Estrangeiros no momento
2004-11-30
 
Adoro nomes (brasileiros)
Alguns deles:

Antonio Manso Pacífico de Oliveira Sossegado (é teu parente ricardo!!!!!)
Araci do Precioso Sangue (este nome é lindo!)
Arquiteclínio Petrocoquínio de Andrade (as novas ciencias do futuro!!!)
Libertino Africano Nobre (toda uma declaração de intenções)

mas há mais...
RF

2004-11-29
 
Os meus nomes
RUI
Gender: Masculine
Usage: Portuguese
Old Portuguese short form of RODRIGO
RODRIGO
Gender: Masculine
Usage: Spanish, Portuguese, Italian
Pronounced: rawd-REE-go (Spanish, Italian)
Spanish, Portuguese and Italian form of RODERICK. This was the name of the last king of the Visigoths. He died fighting the Muslim invaders of Spain in the 8th century.
RODERICK
Gender: Masculine
Usage: English
Pronounced: RAHD-ur-ik, RAHD-rik [key]
Means "famous power" from the Germanic elements hrod "fame" and ric "power". This is the name of the main character in the poem 'The Vision of Don Roderick' by Sir Walter Scott.

Assim que meu nome é a forma portuguesa curta e velha para "fama e poder" germânicos. Tem sentido.

JORGE
Gender: Masculine
Usage: Spanish, Portuguese
Pronounced: HAWR-he (Spanish), ZHOR-zhe (Portuguese) [key]
Spanish and Portuguese form of GEORGE

Ou seja, que se trata de algo original.

Monteiro: First found in the Basque region of northern Spain.
Spelling variations include: Montoya, de Montoya, Monte, Montes, de Montes, Móntez, Montez, Montero, Monteros, de los Monteros, Montecillo, Montejo, de Montejo, Mont, Montaña, Montana, Montaño and many more.

Gostei que Montaña (Montanha) fosse uma variação de Monteiro, já que aqui em Espanha é também usado para primeiro nome, e é um dos nomes de que mais gosto e curiosamente era o nome que o pai da minha cara metade queria dar-lhe a filha mas não lhe deixaram. Fico um pouco confuso de "descobrir"-me origens bascas...

Fernandes: First found in Castile, where the name originated in Visigothic times.
Spelling variations include: Fernández, Fernandez, Ferranz, Ferrándiz, Ferrandiz, Ferrández, Ferrandez, Fernandeiz, Federnandiz, Fredenandiz, Fredinandoz, Frenandoz, Fredelandez, Fredernandiz, Fernayz and many more.

Aceito a origem goda do meu nome, tenho apenas pena que as minhas prováveis origens mouras (e judias?) também não se possam ver no meu nome.
RF




 
Os nomes


Felix Nussbaum


Estão todos...
Pelo menos estavam os meus "Monteiro" e "Fernandes", exactamente repetidos 25 vezes...
[ver Rua da Judiaria]
RF

2004-11-28
 
É claro que é o sexo, estúpido
Para entender porquê o multiculturalismo não é solução para o conflicto de culturas, basta comparar Brasil e Estados Unidos.
Nos Estados Unidos, ninguém é americano, mas apenas "americano de um determinado tipo": afro-americano, ou americano-branco-homem, ou hispano-americana-lésbica, nipo-americano-bissexual, nativo-americano-muçulmano, etc. A expressão cultural do individúo se faz de maneira sempre a defender os direitos da minoria em que se sente incluído este individúo. E todas as correntes culturais transgressoras destas normas, e que realmente buscam a integração de todos com todos gerando cultura, terminam por terem pouca repercussão popular exceptuando raras e nada pacíficas excepções. O multiculturalismo americano é a fórmula que a população anglosaxônica branca protestante original encontrou para conseguir manter-se pura e não miscigenar-se, ou reduzir esta miscigenação ao minímo grau possível, ao largo dos város fluxos migratórios "sofridos".
No Brasil são absolutamente a excepção e nunca a regra os casos de populações originais com um alto grau de sobrevivência das culturas originais trazidas de Europa, e que se tenham conseguido "manter puras". No Brasil as fórmulas compostas de ser-se brasileiro não vingaram, e todos continuam sendo basicamente brasileiros.
O caso mais óbvio porque o mais importante de imigração análoga entre Brasil e os EUA é o dos negros escravos. Enquanto que nos Estados Unidos os negros possuem um alto grau de consciência de grupo no Brasil esta consciência não existe ou quase não existe.
Uma vez vi uma entrevista de um historiador brasileiro que dizia que tudo isto se explica pelas diferenças entre a colonização branca original dos EUA e do Brasil. Os EUA foram colonizados por famílias britânicas, o Brasil por homens sózinhos portugueses. Os colonos britânicos puderam e naturalmente se preocuparam em manter a sua cultura no contexto familiar que viviam. Os portugueses não. Os britânicos não se mesclaram tanto com as escravas porque sempre tinham suas esposas. Os portugueses não tinham outro remédio.
[Há um outro lado da questão que é o facto de provavelmente por existir este contexto familiar de suporte, os colonos britânicos eram em geral muito menos violentos com os negros que os portugueses, o que se reflectia na esperança de vida dos escravos...]
Assim foi o sexo, e não mesas redondas de troca de experiências culturais(que é no que eu penso quando leio coisas como cosmopolitismo e trans-culturalismo...), a chave para entender a mistura cultural (que antes de tudo é portanto racial) brasileira, e para o isolamento inter-cultural que é o multi-culturalismo americano. O sexo e mais nada.
Não é á toa que o símbolo nacional do Brasil é a mulata...
Para rematar uma proposta realmente honesta, ainda que nada séria, de promover a integração das culturas originais com as novas entrantes na Europa actual, seria incentivar os casamentos inter-raciais com alguma espécie de subsidio, ou então que os filhos mistos tivessem subsidios maiores que os puros. Algo assim...
RF
 
