Estrangeiros no momento
2004-09-21
 
Bandeiras

No Barnabé soubemos isso.
É óbvio que a história é desgraçada, desgraçada para Portugal. Cheira mal e não é a queimado. Mas deveríamos dar o devido crédito de tirania a outras partes da questão que então se manifestava. Não a quem queimou a bandeira por queimar-la. Queimar bandeiras e uniformes é uma representação pública contra qualquer tirania.
Mas e as touradas? E o desejo de impor-se a comunidades que celebram touradas para que deixem de fazer-lo? Quanta tirania existe neste desejo? E mais ainda no vegetarianismo militante que condena aos demais o seu apreço pela carne? E como fazem concordar os militantes anti-touradas esta sua militância com o apoio que grande parte deles (principalmente na esquerda portuguesa, dita radical) dá a liberalização do aborto? Quão frágeis serão eventualmente os subtis argumentos que se utilizem para obter esta concordância? Quantos problemas são sacrificados por estas pessoas na eleição do conjunto de manifestações possíveis ao empreender tanto esforço nesta batalha em contra das touradas? Quanta tirania quer o espírito humano para que este vão desejo de mandar se possa esconder subrepticiamente em qualquer parte?
Penso agora na questão da proibição do véu em França outro exemplo, muito mais grave, de como desejos aparentemente liberais e que dizem querer lutar contra determinados preconceitos, escondem mais preconceito e autoritarismo que aquilo contra qual lutam. Finalmente penso em Kundera de "A Arte do Romance" a propósito de símbolos:
O homem é uma criança perdida - para citar novamente o poema de Baudelaire - nas <<florestas de símbolos>>.
(O critério da maturidade: a capacidade de resisitir aos símbolos. Mas a humanidade está cada vez mais jovem.)

E finalmente, para compensar em tom jovial, como se queima uma bandeira em um blog?
RF
2004-09-19
 
"O copo não está meio vazio, está totalmente vazio." (Woody Allen)

A propósito das recentes declaraçãos de Agualusa sobre Saramago resolvo falar do encontro entre Almodovar e Woody Allen na entrega de um prêmio para toda a carreira ao segundo, das mãos do primeiro em San Sebastián. Não vou falar das declarações do Agualusa. Não vou dizer que acho que um individúo tem todo o direito de dizer que outro é velho e aborrecedor e nihilista e que escreve mal. Mesmo quando o velho na verdade escreve muito bem, na linha directa de Padre Antonio Vieira, que é como quem diz, sem perder tempo com a "arraia miúda" do caminho. Mesmo quando eu acho que o velho realmente é aborrecedor e um pouco nihilista, e que a sua obra não faz parte de nenhuma maneira dos livros que levaria para uma ilha deserta, mesmo porque para uma ilha deserta se leva revistas de mulheres peladas e não romances. Não vou falar que um senhor, mesmo que seja ele um senhor qualquer, tem todo o direito de dar uma cuspidela inconsciente, ou não, na literatura portuguesa. Porque falar mal de Saramago, sem falar bem do muito que há de bom no Saramago, é cuspir na língua. Mas tem todo o direito. Tem todo o direito de dizer besteira, como também tinha de dizer coisas inteligentes mesmo que eventualmente não o tenha feito. Tem todo o direito. Tem. Tem também de dizer que Saramago é complicado, pois para algumas pessoas isso de ler é complicado. Tem todo o direito.

Agora que não falei do Agualusa. Vou falar que Woody Allen quando lhe entregaram o prêmio disse que para ele "A vida ou é trágica ou é extremadamente trágica." e que " A vida é basicamente triste." e que "O copo não está meio vazio, está totalmente vazio." Woody Allen que, pelos vistos, se poderá dizer que é um nihilista, recebeu o prêmio das mãos de um dos realizadores mais vitalistas de toda a história do cinema: Almodovar. Almodovar parece que decidiu não dizer que Woody Allen era um velho nihilista que fazia cinema complicado de ver, em vez disso fez uma comparação maravilhosa entre "Superman" e o realizador de "Manhattan": "Eu conheci Nova Yorque atraves de Superman e King Kong, mas isso era o céu de Nova Yorque; as ruas, as esquinas, os balcões dos edificios, me foram mostrados por Woody Allen. Em minha primeira viagem a cidade pude comprovar que nem ele nem Superman me haviam enganado." Depois disse: "Woody Allen é um dos poucos gênios que nos sobram. São poucos os que acumulam tantas obras primas. É portentoso." Woody Allen respondeu: "Almodovar é um cineasta maravilhoso. Deveria ser eu a dar-lhe este premio!" Assim de singelo o encontro entre Almodovar e Woody Allen.

