto tudo foi afogado sob efeitos electrónicos gratuitos. Indescritivel é o seu delírio como rapper: apresentando-se como Randroid, Brecker debita letras inanes numa voz de falsete.

Bill Evans (o saxofonista, sem relação com o conhecido pianista) já tocou grandes blues nas últimas bandas de Miles Davis. Ainda tem um belo som nessa linha, e muita técnica. Nao tem e' estética, como demonstrou na delicodoce balada à Kenny G. Apesar de tudo, como não destruiu o seu som com efeitos electrónicos, teve alguns momentos interessantes no tenor.

E o que faz um músico do nível de Dave Kikoski no meio disto? Masturbação musical! Os constantes esgares e a tez vermelha não deixavam dúvidas dos efeitos produzidos pela rápida agitação manual. Este pianista tem gravado uma série de discos em trio de grande classe para a Criss-Cross. Neste concerto reduziu-se ao exibicionismo. O baixista Victor Bailey segiu-lhe o exemplo, em solos rapidíssimos sem o mínimo vestígio de swing ou estrutura interna. O único instrumentista com uma postura séria em palco foi Steve Smith: um bom baterista... de rock.

Um destaque especial tem de ser dado a Hiram Bullock. Em tempos Bullock foi a pin-up do jazz-rock.



Após a menopausa submeteu-se a um tratamento de fertilidade que demonstrou ser possível um homem emprenhar.



No mínimo serão trigémeos. Os grunhos à Rambo seriam dores de parto? E a dança do ventre, seria exercicio contra as estrias? Protagonizou o momento alto da noite, ao deitar-se á beira do palco, alçar a perna, acariciar o braço da guitarra e agitar o pacote.
NA
2004-07-15
 
Branford Marsalis
E à terceira noite sucedeu o grande momento do festival, com o quarteto de Branford Marsalis



Branford Marsalis – saxofones tenor e soprano
Joey Calderazzo – piano
Eric Revis – contrabaixo
Jeff “tain” Watts – bateria

O concerto de Marsalis foi soberbo. Começou com um insinuante bolero no soprano, depois uma balada original com uma atmosfera à Wayne Shorter, e teve um momento esmagador com a interpretação de Gloomy Sunday, a balada de Billie Holiday. A partir daí o grupo partiu para uma performance intensa, com furias a la Mingus e momentos de free, sempre impulsionada por um espantoso Jeff Watts (o herdeiro de Elvin Jones e Tony Williams) na bateria. Momentos particularmente inspirados foram o agitadíssimo In The Creeze, em que o grupo tornou elástico um tempo impetuoso, e um swingante numero a la Monk. A não esquecer ainda o lirismo de Dinner For One, tocado de forma despojada, mas com um som magnífico, na linha de Don Byas.

A mestria de Marsalis vem da sua capacidade de absorver todos os modelos do passado, e destilá-los através de uma linguagem pessoal.
Mas nads disto seria possível sem o suporte de um grupo em estado de graça. A grupos como o Trio de Jarrett e o Quinteto de Holland, tem de se juntar este Quarteto. Quando Kenny Kirkland morreu, temi que este grupo desaparecesse. Depois, no Coliseu, vi que Marsalis tinha acertado na escolha de Calderazzo, muito inspirado em McCoy Tyner. Neste concerto Calderazzo atingiu um estilo pessoal, mais despojado e lírico, e confirmou estar à altura dos seus companheiros. O nível anterior do grupo foi superado.
NA
2004-07-14
 
Kenny Garrett
O segundo concerto foi dado pelo quarteto de Kenny Garrett



Kenny Garrett – saxofones alto, soprano
Vernell Brown - piano (e nao o anunciado Carlos McKinney)
Kris Funn - contrabaixo
Ronald Brunner – bateria

Garrett deu um grande espectáculo, nao perfeito, mas um espectáculo que agradou sem dúvida. A primeira hora teve Garrett agarrado ao saxofone alto, em constante diálogo/provocação com o seu jovem baterista. Desde o início da carreira, ao lado de Miles Davis, Garrett mostrou ser capaz de captar a essência coltraneana. Nesse aspecto é o continuador de Gary Bartz e Sonny Fortune, que também começaram com Miles e ainda hoje evocam Coltrane no saxofone alto. E também do muito esquecido James Spaulding, que deixou obra na Blue Note ao lado de Freddie Hubbard.

Mas Garrett tinha outra característica, que levou Miles a considerá-lo o melhor dos seus últimos saxofonistas: o seu som é impregnado de soul. Nos anos 50/60 Sonny Criss havia combinado uma concepção be-bop com uma sonoridade soul, que lembrava Johnny Hodges. Hoje é Garrett a pegar nessa herança, mas sobrepondo-lhe uma técnica coltraneana. O magnifico som de Garrett esteve em evidência no duo que tocou com o pianista.

Porém, após o duo, Garrett passou-se e decidiu fazer um rap. A voz ate funcionou bem, mas a coisa prolongou-se por demais, e com demasiados apelos ao público. Seguiu-se um final funky animado, mas bastante demagógico. Sem dúvida um músico que gosta de dar um bom espectáculo, mesmo que o gosto não seja perfeito.
NA

2004-07-13
 
Mark Shim
Este ano tudo começou com um tributo a Joe Henderson. Henderson foi, com Wayne Shorter, um dos dois gigantes do tenor a surgir na década de 60. Inspirado em Rollins e Coltrane, Henderson criou um som descrito como "metal embrulhado em veludo", a força coltraniana revestidas de um lirismo muito pessoal. Gravou uma série de obras primas para a Blue Note nos anos 60, mas só se tornou famoso nos anos 90. Faleceu em 2001.

Para esta homenagem foi convocado um trio liderado por Mark Shim



com
Mark Shim - saxofone tenor e soprano
Mark Helias – contrabaixo
Jonathan Blake - bateria

Shim escolheu uma série de composiçõe de, ou associadas a, Joe Henderson. O trio de Shim tocou com energia e empenho. Helias cumpriu o seu papel, mas a maior inspiração veio da interacção entre Shim e Blake. Shim exibiu um som caloroso, uma inspiração em Coltrane e Rollins que o coloca na linha de Henderson, mas com individualidade própria, um virtuosismo não gratuito.

No entanto ainda não é um mestre como Henderson! Um concerto em trio requer uma variedade de ambientes que compense a monotonia instrumental, e ao fim de certo tempo passou a haver algum cansaço da audiência. Mas o resultado foi claramente positivo!
NA

 
Um Interlúdio Jazzístico
Com dois posts publicados em três meses, este blog está em coma.
De facto nenhum de nós tem a disponibilidade, ou sequer o interesse, para manter uma escrita diária. Da minha parte, a necessidade de exprimir os meus pontos de vista em público tornou-se muito forte com o embuste iraquiano. As coisas aconteceram como se sabe, e por mim não há mais nada a dizer. E quanto há política interna, neste momento não tenho o mínimo estímulo em comentar. Já não há paciência...

Entretanto coisas mais interessantes fizeram-me voltar.
Na passada semana decorreu o Estoril Jazz, este ano com vários concertos de grande nivel. A esse respeito envolvi-me numa polémica em A Forma Do Jazz , a quem tenho de agradecer a provocação inspiradora. Como acabei por comentar vários concertos do festival, decidi transformar esses comentários em posts, e ressuscitar o "Estrangeiros" por uns dias. Vou dar o meu ponto de vista sobre os sucessivos concertos, e vou desabafar sobre os caminhos que os festivais de Jazz de Lisboa têm seguido.
NA


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