A salvação da humanidade
Uma vez ouvi Jorge Amado dizer que a única hipótese de salvação da humanidade era que todos nos tornássemos mulatos. Ou como disse Claudio Magris em entrevista ao El País (ver este post):
... resulta inegável que nos aterroriza a perspectiva de ficarmos submergidos baixo uma enchente de estrangeiros, porque tememos a perda de nossa identidade. Como se a história não fosse uma continúa mistura de identidades. Como se fôssemos filhos de virgens.
Também vale a pena ler Daniel Oliveira em Barnabé em Não e o multiculturalismo, estúpido sobre o mesmo.
RF

 
As rapozas
A decisão do parlamento inglês, com o voto dos trabalhistas ingleses, de proibir a caça da rapoza a cavalo só pode ser vista, a luz de um parlamento que apoiou o seu governo na invasão de Iraque, de uma forma: a pior forma de hipocrisia com que a esquerda labour pretende esconder que já não o é. O triunfo da hipocrisia total em acto final trágico-cômico.
RF
 
O sujeito que conta a anedota II
Em todos os três casos tenho a teoria de que a anedota tem sempre a sua origem e explicação como um acto de humilhação que nasce do complexo de superioridade do rico sobre o pobre.
Os espanhóis de hoje que ridicularizam Portugal. Os portugueses de hoje que ridicularizam os brasileiros.
E as piadas dos brasileiros sobre portugueses, que provavelmente nasceram na aristocracia brasileira quando da emigração de portugueses pobres e ignorantes para o Brasil na segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX. Curiosamente, e ironicamente, estes portugueses que, e quando, voltavam para Portugal também eram ridicularizados pela aristocracia portuguesa (veja-se Eça de Queirós) que os chamavam de "brasileiros".
RF
 
O sujeito que conta a anedota
Brasileiros: Cada vez que um brasileiro acusa e responsabiliza os portugueses de crimes como o tráfico de escravos, ou a exploração de suas riquezas, ou do massacre dos índios, se esquece de algo fundamental. Que os portugueses que eles criticam são principalmente os seus pais mais que os pais dos portugueses que estão em Portugal.

Portugueses: Cada vez que os portugueses ridicularizam ou menosprezam Brasil e os brasileiros se esquecem de algo fundamental. Que estão ridicularizando e menosprezando "a coisa" de que podem ter mais orgulho.

Espanhóis: Cada vez que os espanhóis demonstram complexos de superioridade grandes ou pequenos em relação a Portugal não são em geral conscientes de algo fundamental. Que este complexo de superioridade é tão grande ou pequeno conforme o seu complexo de inferioridade, mesmo que disfarçado, em relação ao resto da Europa seja grande ou pequeno.
RF
 