Woody Allen também disse que apesar de a vida ser basicamente triste "ainda existem pequenas ilhas de comicidade". Como a ilha de comicidade nas tristes declarações de Agualusa quando ele diz que Saramago escreve demasiado complicado, por isso, para ele o maior autor português vivo é Antonio Lobo Antunes...
RF
2004-09-16
 
O Darwinismo Social



"The progress of evolution from President Washington to President Grant is alone evidence enough to upset Darwin." --Henry Adams
Se o Henry (e o Darwin...) soubessem como as coisas com o tempo foram piorando...
RF
2004-09-15
 
Para perceber as diferenças

As diferenças aparecem sempre nos mais pequenos detalhes.
Steven Spielberg comentando realizadores espanhois referiu a sua grande admiração pelo cinema de Carlos Saura e o gosto que tem pelos filmes de Almenábar. Sem ter nada contra Almenábar, a verdade é que a sua competência (ainda não vi o seu último filme "mar adentro" que parece pelo menos na história em que se inspira mais pretensioso que os anteriores...) não enche o espaço que deveria ser ocupado por outro nome. Nome este que eventualmente soará demasiado pervertido aos ouvidos e olhos sensíveis do realizador de "Jurassic Park", que óbviamente não são os mesmos que os de Scorcese...
RF
 
Pedro Almodovar filmou já nos EUA em 1985


Se chama "After Hours" e Scorcese a filmou em 1985, e no total da sua cinematografia figurará mais como um divertimento que como parte coerente da sua obra mais pessoal. Realmente se vê que o filme é acima de tudo uma experiência de Scorcese por terrenos de um tipo de comédia negra que ele realiza sem suficiente convicção mas com prazer.
Já a vi duas vezes, e o principal prazer que tenho é reconhecer aquele que provavelmente teve Scorcese ao filmar-la, piscar olhos para um cinema de um autor que estava começando a filmar em Espanha. Falo de Almodovar, claro.
O argumento original era "A night in Soho", escrito por Joseph Minion, um estudante de 26 anos na altura, e bem visto é apenas uma estranha comédia negra que estava inclusive um pouco fora dos parâmetros hollywoodescos dos anos 80, e seria mais facilmente aproveitada uma decada antes. Mas imagino que Scorcese viu naquele argumento uma oportunidade de fazer "algo parecido" com o que eventualmente viu em um par de filmes do realizador espanhol. Provavelmente naquele momento de sua vida, depois do fracasso do "New York, New York" e de "O Rei da Comédia", o realizador italo-americano tivesse inveja do prazer pessoal de filmar que Almodovar parece transpirar nos seus filmes.
O filme em geral foge do estilo do seu autor na maior parte das suas obras, pela mise en scene aperentemente mais despreocupada, pelos movimentos de câmaras muito menos preparados que o habitual em Scorcese, pela fotografia situada algures naquele meio termo inlocalizável entre o neorealismo e a plasticidade da telenovela, que Scorcese foi roubar directamente na fonte de Almodovar, Fassbinder, ao contratar Michael Ballhaus que já havia trabalhado com o realizador alemão. Scorcese cinéfilo de pura sepa transformava assim ele mesmo em estilo o que o realizador espanhol estava fazendo em grande parte devido a sua inexperiência técnica dos primeiros filmes. A cena em que Scorcese como em todos os seus filmes aparece, é reveladora, ao apresentar-se como o individúo que move manualmente e de modo aleatório o foco de luz numa discoteca punk de Soho sobre os seres que nela temporalmente vivem em delirium tremens.
Uma das cenas iniciais de diálogo sobre "uma arte que cospe nela mesma" é reveladora de por onde as coisas vão neste filme. A piscadela de olho sem sutilezas a literatura (um dos "Tropicos" de Henry Miller), também é tipicamente almodovariana. A representação de Rosanne Arquete que parece mimetizar ou anglosaxizar a representação de Veronica Forqué de "Que fiz eu para merecer isto?", que Almodovar havia acabado de estrear. Um titulo aliás que também poderia ser perfeitamente indicado para o argumento de After Hours.
Logo em seguida na viagem alucinante que levará o personagem a Soho e a seu pesadelo de uma só noite, o taxista corredor de Formula 1 frustrado ouve flamenco... Em seguida todo o ambiente do filme, as drogas, o sexo, nos remite no conteúdo e na forma de apresentar-los a movida madrilenha tal como aparecia por exemplo no primeiro filme de Almodovar "Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón" (onde mais que cuspir Almodovar urinou na arte...). Fica inclusive a dúvida se aquele ambiente que Scorcese apresenta como sendo o de Soho realmente existia, ou é apenas a relocalização possível do ambiente de Madrid dos anos 80, onde bairrismo tradicional, vanguarda artistica, libertinagem e cultura adolescente suicida cozinhavam ferozmente em panela de pressão.
O relato de uma suposta violação pelo próprio namorado de 6 horas de duração contado pelo personagem de Roquette é também tipicamente Almodovar.
No final tal como no inicio Scorcese nos põe música clássica, passa das "despreocupação ao filmar" a travellings de camara tipicamente scorcesianos como que nos dizendo que a noite almodovar já acabou. "Foi bom enquanto durou, mas era outro, que eu não sou assim..."
Como Scorcese não é reservado em relação a suas piscadelas de olho cinefilas seria bom que um dia soubesse/soubessemos da boca dele que Almodovar passou por ele também a meio dos anos 80.
RF
2004-09-14
 
