Estrangeiros no momento
2004-11-17
 
Terrorismo de Estado e o ponto de interrogação
Existe um conjunto totalmente respeitável de simpatizantes com o Estado de Israel e defensores da sua política contra a Palestina na blogosfera portuguesa. Em diversos posts aqui e ali nos blogs desta comunidade e em outros, mas também nos artículos, entrevistas e discursos da direita um pouco por todo o lado se põe constantemente em causa a acusação de terrorismo de estado ao governo de Israel. Se buscam definições um pouco estranhas do que é terrorismo e do que é terrorismo de estado, de modo a ilibar Israel desta acusação. Não referirei directamente nenhum em particular mas foi a leitura e escuta acumulada destes argumentos muito pouco consistentes, que me leva a explicar porquê considero que sim, que o estado de Israel pratica terrorismo de estado.

Em primeiro lugar não considero os assassinatos selectivos como actos de terrorismo. Mas quando se trata de bombardeamentos nada selectivos temos que considerar que, sim estamos perante actos de terrorismo de estado, sob pena de ilibarmos os atentados de terroristas palestinos de serem terrorismo. Ou como algures já li e ouvi, se considera que todos os terroristas têem que ser suicidas. Neste caso FP25, ETA, IRA, as brigadas vermelhas, e a maior parte dos atentados islâmicos, incluindo o de Madrid, não são tão pouco terrorismo. Esta é a parte mais óbvia mas existem outras...

Quando a casa de uma família de um terrorista palestino que acabou de cometer um atentado em Israel, é em seguida bombardeada e destruída, e no caso de ser um edificío de apartamentos, todo o edificío, do que é que estamos a falar? De castigos perfeitamente justificáveis? Eu penso que se trata de um caso claro de terrorismo de estado que visa (como penso define o que é o terrorismo seja suicida, assassino, ou não) a culpabilização colectiva de supostos crimes individuais. Em particular, o que se consegue é: alimentar a raiva do povo palestino; garantir a angariação de novos elementos para futuros atentados; "justificar" a posteriori os atentados; garantir que a demanda de ser-se um terrorista suicida, ou mesmo formar um grupo terrorista, seja de tal ordem, que impossibilita qualquer forma de liderança concentrada do movimento palestino, e invalida todas as críticas a passadas, presentes ou futuras lideranças palestinas, por serem fracas. Eu creio que é precisamente isto que uma parte do governo de Israel, e em geral me refiro as gentes do Likud, buscam com essa política. O seu objectivo não é necessáriamente facilitar a situação em busca de uma solução, mas alimentar e suportar o terrorismo palestino até que seja possível ter a solução que buscam, depois de conseguir-se que as exigências políticas palestinas se reduzam ao minímo absoluto da sobrevivência. Não se trata de culpabilizar a vítima, mas precisamente de racionalizar uma política que tanto ou mais que imoral é a primeira vista absurda. E continua absurda precisamente porque eu não penso, tal como muitos israelitas que não votam ao Likud tão pouco o pensam, que esta política venha a surtir os resultados esperados.

Me lembro agora do caso recente do atentado terrorista por parte de um adolescente palestino de 16 anos, a sua família destroçada atacou duramente os responsáveis terroristas palestinos pela morte de seu filho. Como sempre o exército israelita detruiu pouco depois a casa desta família. Eu só sou capaz de entender isto como sendo a demonstração que o objectivo imediato de Sharon e do Likud não é o fim do terrorismo palestino. Pelo contrário, em termos imediatos eles ajudam a manter este terrorismo. O objectivo final de Israel será sempre, para estas pessoas, reduzir as forças econômicas, sociais, políticas e anímicas em Palestina ao grau mais baixo possível, para crear o cenário ideal para o "diálogo definitivo" final.

Por isso em minha opinião, as críticas a Arafat por parte dos responsáveis do Likud é absolutamente inválida, já que com Arafat o diálogo foi possível, com o Likud, pelo contrário não. Mas sempre houve, é claro, a intenção por parte do Likud israelita de apresentar Arafat como a causa do fracasso dos processos de paz. Poderia ser de outra forma? Esta opinião é a minha, mas é também a de muitas pessoas da esquerda israelita.

Finalmente voltando ao terrorismo de estado se bem que nunca de lá tenhamos saído. Um exemplo comum, mais ou menos recente, utilizado de terrorismo de estado num país democrático (tal como Israel) é o da Espanha socialista dos GAL. Ora bem, do que se tratava era de assassinatos e torturas selectivas de suspeitos de terrorismo etarras. Algo que para todos os efeitos ocorreu e provavelmente ainda ocorre (no caso das torturas, já que os assassinatos são óvios) em Israel de modo ainda mais descarado, se cabe dizer-lo...

Por isso tudo a acusação de terrorismo de estado a Israel é muito mais fundamentável do que alguns querem fazer crer. E perdão para aqueles a quem tudo isso soou a óbvio. Mas cada vez mais a história recente demonstra que não devemos deixar de dizer o óbvio sob pena de que outros apresentem o mundo de pernas para o ar.
RF

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