Ser o sujeito da anedota
Escrevo este post inspirado por este texto de David Grossmann na Rua da Judiaria, e mais particularmente, por este troço de texto:
Um estranho em relação a situações humanas em que se forma um colectivo de qualquer espécie, composto por muitos que falam (ou urram) com uma voz única; um estranho com uma leve suspeita sobre o que torna aquele colectivo possível; com a solidão que toma conta do indivíduo na presença de um colectivo daqueles, mesmo que ele não queira – ou seja incapaz – de fazer parte dele; com o sentido de singularidade que acompanha aquela solidão; com aquela marca (não inteiramente compreensível) de orgulho que acompanha estes sentimentos, afligido incessantemente pelo facto dessa singularidade colocar uma barreira invisível, mas real, entre ele e os outros; com o constante cepticismo que repousa dentro desses sentimentos, porque frequentemente parece que estes sentimentos não são mais do que uma crosta formada sobre a ferida da solidão(...)
Eu me senti identificado com o Grossmann, uma identificação um pouco desajeitada, por que não sinto a tragédia de ser-se estranho na mesma amplitude que a descrita por Grossmann. Esta amplitude de tragédia vem de uma parte em que a minha memória familiar se distancia da de um judeu israelita como Grossmann. Mas existe uma identificação ainda assim.
Serei judeu? Talvez não seja de todo improvável que algo de sangue judeu ibérico me corra nas veias, mas não será por isso que me identifico com o seu texto. Apenas acontece que a sensação de estranheza descrita por Grossmann é basicamente universal e não advém de ser-se judeu mais do que advém de ser-se nômada, ou advém de ser-se judeu na medida, e naqueles muitos casos, em que ser um judeu é ser um nômada.
No meu caso sei que a chave da minha estranheza começa muito antes da minha consciência de ser-lo, na medida que já era um estrangeiro muito antes de ser consciente de qualquer coisa que seja. Esta estranheza tem para mim originalmente a forma pouco dramática de uma anedota de brasileiros sobre portugueses, de uma pergunta inocente feita por um familiar para um menino, que sou eu, sobre quem era: português, angolano ou brasileiro? E a completa ausência de certezas na cabeça deste menino a não ser a de que qualquer reposta que desse não seria sincera.
Mais tarde, depois de voltar a Portugal (de onde não me lembrava de ter chegado vindo de Angola, nem de ter saído a caminho de Brasil) descobri que em Portugal me chamariam de brazuca, e ironia das ironias, também existiriam anedotas sobre brasileiros para serem contadas a mim já que "era mais um". Mais tarde, e agora sim por minha própria iniciativa, iria para Espanha, onde finalmente "voltei a ser português", e voltaria a ouvir exercícios ingênuos de complexos de superioridade (agora castelhanos e não brasileiros) sobre Portugal e os portugueses.
É preciso dizer também que algumas poucas mas agradáveis vezes a minha situação de estrangeiro foi valorizada. Em particular, me lembro com uma quase nostalgia o período de um ano que passei no norte de Portugal, em Amarante, onde as meninas queriam "todas" falar comigo, o que me provocava uma sensação a meio caminho entre ser um playboy e um macaco no zoológico...
De qualquer forma me acostumei durante todo este período a defender primeiro os portugueses no Brasil, depois os brasileiros em Portugal, depois, ainda insatisfeito, os portugueses e os brasileiros em Espanha... E nas minhas idas regulares a Portugal agora descubro-me obrigado a defender brasileiros e espanhóis...
Provavelmente seja esta a minha principal diferença em relação ao sentimento de estranheza judaico que descreve Grossmann: é que sendo sempre estrangeiro sou sempre ainda que por um lapso de alguns instantes de alguma parte que não é onde estou agora. Provavelmente, por isso, é que Israel é sem dúvida tão importante para todos os judeus mesmo que em diáspora: para que sendo sempre, onde quer que estejam, estranhos, não deixem ainda assim de ser de alguma parte... Já que nós, europeus, não deixámos que o milagre hebraico de não ser-se de nenhum lado tivesse um final feliz.
RF
2004-11-26
 
Abre os olhos

RF
 
É triste
É triste ver um blog português que se define de esquerda no próprio nome ir demasiado fácilmente mais além da História e promover o relativismo do crime mais grave cometido por Portugal, e um dos mais graves da História da Humanidade. Falo disto:

A conclusão é bem aplicável a Portugal[Luis Rainha]: "This may require that we rethink our belief that race was fundamental to pre-modern ideas about slavery."[Robert Davis]

Acho triste que afirmações destas, com tantas implicações e demasiado poucas restricções, sejam ditas fora das latitudes políticas em que estamos acostumados a ler-las...
RF
2004-11-25
 
Ajudem o Jonas que ele está "completamente confusado"
É aqui:

Gravado

RF

 
Guerra - Dalí

RF
 
Samba da Boa Vontade
Viver alegre hoje é preciso
conserva sempre o teu sorriso
mesmo que a vida esteja feia
e que vivas na pinimba
passando a pirão de areia.

