Estrangeiros no momento
2004-10-26
 
Direita/Esquerda, o "/" está aí
Andaram por aí (e andam e andarão) a escrever e a dizer que a dicotomia esquerda/direita não existe.
Eu pensei em escrever sobre as provas de que existe, mas me parece tudo tão óbvio que em lugar disso vou formular a pergunta pertinente em relação a esta questão. Porque será que os defensores da inexistência desta dicotomia são sempre aqueles que pertencendo a grupos de força da direita não se sentem confortáveis com a sua companhia e com o que ela faz (porque acontece que a direita faz coisas de direita...)?
Quanto a famosa "Terceira Vía", esta não é mais do que a esquerda que deixou de ser-lo, passando a ser direita, mas que por razões psicológicas profundas (ou não tão profundas...) prefere ser chamada de outra coisa. É que mesmo para muitas pessoas de direita ser chamado de direita é desagradável. Melhor dizer que o "/" não existe...
RF
2004-10-25
 
Um mito
Existirá talvez um mito que continuamente enunciado terminou por nos convencer de uma maneira ou de outra a quase todos. Este mito é o de uma suposta superioridade do Norte sobre o Sul. Do anglo-saxão sobre o latino. Do branco sobre o negro. Do frio sobre o quente.
Se diz que o clima é a causa de caracteristícas profundamente enraizadas na forma de ser das pessoas que fazem com que os povos que se formaram nas zonas frias se dediquem mais ao trabalho e os das zonas quentes a preguiça. Com isto se tenta explicar porquê o inglês é hoje dominante no mundo em oposição com as línguas latinas, ou porquê o Hemisfério Norte é mais rico que o Sul, etc.
Primeiro de tudo a memória: cada pessoa, cada civilização, vive um tempo muito curto, e sem a História todas as nossas opiniões seguirão sendo enunciados arrogantemente enunciados desde um número de dados ridiculamente pequenos se comparados com o tamanho das suas conclusões.
Os egipcíos, talvez a mais longeva civilização da história da humanidade, se formou em África não na Europa. Os gregos, os macedônios e finalmente o Império Romano existiram no sul da Europa e não nasceram do esforço de vikings nas frias terras nórdicas. Depois disso, as invasões árabes e sua expansão existiram num tempo em que a Europa Medieval se perdia em obscurantismos e misérias de todo tipo. A Renascença e os primeiros impérios europeus modernos se formaram no sul da Europa, que é quem liberta o Norte das amarras do passado, e lhe apresenta o mundo na sua exacta e total dimensão e forma. Depois, e só então, as terras mais a norte do planeta Terra finalmente têem a sua oportunidade na longa e antiga história do Homem. E mesmo assim sabemos da grande quantidade de europeus de terras frias que em determinados períodos, para escapar da miséria nos seus países (primeira metade deste século), emigraram para o Sul, colonizado por europeus do sul de Europa: Brasil, Argentina, etc.
Não quero assim negar totalmente que o clima, e a latitude dos povos não sejam um factor importantíssimo no devir histórico, apenas constatar o óbvio: existem factores muito mais determinantes e importantes que este. E este mito recente se justifica em um presente histórico que um dia será inevitavelmente outro e então talvez existam outros mitos...
RF
 
Mea Culpa (não minha, mas vossa)
A todos os portugueses que criticando agora os americanos por haverem votado ou por virem a votar em Bush, votaram em seu momento, para que a coligação direita/extrema-direita chegasse ao poder em Portugal, e através da visibilidade do seu primeiro primeiro-ministro abrissem passo para que a extrema-direita de Europa começasse a entrar na comissão européia. Antes de criticarem os americanos, pensem que deram voto ao obscurantismo em Portugal e na Europa. Que possibilitaram que pela mão de um Durão Barroso gente do nível de um Paulo Portas, Santana Lopes e Buttiglione (e que admitamos de uma vez por todas, definem o nível de Durão Barroso) alcançasse o poder de mandar em vós e em nós.
Agora para a esquerda portuguesa: cada vez que perdem mais tempo dizendo que não há oposição em Portugal em lugar de apoiar a esquerda na crítica a este governo, estão garantindo com uma firmeza que a direita não pode dar, que este governo seguirá no poder, e que o obscurantismo desta direita tonta continue em Portugal por mais outro e interminável mandato...
RF
2004-10-17
 
