Estrangeiros no momento
2004-11-18
 
Bastilha, Tiananmen, Dashau e Gaza
Acabei de descubrir o importante que foi como fonte de inspiração a revolução francesa para os estudantes chineses que participaram e organizaram a manifestação da praça de Tiananmen em 1989. De certa forma é curioso porque a revolução francesa foi também uma fonte de inspiração fundamental para as revoluções comunistas russa e chinesa. E dá-nos uma pista do sintoma fundamental das traições políticas: é quando o passado que dizíamos nos inspirar é fonte de inspiração da nossa oposição.

O que horroriza aos apoiantes da política do Estado de Israel nas aproximações que os seus críticos fazem entre essa política e a política da Alemanha nazi contra os judeus, não será talvez a sensação desagradável que eles mesmos por vezes não podem evitar de que algo de um passado que eles consideram fundamental, tal como eu, está sendo traído pelos seus achegados e em alguns casos por eles mesmos? Uns se horrorizam com a comparação, outros fazem eles mesmos esta comparação como o Cohen dos anos 70 que escreveu um poema que "postei" mais abaixo. Outros, como Amos Oz, fugazmente transparecem uma tristeza mais profunda que o mar ao deixarem escapar em uma palavra dita e outra que não se disse, que eles também sabem em meio da sua procura de uma solução, que algo fundamental se rompeu, que se chegou demasiado cerca de uma linha que não havendo sido de maneira nenhuma alcançada deveria haver-se mantido muito mais afastada...

Eu sempre considerei e o afirmei, que o Holocausto nazi, os judeus mortos e os alemães que os mataram são parte do patrimônio trágico de toda a humanidade, e não somente dos judeus ou dos alemães. Em cada um de nós está este alemão que decide, organiza e executa um massacre absurdo e massivo. Em cada um de nós estará sempre este judeu que é humilhado, violado e morto como se nada. O escravo negro traficado e o português que o trafica. Provavelmente é a herança inevitável do cristianismo em que fui educado, ou talvez não, e seja uma sensação mais primária comum a todos os homens, independentemente da ênfase que cada cultura tenha dado a esta sensação.

Eu sou pacífico, não sou pacifista, e entendo a luta do povo israelita contra forças que ameaçam a sua existência. O que não entendo são as atrocidades que se fazem em nome desta luta e a facilidade com que alguns sendo algozes se querem apresentar como cordeiros. Não entendo os campos de concentração, tal como não entendo a bomba atômica em Hiroshima, o bombardeio de Dresden, os atentados a autocarros israelitas, ou os bombardeios de Gaza.

O horror que alguns sentem quando se fazem as comparações que Cohen faz, será talvez o horror que alguns descendentes de judeus mortos sentem ao imaginar que além dos seus antepassados também mora em sua casa, tal como na de todos nós, um pouco dos nazis que mataram a seus ancestrais? Por vezes, mais que pouco, o suficiente para que seja demasiado...
RF

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