Noel Rosa

RF
 
Onde eu queria estar agora...
Ela diz-me que vamos este ano a Turquia, mas se a coisa não funciona vou fazer o máximo para convencer-la a irmos outra vez lá...
RF
 
Em Paris
Villa Lobos em Paris gostava de assustar as senhoras francesas descrevendo o prazer de comer das mãos dos macacos. Esta história me abre o apetite!
RF
2004-11-22
 
E ele disse
"Politics is supposed to be the second oldest profession. I have come to realize that it bears a very close resemblance to the first."
Ronald Reagan
RF
2004-11-21
 
Voyeur - Dalí, 1921

RF
 
A noite dos cristais partidos de Holanda
Em Holanda o assassinato de Theo van Gogh despertou o ódio contra a população muçulmana magrebina, reflectindo-se numa série de ataques a emigrantes, mesquitas, etc, sintomas de uma histeria colectiva totalmente desproporcionada com o que supostamente a causou: o assassinato de uma pessoa a mãos de um radical muçulmano.
Em Espanha um atentado de grande escala perpetrado por um grupo terrorista organizado não provocou nada de parecido. E pelo menos em Madrid emigrantes magrebinos e suas mesquitas, casas e escolas estão um pouco por todo lado.
Será que os espanhóis são melhores cidadãos que os holandeses? Não creio. As causas destes ataques de ódio é que não estão relacionadas de nenhuma forma com o terrorismo. O terrorismo é pura e simplesmente a desculpa ideal que grupos e sentimentos de ódio contra a grande percentagem de emigrantes em Holanda, grupos e sentimentos que já existem desde muito antes do assassinato de Theo van Gogh, encontraram para justificarem a manifestação explícita dos seus ódios.
É conhecido o caso de uma população do sul de Espanha em que o cenário de Holanda se repetia em termos micro, e onde um caso de violência contra um espanhol a mãos de um emigrante marroquino despoletou uma autêntica caça ao homem contra todos os emigrantes marroquinos do lugar. Não se tratava neste caso de terrorismo mas do mesmo ódio contra o que vem de fora.
Mas o caso mais famoso será o que ocorreu em novembro de 1938 em Alemanha. Também se utilizou por parte dos nazis, o assassinato de um diplomático alemão em Paris a mãos de um jovem judeu, para justificar que todas as sinagogas judias fossem queimadas, os escaparates de lojas propriedade de judeus partidos, e milhares de judeus presos. Chamaram-no de a "noite dos cristais partidos".
O terrorismo muçulmano, parece ser cada vez mais óbvio, se tornará na causa ideal dos ataques racistas que correm o risco de começar a ocorrer em vários países europeus com grande percentagem de emigração muçulmana e de norte de África: Holanda, mas também França e Alemanha, e um dia talvez inclusive Espanha.
Por isso, que cada cidadão europeu que tenta justificar os ataques em Holanda contra muçulmanos como baseado no medo "compreensível" contra ataques terroristas muçulmanos, corre o sério risco de poder ser compreensivelmente identificado com um defensor dos nazis que queimaram e destruiram as sinagogas e lojas judias numa noite de Outono há mais de meio século atrás.
RF
2004-11-20
 
SPANISH SWEARING
Sempre pensei que seria algo interessante de estudar as inúmeras expressões grosseiras usadas na língua espanhola principalmente na que se fala em Espanha (acho que México também tem um patrimônio interessante neste aspecto, mas conheço pouco), e dentro desta, na sua metade sul. Em minha opinião as blasfemias e todos os palavrões são uma parte importantíssima de qualquer língua, e neste aspecto serão poucas as línguas que rivalizem com a espanhola. É de notar-se que mesmo para a maior parte dos países de colonização espanhola, com a única excepção talvez de México, os espanhois são conhecidos pela sua grosseria...
Encontrei esta página por acaso, e achei por bem apresentar-la aqui. Gostei que o texto mencione a expressão a que tenho mais carinho, e que considero o cume máximo a que pode esperar uma grosseria: ser metafísica. Falo do inesquecível: "Me cago en Dios!". Também existe a variante da qual gosto mas menos: "Me cago en la puta virgen!"; ou a versão mais personalizada mas, para mim, muito menos importante: "Me cago en tu puta madre!" Mas existe por outro lado um elogio fabuloso, sim agora já é um elogio, que é: "Eres de puta madre cabrón!"
Mas falha não referir uma outra expressão que me impressiona pelo absurdo um pouco Monty Python mas mais rasqueiro: "Me suda la polla!" Que se pode também usar na sua forma abreviada: "Me la suda!". Que traduzindo literalmente seria: "O meu caralho sua!"; mas que se usa para dizer que "Não me importa!". Ou aproximando ao português de Portugal: "Me importa um caralho!"
RF
2004-11-18
 
Quais são as frases que são as tuas frases de predilecção?
Como o centro da frase é o silêncio e o centro deste silêncio
é a nascente da frase começo a pensar em tudo de vários modos

ETC. - Herberto Helder

Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo
Em mim

Coração Vagabundo - Caetano Veloso

Os pensamentos são as sombras dos nossos sentimentos, sempre mais obscuros, mais vazios e mais simples do que estes.
A Gaia Ciência - Nietzsche

