Estrangeiros no momento
2004-09-14
 
A droga mais dura


Que a religião e o nacionalismo são as mentiras fundamentais com que todos somos educados desde pequenos de uma maneira ou de outra é inegável. Corrijo, no caso da religião já existe uma vasta minoria para a qual isto não se aplica. São numerosos os casos de países onde o ateísmo é maioritário (países nórdicos de Europa), se não quase totalitário (falo de China, Cuba, etc) e na vasta maioria dos países ocidentais democráticos o ateísmo é algo perfeitamente usual. O que já nos leva onde quero chegar. A mentira fundamental será então o nacionalismo.
Todas as sociedades se organizam em torno desta mentira, educam seus cidadãos nesta mentira, e nela e de acordo com ela lhes obrigam a viver. Pelo menos nos países ocidentais muito antes de dizer-se a um miúdo que ele é católico ou protestante (ou ateu...) se lhe diz que ele é português, espanhol, holandês, americano, etc. É a mentira estrutural mundial. Talvez para a maior parte dos países ditos muçulmanos isto não seja assim, e se diga a um miúdo que ele é muçulmano antes de dizer-lhe que ele é saudita, por exemplo. E talvez esta é precisamente a chave para perceber o conceito de pan-arabismo que existe nos países muçulmanos.
O comunismo sabia isso e por isso insistia fortemente numa idéia internacionalista da sua mensagem. Mas enganou-se ao posicionar a religião como mentira fundamental em lugar do nacionalismo. Ou então o fez consciente ao saber que uma batalha era mais fácil que a outra, sabendo do cáracter estruturante que a mentira nacionalista possui na organização das sociedades em geral.
(O importante da mentira que também é a Europa comunitária, é que querendo substituir, ou roubar protagonismo ás mentiras nacionalistas locais com uma nova mentira mais global poderá demonstrar ao mundo em geral de uma maneira mais imediata a falsidade em que se baseiam as suas sociedades. Ou talvez não o consiga... mas esperamos que sim.)
Voltando aos países muçulmanos. Não será o Islão, e principalmente a radicalização que no seu interior evolui durante o século XX, a vía de escape e ao mesmo tempo a sacralização da afirmação de uma identidade nacional-cultural árabe em geral que, ao mesmo tempo, funciona de estímulo ao combate independentista das suas partes contra potencias colonizadoras locais? Se for assim, a chave de entendimento do problema terrorista islâmico para os ocidentais se torna muito mais fácil. Porque a mentira pela qual eles lutam é exactamente a mesma que aquela em que todos os dias a quase totalidade dos ocidentais se move. Uns põem bandeirinhas verdes e vermelhas de ponta cabeça nas janelas dos seus apartamentos dormitórios decadentes, outros põem bombas em autocarros. É completamente diferente, eu sei. Mas também sei que a mentira é completamente a mesma.
É curioso que o judaísmo surge como a religião de um "povo eleito", quase admitindo que antes do seu Deus existia uma mentira mais divina e fundamental. O cristianismo é mais tarde a religião para um império, o romano. Um império que se desfazia pouco a pouco, e para o qual deveria existir uma religião coerente com várias mentiras. Uma religião universalista. Tempos novos exigem mentiras novas. O Islão surge pouco depois como a mentira para um império que não é mas quer ser, e terminou sendo.
Marx se enganou, existia uma droga muito mais dura que a religião.
RF

Powered by Blogger

Nedstat Basic - Free web site statistics