O principio da não intervenção européia no conflito Israel-Palestina

Este post nasce a propósito da entrevista a outro escritor que hoje li também no El País. Neste caso a entrevista é a Amos Oz, escritor israelita, comprometido com uma solução política ao conflito Israel-Palestina. Amos Oz além de criticar duramente a intelectualidade européia a propósito dos seus contributos a discussão do conflito, que ele considera são superficiais e nada constructivos, refere que os europeus lêem pouco aos autores israelitas, e que não existe um diálogo cultural entre Europa e Israel por surdez da primeira em relação a segunda. E que eles, os intelectuais em Israel, sim lêem aos autores europeus. E específicamente, no caso desta entrevista, se refere aos autores espanhóis, referindo conhecer todo o conflito mental mal resolvido herdado da Guerra Civil espanhola dos anos 30. Muito provavelmente estas críticas serão perfeitamente justas.
Ele não refere nenhuma analogia entre este conflito e o de Israel e Palestina mas em mim as suas referências despertaram esta analogia. Em particular me veio a cabeça uma analogia entre o principio de não intervenção proposto por França e assinado pela maior parte dos países interessados no conflito civil espanhol, mas que só foi cumprido pelos regimes ocidentais democráticos. Na práctica, Alemanha, Itália e URSS (e mesmo Portugal se bem que nos limites da sua dimensão muito mais modesta) se envolveram de maneira directa e descarada no conflito. O envolvimento de cidadãos ingleses, franceses e americanos no conflito se faz por voluntarismo individual e não foi suportado nem defendido pelos correspondentes governos. Na práctica isto significou que a Europa e Estados Unidos se comportaram como Pilatos no conflito deixando-o nas mãos de Hitler e Estaline, o que terminou por levar a vitória dos fascistas espanhóis com a ajuda mais sincera, preparada e comprometida dos nazistas alemães se comparada com a ajuda soviética.
Em Israel algo parecido se está a passar desde muito. Europa deixou o conflito nas mãos de Estados Unidos e dos movimentos fundamentalistas islâmicos e dos regimes e organizações que o financiaram e dos que continuam financiando. A razão é a mesma: que esta zona do mundo, como Espanha em seu momento, não justifica os riscos que implicam uma internacionalização deste conflito. O que isto significará inevitávelmente é o encurralamento definitivo da população palestina. Israel poderá então construir um monumento gigantesco em Jerusalém, com o trabalho de subcontratados mal pagos palestinos, em memória "de los calidos" na guerra.
RF
 
Se eu fosse um escritor de renome nascido em Trieste

Eu poderia dizer acerca da emigração:

<< ... resulta inegável que nos aterroriza a perspectiva de ficarmos submergidos baixo uma enchente de estrangeiros, porque tememos a perda de nossa identidade. Como se a história não fosse uma continúa mistura de identidades. Como se fôssemos filhos de virgens.>>

E diria depois sobre o a proibição do véu em França:

<<Também inventamos alguns problemas, como o uso do véu. Que mal tem uma rapariga levar um véu? Basta com que vejamos sua cara, o resto não importa.>>

Depois acusaria os nacionalismos:

<<Eu creio, no entanto, que o laicismo europeu não está ameaçado por nenhuma religião, mas sim pelos nacionalismos. O inimigo do laicismo é o nacionalismo que sacraliza a nação e exalta os "valores quentes" de que falava Norberto Bobbio (...) Eu sou de Trieste, gosto de minha cidade, a amo como amo a sua gente, todos estes são "valores cálidos", mas é um erro tipicamente fascista considerar que somente os "valores cálidos" são nobres.>>

Depois sobre Israel e antisemitismo:

<<O conflito entre palestinos e israelitas complica as coisas, porque qualquer crítica ao Governo de Israel se faz passar, injustamente, como antisemitismo.(...) O catolicismo reconheceu, por boca do próprio João Paulo II, que sentou as bases para o antisemitismo europeu. Agora há que evitar cair no outro extremo. Meu amigo Egon Schwartz, um judeu que escapou de Austria em 1938, costuma dizer que, depois do antisemitismo, o pior foi o filosemitismo nascido da má consciência.>>

Claudio Magris, em entrevista ao El País de hoje. Eu infelizmente nunca li nenhum livro seu (erro que agora prometo tentar corrigir o antes possível), mas fico na dúvida se ele andou lendo meus posts neste blog. Ou será, que o que acontece é que a maior influência de Claudio Magris é a literatura centro-européia, da qual aliás é professor e tradutor. Falamos de Thomas Mann, de Robert Musil, de Kafka, etc. Será isso.
RF
2004-10-14
 
South Park
A filha do vice-presidente gosta de tetas. Mas o vice-presidente apesar de tudo a ama muito.
Ela também ama muito seu pai, apesar dele ganhar dinheiro matando gente morena de desertos distantes.
Quem não deve gostar muito da menina que gosta de tetas (ou pelo menos não gosta nada que ela goste de tetas) é o chefe do pai dela. Porque o presidente que gostava muito de cocaína e bijecas, agora gosta muito de Deus, e dá dinheiro para que as meninas e os meninos não forniquem uns com os outros, e assim poderem evitar horrorosos abortos. O presidente não gosta de árvores nem de petróleo guardado debaixo do deserto dos outros, mas adora que um bom e pequenino feto branco no útero de uma mulher americana seja bem cuidado e possa um dia sair daí pronto para embarcar num avião para o Médio Oriente para promover a democracia e o modo de vida americano.
Mas parece que afinal existe uma pequena esperança que a terra destes bravos decida substituir o presidente pelo senador comunista casado com a milionária do ketchup, que um dia parece que foi portuguesa.
RF

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