Isso que comeis
Não são ervas não
São graças dos olhos
Do meu coração

Verdes São os Campos - Luís de Camões

RF
 
Bastilha, Tiananmen, Dashau e Gaza
Acabei de descubrir o importante que foi como fonte de inspiração a revolução francesa para os estudantes chineses que participaram e organizaram a manifestação da praça de Tiananmen em 1989. De certa forma é curioso porque a revolução francesa foi também uma fonte de inspiração fundamental para as revoluções comunistas russa e chinesa. E dá-nos uma pista do sintoma fundamental das traições políticas: é quando o passado que dizíamos nos inspirar é fonte de inspiração da nossa oposição.

O que horroriza aos apoiantes da política do Estado de Israel nas aproximações que os seus críticos fazem entre essa política e a política da Alemanha nazi contra os judeus, não será talvez a sensação desagradável que eles mesmos por vezes não podem evitar de que algo de um passado que eles consideram fundamental, tal como eu, está sendo traído pelos seus achegados e em alguns casos por eles mesmos? Uns se horrorizam com a comparação, outros fazem eles mesmos esta comparação como o Cohen dos anos 70 que escreveu um poema que "postei" mais abaixo. Outros, como Amos Oz, fugazmente transparecem uma tristeza mais profunda que o mar ao deixarem escapar em uma palavra dita e outra que não se disse, que eles também sabem em meio da sua procura de uma solução, que algo fundamental se rompeu, que se chegou demasiado cerca de uma linha que não havendo sido de maneira nenhuma alcançada deveria haver-se mantido muito mais afastada...

Eu sempre considerei e o afirmei, que o Holocausto nazi, os judeus mortos e os alemães que os mataram são parte do patrimônio trágico de toda a humanidade, e não somente dos judeus ou dos alemães. Em cada um de nós está este alemão que decide, organiza e executa um massacre absurdo e massivo. Em cada um de nós estará sempre este judeu que é humilhado, violado e morto como se nada. O escravo negro traficado e o português que o trafica. Provavelmente é a herança inevitável do cristianismo em que fui educado, ou talvez não, e seja uma sensação mais primária comum a todos os homens, independentemente da ênfase que cada cultura tenha dado a esta sensação.

Eu sou pacífico, não sou pacifista, e entendo a luta do povo israelita contra forças que ameaçam a sua existência. O que não entendo são as atrocidades que se fazem em nome desta luta e a facilidade com que alguns sendo algozes se querem apresentar como cordeiros. Não entendo os campos de concentração, tal como não entendo a bomba atômica em Hiroshima, o bombardeio de Dresden, os atentados a autocarros israelitas, ou os bombardeios de Gaza.

O horror que alguns sentem quando se fazem as comparações que Cohen faz, será talvez o horror que alguns descendentes de judeus mortos sentem ao imaginar que além dos seus antepassados também mora em sua casa, tal como na de todos nós, um pouco dos nazis que mataram a seus ancestrais? Por vezes, mais que pouco, o suficiente para que seja demasiado...
RF
2004-11-17
 
Terrorismo de Estado e o ponto de interrogação
Existe um conjunto totalmente respeitável de simpatizantes com o Estado de Israel e defensores da sua política contra a Palestina na blogosfera portuguesa. Em diversos posts aqui e ali nos blogs desta comunidade e em outros, mas também nos artículos, entrevistas e discursos da direita um pouco por todo o lado se põe constantemente em causa a acusação de terrorismo de estado ao governo de Israel. Se buscam definições um pouco estranhas do que é terrorismo e do que é terrorismo de estado, de modo a ilibar Israel desta acusação. Não referirei directamente nenhum em particular mas foi a leitura e escuta acumulada destes argumentos muito pouco consistentes, que me leva a explicar porquê considero que sim, que o estado de Israel pratica terrorismo de estado.

Em primeiro lugar não considero os assassinatos selectivos como actos de terrorismo. Mas quando se trata de bombardeamentos nada selectivos temos que considerar que, sim estamos perante actos de terrorismo de estado, sob pena de ilibarmos os atentados de terroristas palestinos de serem terrorismo. Ou como algures já li e ouvi, se considera que todos os terroristas têem que ser suicidas. Neste caso FP25, ETA, IRA, as brigadas vermelhas, e a maior parte dos atentados islâmicos, incluindo o de Madrid, não são tão pouco terrorismo. Esta é a parte mais óbvia mas existem outras...