A droga mais dura


Que a religião e o nacionalismo são as mentiras fundamentais com que todos somos educados desde pequenos de uma maneira ou de outra é inegável. Corrijo, no caso da religião já existe uma vasta minoria para a qual isto não se aplica. São numerosos os casos de países onde o ateísmo é maioritário (países nórdicos de Europa), se não quase totalitário (falo de China, Cuba, etc) e na vasta maioria dos países ocidentais democráticos o ateísmo é algo perfeitamente usual. O que já nos leva onde quero chegar. A mentira fundamental será então o nacionalismo.
Todas as sociedades se organizam em torno desta mentira, educam seus cidadãos nesta mentira, e nela e de acordo com ela lhes obrigam a viver. Pelo menos nos países ocidentais muito antes de dizer-se a um miúdo que ele é católico ou protestante (ou ateu...) se lhe diz que ele é português, espanhol, holandês, americano, etc. É a mentira estrutural mundial. Talvez para a maior parte dos países ditos muçulmanos isto não seja assim, e se diga a um miúdo que ele é muçulmano antes de dizer-lhe que ele é saudita, por exemplo. E talvez esta é precisamente a chave para perceber o conceito de pan-arabismo que existe nos países muçulmanos.
O comunismo sabia isso e por isso insistia fortemente numa idéia internacionalista da sua mensagem. Mas enganou-se ao posicionar a religião como mentira fundamental em lugar do nacionalismo. Ou então o fez consciente ao saber que uma batalha era mais fácil que a outra, sabendo do cáracter estruturante que a mentira nacionalista possui na organização das sociedades em geral.
(O importante da mentira que também é a Europa comunitária, é que querendo substituir, ou roubar protagonismo ás mentiras nacionalistas locais com uma nova mentira mais global poderá demonstrar ao mundo em geral de uma maneira mais imediata a falsidade em que se baseiam as suas sociedades. Ou talvez não o consiga... mas esperamos que sim.)
Voltando aos países muçulmanos. Não será o Islão, e principalmente a radicalização que no seu interior evolui durante o século XX, a vía de escape e ao mesmo tempo a sacralização da afirmação de uma identidade nacional-cultural árabe em geral que, ao mesmo tempo, funciona de estímulo ao combate independentista das suas partes contra potencias colonizadoras locais? Se for assim, a chave de entendimento do problema terrorista islâmico para os ocidentais se torna muito mais fácil. Porque a mentira pela qual eles lutam é exactamente a mesma que aquela em que todos os dias a quase totalidade dos ocidentais se move. Uns põem bandeirinhas verdes e vermelhas de ponta cabeça nas janelas dos seus apartamentos dormitórios decadentes, outros põem bombas em autocarros. É completamente diferente, eu sei. Mas também sei que a mentira é completamente a mesma.
É curioso que o judaísmo surge como a religião de um "povo eleito", quase admitindo que antes do seu Deus existia uma mentira mais divina e fundamental. O cristianismo é mais tarde a religião para um império, o romano. Um império que se desfazia pouco a pouco, e para o qual deveria existir uma religião coerente com várias mentiras. Uma religião universalista. Tempos novos exigem mentiras novas. O Islão surge pouco depois como a mentira para um império que não é mas quer ser, e terminou sendo.
Marx se enganou, existia uma droga muito mais dura que a religião.
RF
2004-09-13
 
