Estrangeiros no momento
2004-11-05
 
Quando a invasão dos bárbaros vem de dentro
Bush reeleito. Reeleito com o voto dos cristãos fundamentalistas americanos graças a ajuda de um maquiavelicamente genial Karl Rove. Reeleito com o voto dos analfabetos brancos de Texas e de outras partes. Reeleito com o voto daqueles que admiram o discurso simplista, de preferência com enfoque em palavras com fundo religioso e moralista. Reeleito com o voto de mais de metade do povo americano, porque mais de metade do povo americano é basicamente ignorante, superficial, moralista e "profundamente cristão". Bush que despreza a cultura inútil dos europeus. Bush que nunca foi competente a fazer nada a não ser em dirigir durante um curto período de tempo um clube de baseball. Bush que chegou onde chegou por ser filho de quem é. Bush que ganhou a sua primeira eleição de forma dúbia segundo os parâmetros democráticos americanos, e ilegal segundo qualquer conceito honesto de democracia. Bush que terminou um mandato orgulhoso de disparar o déficit de modo claramente irresponsável para com a economia do seu próprio país. Bush que começa os seus discursos falando largamente sobre as qualidades de sua esposa...
Este retrato não é o de um candidato eleito da América Latina, mas do país mais poderoso do mundo. E se parece o retrato de um candidato sul americano, é porquê a sociedade americana é desde muitos aspectos extremamente semelhante ás sociedades latino americanas. Na base religiosa do seu eleitorado, na falta de cultura deste mesmo eleitorado, na fascinação pelas dinastias e grandes famílias, na enorme inconsciência sobre o mundo exterior e outras culturas e histórias. Nestas sociedades há comida para lobos, e os sem escrúpulos têem três olhos em terras de cegos e vesgos.
Bush é um reflexo e não o único. Kerry e todos os candidatos democratas e republicanos do passado político recente norte-americano são obrigados a colocar as suas esposas, filhos, filhas, sobrinhos, pais e tios a discursar. Porque o povo não quer ouvir falar de políticas aborrecidas, quer apenas outra telenovela "made in Washington". Não se preocupa tanto que existam indicios graves de corrupção moral profunda do executivo americano: por manipulação dos serviços secretos e de informação em geral, e eventualmente dos seus próprios votos. Preocupa-se mais com que não seja descuidado ao ejacular-se no vestido de suas secretárias. Por isso, começa a crear já uma tradição de transformar a sua política como um prolongamento de Hollywood.
A economia americana é sem dúvida nenhuma mais robusta que a economia de um qualquer país sul americano para garantir que esta história dificilmente termine igual que em uma Argentina. Mas essa economia sofrirá de qualquer forma e o seu poder político já está sofrendo. Porque a maior evidência da necessidade do multilaterismo foi dado pelo fracasso do unilateralismo. Tudo isso pouco a pouco foi facilitando e seguirá facilitando a vida de outras partes do mundo, de maneira que possam se agigantar, incialmente, somente em termos políticos (como seria o caso de Europa se não perde esta oportunidade) mas finalmente também em termos economicos como será o caso já provavelmente inevitável de China.
As próprias causas dessa cada vez mais evidente decadência são as únicas e verdadeiras causas do júbilo por essa decadência. Afinal, não foi o próprio multimilionário Soros quem avisou que se Bush ganhasse a comunidade internacional teria razão em ser anti-americana? Pois... Bush ganhou.
RF

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