Quando a casa de uma família de um terrorista palestino que acabou de cometer um atentado em Israel, é em seguida bombardeada e destruída, e no caso de ser um edificío de apartamentos, todo o edificío, do que é que estamos a falar? De castigos perfeitamente justificáveis? Eu penso que se trata de um caso claro de terrorismo de estado que visa (como penso define o que é o terrorismo seja suicida, assassino, ou não) a culpabilização colectiva de supostos crimes individuais. Em particular, o que se consegue é: alimentar a raiva do povo palestino; garantir a angariação de novos elementos para futuros atentados; "justificar" a posteriori os atentados; garantir que a demanda de ser-se um terrorista suicida, ou mesmo formar um grupo terrorista, seja de tal ordem, que impossibilita qualquer forma de liderança concentrada do movimento palestino, e invalida todas as críticas a passadas, presentes ou futuras lideranças palestinas, por serem fracas. Eu creio que é precisamente isto que uma parte do governo de Israel, e em geral me refiro as gentes do Likud, buscam com essa política. O seu objectivo não é necessáriamente facilitar a situação em busca de uma solução, mas alimentar e suportar o terrorismo palestino até que seja possível ter a solução que buscam, depois de conseguir-se que as exigências políticas palestinas se reduzam ao minímo absoluto da sobrevivência. Não se trata de culpabilizar a vítima, mas precisamente de racionalizar uma política que tanto ou mais que imoral é a primeira vista absurda. E continua absurda precisamente porque eu não penso, tal como muitos israelitas que não votam ao Likud tão pouco o pensam, que esta política venha a surtir os resultados esperados.

Me lembro agora do caso recente do atentado terrorista por parte de um adolescente palestino de 16 anos, a sua família destroçada atacou duramente os responsáveis terroristas palestinos pela morte de seu filho. Como sempre o exército israelita detruiu pouco depois a casa desta família. Eu só sou capaz de entender isto como sendo a demonstração que o objectivo imediato de Sharon e do Likud não é o fim do terrorismo palestino. Pelo contrário, em termos imediatos eles ajudam a manter este terrorismo. O objectivo final de Israel será sempre, para estas pessoas, reduzir as forças econômicas, sociais, políticas e anímicas em Palestina ao grau mais baixo possível, para crear o cenário ideal para o "diálogo definitivo" final.

Por isso em minha opinião, as críticas a Arafat por parte dos responsáveis do Likud é absolutamente inválida, já que com Arafat o diálogo foi possível, com o Likud, pelo contrário não. Mas sempre houve, é claro, a intenção por parte do Likud israelita de apresentar Arafat como a causa do fracasso dos processos de paz. Poderia ser de outra forma? Esta opinião é a minha, mas é também a de muitas pessoas da esquerda israelita.

Finalmente voltando ao terrorismo de estado se bem que nunca de lá tenhamos saído. Um exemplo comum, mais ou menos recente, utilizado de terrorismo de estado num país democrático (tal como Israel) é o da Espanha socialista dos GAL. Ora bem, do que se tratava era de assassinatos e torturas selectivas de suspeitos de terrorismo etarras. Algo que para todos os efeitos ocorreu e provavelmente ainda ocorre (no caso das torturas, já que os assassinatos são óvios) em Israel de modo ainda mais descarado, se cabe dizer-lo...

Por isso tudo a acusação de terrorismo de estado a Israel é muito mais fundamentável do que alguns querem fazer crer. E perdão para aqueles a quem tudo isso soou a óbvio. Mas cada vez mais a história recente demonstra que não devemos deixar de dizer o óbvio sob pena de que outros apresentem o mundo de pernas para o ar.
RF
2004-11-16
 
Now he is!


Ele se aproxima e percebe que o "filho da puta" apenas está fingindo estar vivo, bom soldado, ele levanta o rifle e dispara: "Now he is!", diz ele na língua do poder.
Desta vez foi filmado pela NBC, e o governo americano diz que o caso está sendo investigado. Mas quantas vezes isto terá passado sem que ninguém filmasse?
Como se não bastasse a crueldade metálica das "bombas inteligentes", prova-se uma vez mais que esta "inteligência" também está nestes adolescentes obscenamente violentos. Mas o governo dirá que é apenas um caso isolado, que não se pode misturar e culpar a todo um exército cheio de "bons soldados". Mas quem tenha visto reportagens sobre o exército americano, e sua ocupação no Iraque, sabe que tipo de música os seus chefes lhes põem nos ouvidos, literalmente falando, quando começam os tiros.
A guerra é uma coisa maravilhosa porque te permite dar utilidade a todo o lixo que a porcaria de uma sociedade desigual, violenta e analfabeta produz. No caminho uns quantos morrem, mas era gente que "tão pouco iria servir para nada". Talvez se trate apenas do mesmo eterno "lixo reminiscente" necessário para que o sistema funcione. Como a taxa de desemprego necessária para o dinamismo da economia... e não se trata de uma comparação disparatada.
Pena, que o infeliz não soubesse fingir suficientemente bem... Melhor que todos os habitantes de países em risco de serem invadidos por tropas americanas comecem a ter classes de representação na arte de fingirem estar mortos. "Or they will be!"
RF
2004-11-15
 
