Estrangeiros no momento
2004-08-31
 
Tolices "on waves"

Existe uma frase espanhola:

"Dejarlo que se muera tonto!"

E Goethe disse:

"Todos os mais sábios de todos os tempos
Sorriem e acenam e concordam:
Insensato teimar na correcção dos tolos!
Filhos do bom senso, ó tomai os doidos
Mesmo por doidos também, como deve ser!"

E Kundera disse (o disse que alguém disse para ser-se exacto):

"Supõe que encontras um louco que te diz que é um peixe e que somos todos peixes. Vais discutir com ele? Vais-te despir à frente dele para lhe mostrares que não tens barbatanas? Vais-lhe dizer de caras o que pensas?"

E eu pergunto: E quando são demasiado numerosos os loucos, e te dizem que são, que somos, peixes diariamente, em cada esquina? Poderás continuar sem tirar-te a roupa? Poderás seguir sorrindo, e acenando e concordando sempre? Mesmo sabendo que os tontos morrerão tontos mas não sem antes conseguir que vivas como se fosses um peixe?

Que fazer? Escrever um post?
RF
2004-08-29
 
Michael Moore


Só agora vi finalmente o último filme de Michael Moore "Farenheit 9/11". Lembro-me quando vi o anterior "Bowling For Columbine" em Madrid, que todos se levantaram na sala ao final do filme aplaudindo, mais tarde ele ganharia o óscar. Como não vi os restantes documentais em concurso me pareceu aceitável que ganhasse o prêmio. O mais interessante do documental era o seu sentido de humor e a sensibilidade particular do autor a contar histórias e crear as situações que vai filmando em lugar de somente filmar situações. Sem ter visto o filme que o trouxe a ribalta "Roger & Me" sei que o mecanismo já estava aí, crear a situação e filmar-la para contar uma história que vai em paralelo e que é realmente aquela que se quer contar. Sem demasiadas subtilezas, mas com um minímo de inteligência e sensibilidade para que seja importante ver.
Com "Bowling for Columbie" a intelectualidade européia se divertiu com o seu discurso do Oscar, para depois e principalmente a propósito dos seus livros passar o tempo todo a dizer que "na verdade ele é de uma superficialidade enorme", que "é Noah Chomsky para criancinhas", que "não sabe escrever", que "é multimilionário", bla, bla, bla. Tudo coisas que ele é o primeiro a admitir sem que ninguém lhe pergunte...
Com este último filme que todos se fartam de dizer que já tem uma tese inicial prévia (como se houvesse outra maneira de ter uma tese...), etc, etc, ele me surpreendeu. O mecanismo mudou, e o sumo aumentou drásticamente. Pela primeira vez apareceu de um modo integrado, detalhado e amplo uma crítica voraz a esta administração americana. Michael Moore fez o trabalho que os jornalistas e a oposição do seu país (e não só!) não souberam fazer ou não quiseram fazer. Este filme merece mais um Oscar que o anterior digam o que disserem. Pelo menos Cannes e Tarantino souberam reconhecer-lo.
O filme tem momentos perfeitos que chegam a ser artísticos. A forma como ele apresenta a tragédia do 11 de Setembro talvez o mais impressionante neste aspecto. O que a intelectualidade europeia não soube aceitar (pelo menos grande parte dela...) foi a absoluta ausência de pedantismo que existe na maneira de Michael Moore expressar-se, a sua absoluta honestidade.
O homem é grande em todos os sentidos. Precisava dizer-lo.
RF
2004-08-27
 
Os dois lados da fronteira




João César Monteiro - Cineasta Português (foto de Olivier Roller)