The Horror, the horror...



O General Kurtz na penumbra conta a Willard sobre um dia em que vacinaram as crianças de uma aldeia com a vacina da polio, mais tarde encontraram uma pilha de braços pequeninos das crianças que haviam vacinado. Os vietcongs deixavam de aviso para todos os vietnamitas de que não deviam receber nenhuma espécie de ajuda dos americanos. O General Kurtz se perguntava enlouquecido como vencer esse inimigo, um inimigo com tal dureza. E depois dizia a Willard: "Somebody must describe the horror for those that dont know it. The horror, the horror... Go, and tell of the horror, remember the heart of darkness."
A foto acima conta sobre o horror visto do outro lado (porque falamos do outro lado, quando o lado é só um...). Bombas de napalm que queimavam vivas crianças de aldeias inteiras, desfigurando seus corpos, quando não os destruiam.
De um lado se exigia apenas saber apertar o botão, do outro a dureza de saber usar facas e machados. De um lado o horror se prepara hidrofilizado e aparece adicionando água, do outro nasce brutalmente do que mais escuro existe no coração humano.
Vários se terão lembrado, como eu, das palavras finais de Marlon Brando em Apocalypse Now depois do que se passou em Beslan...
"Remember the heart of darkness."
RF
2004-09-12
 
De qualquer forma...

"Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção,
está provado que só é possível filosofar em alemão!"
(Língua, Caetano Veloso)
Já agora, se pelo menos houvesse um Caetano em Arábia Saudita...
RF
 
Falta Nietzsche...


Falta um Nietzsche para o mundo islâmico. Quando algum Mohamed escreverá o seu "AntiMohamed"? Quando haverá um outro "Humano, Demasiado Humano" escrito na cidade de Meca?
Eventualmente falta muito, muito tempo para isto... Porque antes de Nietzshe foi preciso que houvesse existido a história do romance europeu, da qual Nietzsche é provavelmente o filósofo mais herdeiro de todos os filósofos. E mais, a história do romance europeu que se lhe segue a Nietzsche, haverá herdado mais Nietzsche que todos os " pensadores pós-modernos" deste mundo e do outro...
Haverá eventualmente mais Nietzsche em Thomas Mann, Robert Musil, Gombrowicz ou Kundera que em dezenas de Heideggers. Assim que antes de dizermos que "Falta um Nietzsche árabe.", não deveríamos talvez dizer que "Falta antes de mais nada, um Dostoievski muçulmano."?
E para todos os supostos herdeiros ocidentais de Nietzsche faltaria dizer que antes de mais aprendessem, com seu suposto mestre, a arte da clareza e da honestidade intelectual. E a todos os detractores de Nietzsche, dizer que realmente foi Heidegger o filósofo do nazismo. E por fim para polemizar estérilmente, referindo polémicas estéreis do passado, lembrar a um senhor chamado Espada que Popper faz parte juntamente com Nietzsche, dos escritores mais claros do pensamento alemão. E que sempre foi muito mais fácil ler Popper apoiar-se no pensamento de Nietzsche (nomeadamente na sua crítica a Wagner) do que criticar-lo. Mas não será que os "Espadas" deste mundo estão para Popper como Heidegger para Nietzsche?
RF
 