Um pedaço de texto "antigo"...
La fantasía del Gran Israel no nació entre los judíos ortodoxos ni entre los ultraortodoxos. Los ortodoxos la abrazaron en 1967 debido a una absurda asociación entre el auténtico carácter judío y unas fronteras más amplias. El origen del Gran Israel está en el partido Likud y sus predecesores históricos (nacionalistas judíos seculares). Es probable que la ironía de la historia predestine al Likud a liberar a los israelíes de esta fantasía, lo mismo que pasó cuando Menájem Beguin renunció a Sinaí por la paz con Egipto en 1977.Benjamín Netanyahu ha derrotado a Simón Peres por un margen inferior al 1% (unos 30.000 votos). Esto ha ocurrido, entre otras razones, porque durante 20 años la extrema derecha israelí ha estado tachando a Peres y a todo el movimiento por la paz de amantes de los árabes y de traidores, y hasta ha llegado a difundir el rumor de que Peres tiene una "madre árabe". En la pasada campaña electoral, el Likud utilizó fotografías de un Arafat con pinta de malvado estrechando la mano a un Peres con aspecto desconcertado. Efectivamente, el estilo y la apariencia de Arafat ha sido una de las ventajas más efectivas del Likud. Si los palestinos tuvieran un líder de aspecto respetable, con traje y corbata como es debido, y con un aire de comprensivo médico de familia, habría sido mucho más difícil intimidar a la opinión pública israelí con la idea de que Rabin y Peres habían vendido su alma a un peligroso gánster. De hecho, la presentación que de Arafat ha hecho la derecha israelí con frecuencia se parecía a la imagen del judío de las caricaturas antisemitas. Pero, a partir de ahora, Netanyahu tendrá sus propias fotografías dando la mano al monstruo. No le quedará más remedio que exorcizar a Arafat. Me temo que algunos israelíes fogosos no tardarán mucho en proporcionar a Netanyahu una "madre árabe".
(Amos Oz - El Pais - 1996)

Quem é o Goebbels de Sharon? E porque só se fala das manchas de sangue em uma mãos e em outras não?
RF
 
QUESTIONS FOR SHOMRIM
And will my people build a new Dachau
And call it Love,
Security,
Jewish culture For dark-eyed children
Burning in the stars
Will all our songs screech
Like the maddened eagles of the night
Until Yiddish, Arabic, Hebrew, and Vietnamese
Are a thin thread of blood clawing up the side of
Unspeaking steel chambers

I know you, Chaverim
The lost young summer nights of our childhood
We spent on street corners looking for life
In our scanty drops of Marx and Borochov.
You taught me the Italian Symphony
And the New World
And gave a skit about blowing up Arab children.

You taught me many songs
But none so sad
As napalm falling slowly in the dark

You were our singing heroes in '48
But do you dare ask yourselves what you are now?

We, you and I, were lovers once
As only wild nights of wrestling in golden snow
Can make one love
We hiked by moonlight
And you asked me to lead the Internationale

And now my son must die
For he's an Arab
And my mother, too, for she's a Jew

And you and I
Can only cry,
And wonder

Must Jewish people
Build our Dachaus, too?

Leonard Cohen

RF
2004-11-09
 
A invasão que vem de dentro III
Leiam Gore.
RF
2004-11-06
 
A invasão que vem de dentro II

Li isto em um artículo da "Folha de São Paulo" de Kennedy Alencar ("adoro nomes/.../nomes de nomes como/Scarlet Moon Chevalier/Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé e/Maria da Fé/" e poderíamos juntar a canção de Caetano este "nome de nomes" novo: Kennedy Alencar).

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva julgou mais vantojoso para o Brasil a reeleição de Bush. Antes da eleição, o brasileiro chegou a dizer em conversas reservadas que o republicano era "melhor" para o Brasil do que o democrata.