Pedro Almodóvar Caballero - Cineasta Espanhol

A propósito de padres que nos regem, falemos de descomungados da península ibérica. Os dois acima indicados são em simultâneo os mais odiados pela elite eclesiástica de ambos os lados da fronteira e os melhores cienastas de Portugal e Espanha. Em minha opinião (e não só).
Um está morto o outro continua vivo, e com a cabeça a funcionar a cem, como prova o seu último filme "La mala educación", que se bem não seja dos meus preferidos pelo menos a nível de estrutura narrativa é um banho em águas puras da genialidade.
De um lado a preto e branco do outro a "colores". Tinha que ser assim.
Um é o contraponto do conservadorismo e da castração: é a perversão ela mesma. O outro é a superação da própria perversão, que descobre que realmente não o é, porque ignora o olhar conservador.
Um é antigo como o bem e o mal, o outro é futurista como a superação do bem e do mal. De um lado da fronteira a crítica ao conservadorismo se fez em contra deste e necessita deste para sobreviver, no outro se fez ignorando este conservadorismo. Um queria Europa num país que quase não o era mas tal como seu filho queria ser-lo, o outro desistiu de ser-lo tal como o seu país. De um lado o fado do outro o flamenco.
Eu sei que os esteoreotipos são estereotipos, mas também sei como eles que toda verdade disponível se esconde na caricatura.
RF
 
País Cão


Mulher Cão - Paula Rego
Notícia do El País de hoje:
"El barco del aborto de la organización holandesa Women on Waves viaja rumbo a Portugal. El buque ha conseguido ya lanzar el debate sobre el aborto en este país , que posee una de las leyes más restrictivas de Europa en esta materia.
El barco, que ha actuado también en Irlanda y Polonia, (...)"
Já tivemos aqui uma larga discussão sobre a liberalização do aborto, e a minha opinião ficou lá guardada. Continuo a pensar que é absolutamente abominável que a principios do século XXI países europeus como Portugal possuam um sistema legal que continua a limitar gravemente a liberdade da mulher com base em argumentos que em última análise são todos somente religiosos (friso que disse "somente religiosos"), e por isso, irracionais e bárbaros.
É curioso como Portugal que no meio urbano da sua capital, Lisboa, se considera como possuindo uma cultura moderna e aberta, já que sabem todos falar inglês e só ouvem música anglo-saxônica e só lêem autores estrangeiros é o mesmo Portugal da proibição do aborto. Alguém estará cego, e não vê que para todos os efeitos em aspectos muito importantes estamos é na companhia de países como Irlanda e Polônia, onde os padres são quem escrevem as leis que regem e controlam seus cidadãos. Para século XXI me parece triste.
RF
 
"Tu y tus socios"

Para que não pensem que só falo dos Estados Unidos, de Bush e de focas...
Mariano Rajoy, o homem que herdou a liderança do Partido Popular espanhol, demonstrando por quem fala atacou eventuais financiamentos do ensino de outras religiões além da católica nas escolas públicas espanholas pois, segundo ele, "son ajenas a nuestra cultura". Só faltou defender a pureza da raça...
Eu por principio acho que não só deveria estar proibido o ensino religioso em escolas públicas mas que deveria ser obrigatório o ensino do ateísmo... Mas de qualquer forma me parece que o que defende o "nosso amigo" é algo que como minímo vai contra a separação de poderes entre Estado e Igreja, mas como ele vai pelo que vai, ou seja, angariar o apoio eclesiástico nas lutas políticas que se adivinham no rescaldo das férias (legalização do matrimonio para casais do mesmo sexo, a desburocratização dos processos de divórcio, etc.), infelizmente vale tudo... para eles.
E gostava de frisar que muitas vezes que ouço falar mal do Bush e dos americanos por parte dos europeus, lembro que temos aqui na Europa a um Berlusconi que no minímo é várias vezes pior que o Bush e só não é mais perigoso porque foi eleito em Itália e não nos Estados Unidos.
Espanha é um exemplo interessante na Europa porque não sofreu como em Itália, Alemanha, Portugal ou mesmo França um período de demonização institucional da ditadura e do fascismo, será por isso que aqui passam coisas como essa e que o Aznar é tão amigo (dizem) do Bush. A verdade é que o homem conseguiu que lhe dessem um tacho numa Universidade americana vá-se lá saber a ganhar quanto.
Mas sem esquecer de falar do "sócio americano" (sim, é um trocadilho...) a última que li dele, e que rima com a do Rajoy, é a promessa de crear uma lei que proíba o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Por falar em rimas os deixo uma:

I was thinking of things that I hate to do
SEX WITH YOUR PARENTS
Things you do to me or I do to you, baby
SEX WITH YOUR PARENTS

Something fatter or uglier than Rush Rambo
Something more disgusting than Robert Dole
Something pink that climbs out of a hole
And there it was - SEX WITH YOUR PARENTS

