Estrangeiros no momento
2004-11-28
 
Ser o sujeito da anedota
Escrevo este post inspirado por este texto de David Grossmann na Rua da Judiaria, e mais particularmente, por este troço de texto:
Um estranho em relação a situações humanas em que se forma um colectivo de qualquer espécie, composto por muitos que falam (ou urram) com uma voz única; um estranho com uma leve suspeita sobre o que torna aquele colectivo possível; com a solidão que toma conta do indivíduo na presença de um colectivo daqueles, mesmo que ele não queira – ou seja incapaz – de fazer parte dele; com o sentido de singularidade que acompanha aquela solidão; com aquela marca (não inteiramente compreensível) de orgulho que acompanha estes sentimentos, afligido incessantemente pelo facto dessa singularidade colocar uma barreira invisível, mas real, entre ele e os outros; com o constante cepticismo que repousa dentro desses sentimentos, porque frequentemente parece que estes sentimentos não são mais do que uma crosta formada sobre a ferida da solidão(...)
Eu me senti identificado com o Grossmann, uma identificação um pouco desajeitada, por que não sinto a tragédia de ser-se estranho na mesma amplitude que a descrita por Grossmann. Esta amplitude de tragédia vem de uma parte em que a minha memória familiar se distancia da de um judeu israelita como Grossmann. Mas existe uma identificação ainda assim.
Serei judeu? Talvez não seja de todo improvável que algo de sangue judeu ibérico me corra nas veias, mas não será por isso que me identifico com o seu texto. Apenas acontece que a sensação de estranheza descrita por Grossmann é basicamente universal e não advém de ser-se judeu mais do que advém de ser-se nômada, ou advém de ser-se judeu na medida, e naqueles muitos casos, em que ser um judeu é ser um nômada.
No meu caso sei que a chave da minha estranheza começa muito antes da minha consciência de ser-lo, na medida que já era um estrangeiro muito antes de ser consciente de qualquer coisa que seja. Esta estranheza tem para mim originalmente a forma pouco dramática de uma anedota de brasileiros sobre portugueses, de uma pergunta inocente feita por um familiar para um menino, que sou eu, sobre quem era: português, angolano ou brasileiro? E a completa ausência de certezas na cabeça deste menino a não ser a de que qualquer reposta que desse não seria sincera.
Mais tarde, depois de voltar a Portugal (de onde não me lembrava de ter chegado vindo de Angola, nem de ter saído a caminho de Brasil) descobri que em Portugal me chamariam de brazuca, e ironia das ironias, também existiriam anedotas sobre brasileiros para serem contadas a mim já que "era mais um". Mais tarde, e agora sim por minha própria iniciativa, iria para Espanha, onde finalmente "voltei a ser português", e voltaria a ouvir exercícios ingênuos de complexos de superioridade (agora castelhanos e não brasileiros) sobre Portugal e os portugueses.
É preciso dizer também que algumas poucas mas agradáveis vezes a minha situação de estrangeiro foi valorizada. Em particular, me lembro com uma quase nostalgia o período de um ano que passei no norte de Portugal, em Amarante, onde as meninas queriam "todas" falar comigo, o que me provocava uma sensação a meio caminho entre ser um playboy e um macaco no zoológico...
De qualquer forma me acostumei durante todo este período a defender primeiro os portugueses no Brasil, depois os brasileiros em Portugal, depois, ainda insatisfeito, os portugueses e os brasileiros em Espanha... E nas minhas idas regulares a Portugal agora descubro-me obrigado a defender brasileiros e espanhóis...
Provavelmente seja esta a minha principal diferença em relação ao sentimento de estranheza judaico que descreve Grossmann: é que sendo sempre estrangeiro sou sempre ainda que por um lapso de alguns instantes de alguma parte que não é onde estou agora. Provavelmente, por isso, é que Israel é sem dúvida tão importante para todos os judeus mesmo que em diáspora: para que sendo sempre, onde quer que estejam, estranhos, não deixem ainda assim de ser de alguma parte... Já que nós, europeus, não deixámos que o milagre hebraico de não ser-se de nenhum lado tivesse um final feliz.
RF

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