Estrangeiros no momento
2004-10-17
 
O principio da não intervenção européia no conflito Israel-Palestina

Este post nasce a propósito da entrevista a outro escritor que hoje li também no El País. Neste caso a entrevista é a Amos Oz, escritor israelita, comprometido com uma solução política ao conflito Israel-Palestina. Amos Oz além de criticar duramente a intelectualidade européia a propósito dos seus contributos a discussão do conflito, que ele considera são superficiais e nada constructivos, refere que os europeus lêem pouco aos autores israelitas, e que não existe um diálogo cultural entre Europa e Israel por surdez da primeira em relação a segunda. E que eles, os intelectuais em Israel, sim lêem aos autores europeus. E específicamente, no caso desta entrevista, se refere aos autores espanhóis, referindo conhecer todo o conflito mental mal resolvido herdado da Guerra Civil espanhola dos anos 30. Muito provavelmente estas críticas serão perfeitamente justas.
Ele não refere nenhuma analogia entre este conflito e o de Israel e Palestina mas em mim as suas referências despertaram esta analogia. Em particular me veio a cabeça uma analogia entre o principio de não intervenção proposto por França e assinado pela maior parte dos países interessados no conflito civil espanhol, mas que só foi cumprido pelos regimes ocidentais democráticos. Na práctica, Alemanha, Itália e URSS (e mesmo Portugal se bem que nos limites da sua dimensão muito mais modesta) se envolveram de maneira directa e descarada no conflito. O envolvimento de cidadãos ingleses, franceses e americanos no conflito se faz por voluntarismo individual e não foi suportado nem defendido pelos correspondentes governos. Na práctica isto significou que a Europa e Estados Unidos se comportaram como Pilatos no conflito deixando-o nas mãos de Hitler e Estaline, o que terminou por levar a vitória dos fascistas espanhóis com a ajuda mais sincera, preparada e comprometida dos nazistas alemães se comparada com a ajuda soviética.
Em Israel algo parecido se está a passar desde muito. Europa deixou o conflito nas mãos de Estados Unidos e dos movimentos fundamentalistas islâmicos e dos regimes e organizações que o financiaram e dos que continuam financiando. A razão é a mesma: que esta zona do mundo, como Espanha em seu momento, não justifica os riscos que implicam uma internacionalização deste conflito. O que isto significará inevitávelmente é o encurralamento definitivo da população palestina. Israel poderá então construir um monumento gigantesco em Jerusalém, com o trabalho de subcontratados mal pagos palestinos, em memória "de los calidos" na guerra.
RF

Powered by Blogger

Nedstat Basic - Free web site statistics