Estrangeiros no momento
2004-11-21
 
A noite dos cristais partidos de Holanda
Em Holanda o assassinato de Theo van Gogh despertou o ódio contra a população muçulmana magrebina, reflectindo-se numa série de ataques a emigrantes, mesquitas, etc, sintomas de uma histeria colectiva totalmente desproporcionada com o que supostamente a causou: o assassinato de uma pessoa a mãos de um radical muçulmano.
Em Espanha um atentado de grande escala perpetrado por um grupo terrorista organizado não provocou nada de parecido. E pelo menos em Madrid emigrantes magrebinos e suas mesquitas, casas e escolas estão um pouco por todo lado.
Será que os espanhóis são melhores cidadãos que os holandeses? Não creio. As causas destes ataques de ódio é que não estão relacionadas de nenhuma forma com o terrorismo. O terrorismo é pura e simplesmente a desculpa ideal que grupos e sentimentos de ódio contra a grande percentagem de emigrantes em Holanda, grupos e sentimentos que já existem desde muito antes do assassinato de Theo van Gogh, encontraram para justificarem a manifestação explícita dos seus ódios.
É conhecido o caso de uma população do sul de Espanha em que o cenário de Holanda se repetia em termos micro, e onde um caso de violência contra um espanhol a mãos de um emigrante marroquino despoletou uma autêntica caça ao homem contra todos os emigrantes marroquinos do lugar. Não se tratava neste caso de terrorismo mas do mesmo ódio contra o que vem de fora.
Mas o caso mais famoso será o que ocorreu em novembro de 1938 em Alemanha. Também se utilizou por parte dos nazis, o assassinato de um diplomático alemão em Paris a mãos de um jovem judeu, para justificar que todas as sinagogas judias fossem queimadas, os escaparates de lojas propriedade de judeus partidos, e milhares de judeus presos. Chamaram-no de a "noite dos cristais partidos".
O terrorismo muçulmano, parece ser cada vez mais óbvio, se tornará na causa ideal dos ataques racistas que correm o risco de começar a ocorrer em vários países europeus com grande percentagem de emigração muçulmana e de norte de África: Holanda, mas também França e Alemanha, e um dia talvez inclusive Espanha.
Por isso, que cada cidadão europeu que tenta justificar os ataques em Holanda contra muçulmanos como baseado no medo "compreensível" contra ataques terroristas muçulmanos, corre o sério risco de poder ser compreensivelmente identificado com um defensor dos nazis que queimaram e destruiram as sinagogas e lojas judias numa noite de Outono há mais de meio século atrás.
RF

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