I was getting so sick of this right wing republican shit
These ugly old man scared of young tit and dick
So I try to think of something that made me sick
And there it was - SEX WITH YOUR PARENTS

Now these old fucks can steal all they want
And they can go and pass laws saying you can't say what you want
And you can't look at this and you can't look at that
And you can't smoke this and you can't snort that
And me baby - I got statistics - I got stats
These people have been to bed with their parents

Now I know you're shocked but hang and have a brew
If you think about it for a minute you know that it's true
They're ashamed and repelled and they don't know what to do
They've had sex with their parents
When they looked into their lovers eyes they saw - mom
In the name of the family values we must ask whose family
In the name of the family values we must ask - Senator

It's has been reported that you have had
Illegal congress with your mother, - SEX WITH YOUR PARENTS
ah, Senator
An illegal congress by proxy is a
Pigeon by any other name, - SEX WITH YOUR PARENTS

Senators you polish a turd
Here in the big city we got a word
For those who would bed their beloved big bird
And make a mockery of our freedoms
Ah, without even using a condom
Without even saying "no"
By god we have a name for people like that
It's - hey motherfucker
(Sex with your parents - Lou Reed, Set the twilight reeling)
RF
 
Desejos Obscuros




Página de livro de escola primária da Alemanha nazi (Parkes Library, University Special Collections)

No estado de Arkansas, mais especificamente em St. Louis, existe uma escola pública cujo comitê directivo queria obrigar todos os seus professores a rezarem e participarem em orações cristãs durante as suas reuniões. O mais curioso é que nunca teria sido notícia não fosse o facto de um dos professores, um senhor chamado Warnock, professor de arte e motorista do autocarro escolar, ter interposto uma acção judicial que terminou por ganhar contra estas "interessantes" regras internas de sua escola. Imagino quantas escolas nos Estados Unidos não praticarão medidas semelhantes com o acordo ou passividade ou medo (sim, medo) de todos os seus professores, alunos e correspondentes pais.
O que me chamou a atenção nesta história é a forma como ainda hoje uma sociedade civil se organiza abertamente e em número não desprezível para contrariando o sistema legal que em teoria as protege, crear um ambiente mais ao seu gosto e que se aproxima dos que consideramos normalmente como déspotas. E o número de vezes demasido alto e em muitas situações extremamente graves nas quais isso acontece na sociedade americana. (Coincidentemente Bush acaba de passar a frente de Kerry nas últimas sondagens americanas, graças a uma propaganda que tenta denegrir a imagem do candidato democrata utilizando declarações suas do período em que lutou contra uma guerra tirana e errada, seguramente ao contrário do candidato republicano se bem que este tenha conseguido escapar a tomar parte da mesma...)
Por exemplo é muito cohecida a decisão do Estado de Kansas de retirar o ensino da teoria da evolução de Darwin dos curriculos escolares, e situações semelhantes se passaram em vários dos outros estados norte-americanos: Texas, California, Louisiana, Alabama, Mississippi, Nebraska e New Hampshire. Em alguns casos a "sutileza" era obrigar os prefessores de Biologia a apresentar as duas teorias em pé de igualdade.
Ao mesmo tempo é curioso ver um detalhe muito pequeno ou talvez nem tanto, mas que pelo menos para mim me passou inicialmente desapercebido ao ver pelas primeiras vezes o canal de notícias da direita conservadora norte-americana, Fox News. A imagem da empresa (cores, efeitos especiais, animações, etc) estão absolutamente inspiradas na bandeira nacional dos Estados Unidos. Alguém conhece algum exemplo semelhante na Europa em um canal de televisão privado? Eu não. Poderá parecer de menos importância para algumas pessoas, mas enganam-se, pois assim estão a definir gráficamente aquilo que depois se reflecte nos seus conteúdos cujo objectivo é o de fornencer aos seus tele-espectadores uma visão do mundo falseada com o propósito de enaltecer os sentimentos chauvinistas de parte da população daquele país. E comercialmente funciona, porque existe uma demanda de tal ordem por parte da população americana deste tipo de estímulos que torna a Fox News no canal de notícias mais visto dentro do país.
Este tipo de situações nunca chegam em geral a apresentar-se na Europa desde a Segunda Guerra porque seria facilmente identificada (e por isso desprezada) com os regimes tirânicos que provocaram e antecederam esta guerra neste continente. Seria esta a razão que nos imuniza em grande parte contra este tipo de histerias nacionalistas? É provável.
Neste caso é de reconhecer-se a inteligência da classe política norte-americana que estimula e tira proveito dos intintos fascistas da sua população sem nunca ultrapassar a linha que poderia levar a um conflicto cujo desenlace resultasse em contra dos seus interesses. Desta forma a democracia americana absorve o potencial anti-democrático da sua plebe, controlando-o mas ao mesmo tempo pelo menos em parte tiranizando-se e por isso tornando-se menos democrática.
Creio não me enganar que Warnock não tinha muitos amigos no trabalho nem na sua cidade em geral, e perdeu alguns ao decidir sózinho enfrentar-se aos desejos obscuros dos que o rodeiam. Um abraço desde a velha Europa para este lutador da nova América na sua luta contra tiques que conhecemos de uma ainda mais velha Europa que não queremos que volte com roupa nova.
RF
 