Da inteligência do cristianismo


Li isto em "Humano, Demasiado Humano" de F. Nietzsche. Na minha opinião um dos livros mais importantes alguma vez publicados. Uma pérola que parece querer dizer em quase todos seus paragráfos que todos os iluministas e filósofos depois de Cristo existiram para fazer-lo possível. O que me veio a cabeça, imediatamente, foram todos os "Padrinhos" de Coppola, todos os Scorceses, o "Funeral" de Ferrara... Este alemão de finais do século XIX explicava (antes mesmo que existisse) a máfia siciliana e italo-americana com um minímo de palavras...

"É um truque do cristianismo pregar tão alto a complexa indignidade, propensão para o pecado e baixeza do homem em geral, que, assim, o desprezo dos outros homens já não é possível. <<Ele pode pecar quanto quiser, nem por isso se distingue essencialmente de mim: sou eu, que, de qualquer maneira, sou indigno e desprezível>>, é o que o cristão diz a si próprio. Mas também ste sentimento perdeu o seu espinho mais aguçado, porque o cristão não crê na sua vileza individual: ele é mau como o homem em geral e tranquiliza-se um pouco com a máxima: <<Todos nós somos do mesmo género.>>"
(Humano, Demasiado Humano; F. Nietzsche; tradução de Paulo Osório de Castro;Relógio D'Água, Outubro de 1997)
RF
2004-09-09
 
Olá Ana!
Um virús em forma de comentário a post em blogs portugueses diversos finalmente nos visitou no último post.
Imagino que eventualmente a pobre Ana Albergaria (ver Crónicas Matinais), cujo nome aparece no comentário, não tenha nenhuma culpa nesta infecção geral. De qualquer forma um pouco de investigação me levou a descobrir o seu site. Como ela aparece muito preocupada com um antisemitismo crescente, e para que não haja dúvidas sobre o conteúdo deste blog, vou escrever este post, com o risco de dar uma razão que não merece ao comentário do post anterior que lhe inspira.
Antes de continuar digo desde já que o que se segue são verdades óbvias e banais, nada de original, mas sempre verdade.

A cultura judaica, ou seja, a cultura que acompanha em geral aqueles que professam a religião judaica (recuso-me a utilizar a palavra hebreu... que lembrando Primo Levi é racista desde o Holocausto) é sem sombras de dúvidas das culturas mais fundamentais para a humanidade, quer por si mesma quer pelo que potencialmente gerou na forma de culturas subsequentes. O cristianismo e a cultura ocidental europeia deve metade de tudo aos judeus. O Islamismo, e a cultura muçulmana como tal, também.
Assim que é talvez o único caso juntamente com os gregos talvez, de um povo relativamente pequeno que tenha sido tão importante para a história da humanidade.

A base mental do judaísmo, com o seu profundo ênfase na leitura mais que na memorização descerebrada de textos religiosos difere absolutamente das outras religiões do Livro, e terá sido provavelmente fundamental para a história do pensamento ateu europeu moderno. A influência fundamental gigantesca que grandes judeus tiveram em quase todas as áreas "mais nobres" da actividade humana é absolutamente desproporcionada em comparação com a sua representação numérica e sugere claramente uma superioridade intelectual da vida cultural média dos seus representates em comparação com outras culturas.

Bastaria dizer que para século XX homens como Einstein, Freud ou Kafka dão já uma visão superficial do quanto toda a humanidade deve a essa cultura.