O Kennedy Alencar depois deste páragrafo acha estranho esta preferência de Lula. Mas a verdade é que é muito fácilmente descifrável. Acontece que graças a política de Bush o ter levado a duas ocupações militares importantes no Médio Oriente (Afeganistão e principalmente Iraque) descobriu-se que o que já se desconfiava que Estados Unidos não possui actualmente em condições normais (sem recorrer ao serviço militar obrigatório nomeadamente) somente com a ajuda de alguns países (sendo claro, somente com a ajuda de Inglaterra) de enfrentar-se com sucesso e eficiência a mais de um cenário importante de guerra ou ocupação em simultâneo. Entre outras coisas ter tornado isto evidente provocará danos na política externa americana gravíssimos, e já está provocando danos relativamente importantes. Nomeadamente no Haiti, que havendo pertencido sempre a esfera de influência americana, tem a sua ocupação por tropas internacionais dirigida por tropas brasileiras. Como quem não quer a coisa Lula, graças a ser Bush o presidente americano, conseguiu uma evidência a título de política exterior na América do Sul, e não só, que é para todos os efeitos novidade na história do Brasil.
Mas mais que isso, o facto de estar Bush na presidência dos Estados Unidos desperta anticorpos na população européia que facilitam o trabalho dos partidos de esquerda europeus para chegarem ou manterem-se no poder, o que termina por abrir mais canais accesso a Lula no diálogo com Europa, determinante para a política de duplo amante do Brasil com a Europa e Estados Unidos, e que visa libertar na medida do possível a economia brasileira da dominação pelo gigante americano.
O pensamento de Lula é assim muito mais facilmente descodificável do que pensa o amigo Kennedy Alencar. Mesmo porque quando ele refere que nunca chegaram as prometidas ajudas pela mão do presidente Bush, se esquece que nada garantiria que essas chegassem pela mão de um hipotético presidente Kerry...
RF
2004-11-05
 
Quando a invasão dos bárbaros vem de dentro
Bush reeleito. Reeleito com o voto dos cristãos fundamentalistas americanos graças a ajuda de um maquiavelicamente genial Karl Rove. Reeleito com o voto dos analfabetos brancos de Texas e de outras partes. Reeleito com o voto daqueles que admiram o discurso simplista, de preferência com enfoque em palavras com fundo religioso e moralista. Reeleito com o voto de mais de metade do povo americano, porque mais de metade do povo americano é basicamente ignorante, superficial, moralista e "profundamente cristão". Bush que despreza a cultura inútil dos europeus. Bush que nunca foi competente a fazer nada a não ser em dirigir durante um curto período de tempo um clube de baseball. Bush que chegou onde chegou por ser filho de quem é. Bush que ganhou a sua primeira eleição de forma dúbia segundo os parâmetros democráticos americanos, e ilegal segundo qualquer conceito honesto de democracia. Bush que terminou um mandato orgulhoso de disparar o déficit de modo claramente irresponsável para com a economia do seu próprio país. Bush que começa os seus discursos falando largamente sobre as qualidades de sua esposa...
Este retrato não é o de um candidato eleito da América Latina, mas do país mais poderoso do mundo. E se parece o retrato de um candidato sul americano, é porquê a sociedade americana é desde muitos aspectos extremamente semelhante ás sociedades latino americanas. Na base religiosa do seu eleitorado, na falta de cultura deste mesmo eleitorado, na fascinação pelas dinastias e grandes famílias, na enorme inconsciência sobre o mundo exterior e outras culturas e histórias. Nestas sociedades há comida para lobos, e os sem escrúpulos têem três olhos em terras de cegos e vesgos.
Bush é um reflexo e não o único. Kerry e todos os candidatos democratas e republicanos do passado político recente norte-americano são obrigados a colocar as suas esposas, filhos, filhas, sobrinhos, pais e tios a discursar. Porque o povo não quer ouvir falar de políticas aborrecidas, quer apenas outra telenovela "made in Washington". Não se preocupa tanto que existam indicios graves de corrupção moral profunda do executivo americano: por manipulação dos serviços secretos e de informação em geral, e eventualmente dos seus próprios votos. Preocupa-se mais com que não seja descuidado ao ejacular-se no vestido de suas secretárias. Por isso, começa a crear já uma tradição de transformar a sua política como um prolongamento de Hollywood.
A economia americana é sem dúvida nenhuma mais robusta que a economia de um qualquer país sul americano para garantir que esta história dificilmente termine igual que em uma Argentina. Mas essa economia sofrirá de qualquer forma e o seu poder político já está sofrendo. Porque a maior evidência da necessidade do multilaterismo foi dado pelo fracasso do unilateralismo. Tudo isso pouco a pouco foi facilitando e seguirá facilitando a vida de outras partes do mundo, de maneira que possam se agigantar, incialmente, somente em termos políticos (como seria o caso de Europa se não perde esta oportunidade) mas finalmente também em termos economicos como será o caso já provavelmente inevitável de China.
As próprias causas dessa cada vez mais evidente decadência são as únicas e verdadeiras causas do júbilo por essa decadência. Afinal, não foi o próprio multimilionário Soros quem avisou que se Bush ganhasse a comunidade internacional teria razão em ser anti-americana? Pois... Bush ganhou.
RF

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