As novas focas (Fox News)

El Comun Denominador - Luis Delgado


Lei 1 - As novas focas se apresentam sempre pelo seu nome, como se fosse o nome de um grande artista como o nosso amigo Luis Delgado que encontrei naufragando pela net (e que não faço a miníma idéia quem é...). Com uma obra reconhecida por detrás que avala a quem ouve o seu nome que vale a pena esperar para ouvir notícias do mundo desde um prisma único que, está claro, é o dos seus apresentadores.
Lei 2 - É normal ouvires um apresentador a dizer para um corresponsal num país estrangeiro que ele não percebe nada daquilo de que está a falar, provávelmente porque ele não é ainda uma foca suficientemente nova, ou suficientemente foca. Uma foca nova, uma foca hiperbórea, sabe que um homem chamado George W. Bush (junior) tem sempre razão e não se lhe passa pela cabeça apresentar uma opinião contrária ao seu presidente sem fazer um comentário espirituoso que humilhe essa mesma opinião.
Lei 3 - Uma foca nova se por acaso decide querer parecer liberal (liberal "a la" americana, que significa centro direita na língua das outras espécies não focas) dirá que o seu liberalismo é o de Robert Kennedy (um defensor da liberdade amigo de Edgar Hoover, este mártir...) e não do tipo socializóide de um Michael Moore, e todos estes defensores de coisas tão abomináveis como a liberalização do aborto, casamentos entre pessoas do mesmo sexo... urghhhh... uma foca nova só de pensar nisso deve soltar o seu "urghhhh" imediatamente.
Lei 4 - Uma foca nova se ri sempre, porque o estilo de vida do povo americano não permite seriedades, não vá alguma crise espitritual espreitar na porta. "Estamos em guerra? Não se preocupem, o nosso presidente serve um perú e a gente se rí de tudo isso com ele, o nosso comandante."
Lei 5 - Uma foca nova entrevistará sem pruridos a uma actriz porno cuja especialidade é o sexo anal, desde que ela não diga que é essa a sua especialidade "on the air" nem fale de política. Não se quererá que ela defenda os nossos inimigos mas também tão pouco que nos defenda a nós e os nossos amigos, já que, "in the name of God", ela é uma actriz porno cuja especialidade é o sexo anal. Mas nunca se deverá entrevistar a estes actorzecos de Hollywood que gastam o seu tempo em actividades anti-americanas.
Parafreseando um senhor norte-americano que não é foca: "there are no stars on the Fox News sky, they are all on the ground". Ou no ecrã...?
RF
2004-08-08
 
Votos parao futuro
O Jazz em Agosto é para mim quase uma causa perdida.
Ainda assim aí vão alguns desejos para o futuro. Tragam os genuinos pioneiros
Ornette Coleman e Cecil Taylor, a preços moderados, que só assim se vai lá!
Tragam os bons músicos de jazz da AACM, o Art
Emsemble of Chicago e Muhal Richard Abrams. Tragam músicos de fora da AACM,
os grandes pioneiros dos anos 60 como Archie Shepp, Pharoah Sanders, Dewey
Redman, ou até Charles Lloyd ou Sam Rivers que já por cá estiveram recentemente
no Estoril e Seixal.