Agora vem Israel. Israel foi um projecto dúbio nos seus principios: inventar um país num territorio alheio. Mas isto é passado e Israel está aí há já suficiente tempo para ter toda a razão de seguir estando como todos os países da zona. No entanto a sua política de conquista de novos territórios, de desrespeito pelos direitos dos residentes palestinos, foi e é de tal modo brutal que representa uma traição essencial ao espírito cosmopolita e humanista das antigas populações judaicas. E não são aceitáveis desculpas ou justificações com base no Holocausto, se bem que de um ponto de vista histórico possam existir explicações deste tipo. E tão pouco vale contar a história sempre desde o ponto que se quer, desde o último atentado palestino, em vez de começar pelos ataques brutais do exército israelita que o antecederam ou sucedem.

O conflito israel-palestino é demasiado fundamental, e o facto de a chave do conflito estar nas mãos de Israel que detém todo o poder relativo é demasiado óbvio, para justificar que esta questão tenha o ênfase que tem, e que não é portanto gerado por qualquer forma de antisemitismo.
RF
2004-09-08
 
Um comentário

Porque falam de judeus quando outros falam de Israel? Eu amo infinitamente vários judeus: Woody Allen, Kafka, Cohen, Einstein, etc, etc... Mas negar que a política de Israel é equiparável em grande medida, e em muitos momentos na sua totalidade, com o terrorismo palestino é tentar negar o inegável. Que Israel seja um "país judeu" não me faz voltar atrás nem ir mais á frente nas minhas conclusões. Hitler foi um monstro, mas existe toda uma escala de monstros com todas as religiões possíveis se bem que em geral se concentrem fortemente nas religiões monoteístas "irmãs", as chamadas religiões do Livro...
Finalmente volto a uma antiga conclusão minha da adolescência: nisto de religião mais vale ser analfabeto.
RF
 
Uma história sobre dois sonetos a propósito das eleições norte-americanas

Contam que certa vez um jovem poeta encontrou-se con Heine e pediu-lhe conselho sobre que soneto entre dois deveria enviar para que lhe publicassem. Depois de ler o primeiro Heine disse "Envie o segundo...".
RF
2004-09-07
 
Israel Ataca Estados Unidos


Parece absurda a noticia mas é verídica, só que corresponde a 8 de Junho do ano de 1967. Era a guerra dos 6 dias e um navio espia americano chamado Liberty foi enviado a 13 milhas da costa do Sinai. Durante 75 minutos caças israelitas não propriamente identificados estiveram atacando o navio americano, provocando a morte de 34 marinheiros norte americanos e ferindo outros 172. O caso foi abafado pelo presidente Johnson e pelos isarelitas. (A noticia sobre o sucesso apareceu na página 20 e tal do New York Times...) Os marinheiros que sofreram o ataque receberam todos eles promoções e medalhas secretamente, foram destinados a lugares distintos para serem isolados entre si, e lhes foi exigido secretismo sobre o sucedido.
Hoje todos os sobreviventes admitem que era óbvio que os israelitas sabiam perfeitamente quem estavam atacando e tinham o objectivo de destruir o navio e provocar a morte de todos os seus passageiros. A versão semi-oficial sustenta que os israelitas tivessem cometido um falho inicial de reconhecimento (teriam confundido o Liberty com um navio egipcio com a metade do tamanho...) e depois procurassem esconder o erro não deixando sobreviventes. Isto logo a partida não explica o porquê de nenhum dos caças estar devidamente identificado. O que contribui para a segunda teoria, de que o ataque foi premeditado com a intenção de levar os Estados Unidos a pensar que o ataque houvesse sido provocado pelos egipcios, obrigando os Estados Unidos a entrar na guerra. Ou pura e simplesmente teriam atacado o navio com receio de que este houvesse interceptado mensagens que poderiam servir de prova contra Israel num processo de crimes de guerra, pelos massacres realizados pelas tropas israelitas contra soldados egipcios presos. Estados Unidos teria incoberto o caso e fingido acreditar no pedido de desculpas israelita pelo "erro cometido" para preservar as alianças externas (e internas) com Israel.
Estas duas últimas hipoteses parecem suficientemente razoáveis não fosse o dado recentemente descoberto de documentos de um "Comite 303" (reconhecido oficialmente pela CIA como um organismo que deveria tomar as decisões sujas em política externa com as quais a Casa Branca não deveria estar involucrada de forma directa...,a fonte é o próprio Helms, presidente da CIA no momento) que se referem a um plano para derrocar ao presidente Nasser do Egito além de referir-se com estranho detalhe a localização de um submarino israelita nas águas onde o ataque ocorreu.
A palavra chave que agentes israelitas e americanos reconhecem mas sobre a qual não comentam é "Operacão Cianeto" (Cyanide Operation). Um pouco de jogo linguistico pessoal, sugere "Cia Aide", ou seja, "uma mão amiga da CIA...", para os israelitas neste caso. (Sinceramente os gajos não têem muita imaginação...) A hipótese seria então que a CIA juntamente com Israel programassem este ataque previamente de maneira a poder ser apresentado como um ataque cometido pelas forças árabes que justificassem a entrada na guerra de Estados Unidos de forma "independente" de Israel. Isto explicaria os documentos, mas também o caso estranhissimo de Estados Unidos não haver enviado ajuda aérea ao Liberty durante 16 horas. Mas também de que durante estas horas aviões americanos armados com armas nucleares levantassem vôo para atacar a potência "retaliante" Egito, o que não chegou a concretizar-se por contra ordens de McNamara ao ser público no Pentágono a identificação dos atacantes como caças israelitas. Além disso existem testemunhos de espias norte americanos que afirmam terem interceptado mensagens que deixavam claro o desespero dos israelitas em abater o navio e a frustração ao finalmente não serem capazes e verem-se obrigados a terminar a operação.
Existe todo um passado que é necessário conhecer para perceber de onde vêem os monstros, não de justificar-los, mas de em lugar de demonizar-los perceber que existe um fluxo causal que não começa neles mas que neles termina, ou recomeça.
RF
 