A verdade é que não se compreende que a Gulbenkian, a maior fundação
portuguesa, reduza o jazz a uma semana por ano, em que ainda por cima não
há jazz a sério! Para quando uma temporada regular de concertos, um por mês ou
um de dois em dois meses? Porque não fazer três ou quatro dias com concertos
mais mainstream antes do Jazz em Agosto. Ou porque não apoiar o Seixal,
permitindo que este festival volte a ser anual? Enfim, talvez um dia
valha a pena voltar à Gulbenkian...
NA

 
O protagonista
O outro pilar da AACM que ainda não veio à Gulbenkian é Muhal Richard Abrams.
Este rigoroso lider de orquestra é uma referência indispensável. Não estaria
disponível? Não o sei, mas talvez para compensar este ano veio o seu discípulo
George Lewis. Ora Lewis será um músico interessante e criativo, mas não é um
nome apelativo. Quem já gosta ficará contente, quem não conhece não será
atraido.

A entrevista que deu ao Expresso mostra uma personalidade acessivel, longe dos
delírios de Taylor ou Braxton, mas de perfil decididamente académico. Considera
os escritos de Braxton difíceis, mas dá-lhes crédito... para quando os fãs da
creative music desistirão dos delírios de Braxton? A certa altura declara
que a sua música não é swing. Parece-me que ele quer dizer que não é o swing
da época clássica, mas ainda assim é uma declaração bizarra porque o swing é
muito mais do que esta definição estreita. É toda uma atitude em relação ao
tempo. Elvin Jones, um baterista que não mantia um tempo regular, swingava
intensamente. E George Lewis, swinga?A sua posição torna-se
clara quando aborda a experiência na orquestra de Count Basie. Lewis acha
que já nada de criativo pode ser feito nessa linha. Claramente devia ouvir a
Clayton-Hamilton Orchestra... Em todo o caso, devo dizer que Lewis me deixou
curioso!
NA

 
O Bom ...
Já a suite da AACM está ocupada por músicos de valor indiscutível, agrupados
no Art Ensemble of Chicago. Também são grandiloquentes quando reclamam a
heraça da Great Black Music. Porém essa herança levou-os a manterem sempre o
swing, os blues, e, sobretudo, a espiritualidade. O AEC é genuinamente
inspirado pelo misticismo primitivo, como mostram as suas evocaçoes tribais!

Depois, nunca se levaram demasiado a sério. A presença de Lester Bowie
assegurava isso. Bowie foi uma das maiores assinaturas sonoras do trompete
jazz. O seu som vocal, belo, cheio de humor, é inesquecível. Uma perda
irreparável. Felizente o Seixal, um festival de jazz a sério, já há anos
deu-nos o AEC com Lester Bowie ainda vivo. Mas o músculo de Roscoe Mitchell e
a musicalidade dos seus companheiros valem por si. Porque ainda terão vindo à
Gulbenkian?
NA

 
O Mau...
Na verdade a AACM tem tanto de om como de mau. E uma espécie de abrigo
espanhol. Num quarto está Anthony Braxton, representante do lado mais estéril
da música improvisada. Braxton rejeita explicitamente pilares fundamentais do
jazz como o swing, o blues e o gospel, mantém só a ideia de improvisação.
Ora o jazz não é só improvisação cerebral.

Braxton também é uma personalidade que representa o pior academismo. Os seus
temas com títulos pomposos, representados por esquemas. Os seus escritos
grandiloquentes. As suas divagações filosóficas. Como classificar uma obra
tão pretensiosa como Tri-Axium Writings? Braxton é uma fraude intelectual
como os pós-modernistas franceses, parodiados por Alan Sokal.
Não por acaso diz ser influenciado pela física de partículas e pelo misticismo
primitivo... e apesear de tais vacuidades é a referência para todo o mundo
académico da música improvisada.