O Sudão é aqui, o Sudão não é aqui

Há muito tempo que o terrorismo islâmico de estado do governo do Sudão, protegido por Árabia Saudita por sua vez protegida pelos Estados Unidos e restante "mundo civilizado", mata tal como o terrorismo islâmico pan-árabe matou em Ossetia. No entanto no Sudão não há televisões, nem jornalistas, nem brancos... É triste mas é verdade, por isso que o título deste post directamente inspirado no Haiti de Caetano Veloso e Gilberto Gil se justifica plenamente.
RF
2004-09-02
 
¿Lula ou Calamar?

BBC Brasil

Lula propôs a criação de um Conselho Federal de Jornalismo em seguida ao assédio da imprensa a distintas personalidades do governo brasileiro. Além de totalmente absurda a medida parece dar a entender que o nervosismo tomou conta do Presidente brasileiro que resolve enveredar por uma medida no minímo duvidosa do ponto de vista da defesa da liberdade de expressão.
Lula começa a parecer-se com Hugo Chavez...
Nunca gostei do cáracter demasiado messiânico de Hugo Chavez, e sempre achei que o melhor que poderia fazer Lula como presidente brasileiro era fazer o melhor possível não pondo em risco um caminho de saúde democrática e minímos de honestidade executiva inaugurada por Fernando Henrique Cardoso. Esta medida vai em contra disso.
Hugo Chavez poderá ter as melhores intenções do mundo mas o cáracter pessoal e populista do seu governo não augura nada de bom. O melhor que poderá acontecer é forçar o aparecimento de uma classe política venezuelana responsável, honesta e sensata desde a oposição. Agora mesmo isso não parece estar acontecendo mas tenho esperanças que terminará por acontecer, e no final haverá que reconhecer o mérito de Chavez para o processo, e eventualmente será este o seu único grande e minimamente duradouro mérito.
O PT e seu líder não terão direito nem a esse mérito porque quer queiram ou não o ciclo de recuperação moral da política brasileira ocorreu antes deles chegarem ao poder (que tenham participado no largo processo político que aí desembocou é indiscutível). Lula não deve correr o risco de se transformar num passo atrás deste importante e necessário caminho.
O CFJ foi uma decisão política estúpida e desnecessária, e muitas vezes é assim que grandes promessas políticas começam as suas grandes quedas. Estúpida e desnecessáriamente.
RF

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