Ora a referência teria de ser Cecil Taylor. Toda a concepção musical de
Braxton, a ideia de "pulse music", foi clonade de Taylor. Também as tendências
pseudofilosóficas foram copiadas de Taylor. Mas Taylor foi um genuino
pioneiro, que criou a sua estética, e o total empenho físico do seu desempenho
elevam-no acima dos seus defeitos. Paradoxalmente Taylor beneficiou de ter
poucas oportunidadesdes gravar no inicio da carreira. Isso levou-o a
aproveitar ao máximo essas oportunidades, sem a dispersão que surge quando
todos os concertos são gravados e editados. O Taylor de hoje não e ó meu
músico preferido, mas ainda assim seria alguém que eu gostaria de ver na
Gulbenkian, a um preço em conta!
NA

 
Improvisações em Agosto
Por mais que eu lamentasse a direcção estética da Gulbenkian, a edição do
festival de 2000 foi histórica. Foi o maior evento de música improvisada na
Europa, e um dos melhores do mundo. Ficou desde logo clara a matriz do
festival, entre a escola de Chicago da AACM (Association for the Advancemant
of Creative Music) mais académica e a música improvisada europeia de índole
similar. Nesse ano vieram os melhores e os piores: Leroy Jenkins e o histórico
Joseph Jarman. O detestável Anthony Braxton. O creativo Misha Mengelberg e o
seu dispensavel parceiro Han Benninck. Os estimulantes Ray Anderson e Gary
Valente desperdiçados num quarteto de trombones. O excelente Ellery Eskelin e
o gratuito Peter Brotzmann. a estrela Ken Vandermark,
Hugh Rangin, Graham Haynes, e muitos outros...

Infelizmente este gigantismo era insustentável
Ainda assim o festival de 2001 teve os excelentes
Roswell Rudd e John Tchicai, representantes do free jazz libertário dos anos
60, muito longe do estéril academismo da linha Braxton. Também veio o
histórico Henry Threadgill. Em 2002 o melhor lado da escola de Chicago
deu-nos Fred Anderson acompanhado por Hamid Drake. Em 2003 o destaque foi
para outro histórico, Julius Hemphill.

E chegamos a 2004. Este ano podiam ter variado. Podiam ter aproveitado a vinda
do prolífico David Murray, que este ano veio a Sines com Pharoah Sanders!
Como seria bom ter em Lisboa esta torre do free mais espiritual, um músico
com verdadeira alma, tão longe da esterelidade e frieza da música improvisada.
Mas era certo outra dose de AACM...
NA

 
Jazz em Agosto
Terminou hoje o Jazz em Agosto, o festival de jazz da Gulbenkian que decorreu
ao longo de toda a última semana. Para mim foi uma semana ocupada com todos
aqueles assuntos que só o tempo livre do verão nos permite resolver. Desde
ontem fora de Lisboa, este é mais um ano em que passei ao lado deste festival.
Mas já houve tempos em que as férias eram adiadas para ir aos concertos na
Gulbenkian, e o entusiasmo era tão grande como o do
Catarino.

O Jazz em Agosto nasceu como um festival de jazz centrado nas correntes mais
radicais da música improvisada, muitas vezes na fronteira do jazz. Mas a meio
dos anos 90 passou a alargar o seu campo da acção ao núcleo duro do jazz.
Nesses anos dourados era possível assistir em Lisboa a três festivais de
grande nível: o jazz mainstream aparecia no Estoril no fim de Junho, seguia-se
a Gulbenkian no início de Agosto, e em Outubro vinha o refrescante Seixal
Jazz, que nos trazia um jazz moderno e sem concessões, de vanguarda mas
ancorado na tradição.

Nesses anos ficaram claramente visíveis as condições superiores oferecidas
pela Gulbenkian. A localizaçao ímpar, tornando o acesso por transporte público
ideal, dispensando deslocações por automóvel. O magnífico cenário dos jardins
da fundação. A transparência do som no anfiteatro ao ar livre, que nenhuma
sala de Lisboa consegue atingir, e que perdoava o ruído dos aviões e do vento.
E sobretudo o apoio financeiro da Gulbenkian, que permitia assistir a concertos
de primeira linha por preços módicos. Recordo-me de ali ter visto três dos
bateristas fundamentais, Max Roach, Roy Haynes e Elvin Jones, a dois dos
grupos mais importantes do jazz de hoje, o Quarteto de Branford Marsalis e o
Quinteto de Dave Holland, e muitos outros...

Em 2000 a Gulbenkian entendeu que já havia uma oferta muito alargada em
Lisboa, e decidiu fazer regressar o festival às origens. Má hora... o jazz
perdeu o melhor festival, nenhum outro tem a capacidade financeira de manter
ano após ano tal consistência. Pouco depois o Seixal teve de passar a festival
bienal...
NA


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