Estrangeiros no momento
2004-12-17
 
Lars Von Trier
Revendo Dogville de Lars Von Trier voltou a me assaltar a dúvida: porquê raios não termino de realmente gostar, e somente apreciar, o cinema dele?
Existe uma excepção: "Os Idiotas", do qual realmente gosto. E lhe reconheço o gênio na desmontagem das técnicas, dos limites da artesania da coisa. Mas gostar-gostar, não gosto.
Existe uma ingenuidade do pensamento de Trier que não termina nunca de casar com a pretensiosidade dos temas, e do tratamento destes temas, que invoca para a sua obra. E provavelmente gosto de "Os Idiotas" porque é a obra, creio que mais instintiva, e menos reflexiva, do senhor. O que prova que é no caminho do instinto á reflexão que Trier se perde, ou melhor, se torna mais medíocre.
É a mediocridade da reflexão de Trier que não combina com a pretensão reflexiva da sua obra.
A combinação de pensador e artista é raramente feliz, e é o melhor caminho para que um artista com talento desperdice este mesmo talento. Claro que os que são felizes ao tentar-lo ganham o reino dos céus. Mas pensando bem, também é verdade que realmente em todos os casos em que penso, eles nunca se esquecem de que a sua reflexão só é válida como instinto, como arte, e de uma maneira ou de outra tornam isto claro na sua obra. Penso em Musil, em Gombrowicz, em Kundera. Todos de literatura, ninguém do cinema. Mesmo o Bergman mais interessante é o mais instintivo.
Mas isto de que quem exercita o seu instinto escrevendo alcance mais facilmente com sucesso, mesmo que por apenas um pequeno lapso de tempo, o outro lado do rio, do que quem o faz vendo, faz provavelmente parte do estado natural de todas as coisas.
Dito isto continuarei vendo Lars Von Trier porque aprecio.
RF

 
Quem são? De onde vem essa gente?
Essa gente que aparece na televisão dando aos sinos ao fechar as grandes bolsas mundiais. O Dow Jones. Tão contentes, histericamente felizes, suados, meio loucos. Essa gente me intriga. São sempre os mesmos? Sempre tão felizes todos os dias? Fazem tanto dinheiro todos os dias, uns detrás dos outros? Estão contentes pelo fim do dia de trabalho e de poderem ir para casa? São yuppies embriagados em coca? Lhes pagam para parecerem assim, doidamente felizes? Andaram trabalhando ou bebendo? É pura alegria infantil de aparecer na televisão? Quem são? De onde vem essa gente?
RF
2004-12-16
 
Quem é mais Europa?
Para os que em geral desde a direita portuguesa dizem que a ampliação da Europa até a Turquia a leva mais para lá daquilo que são as suas fronteiras naturais, geográficas, culturais, blá, blá, e que isso põe em causa o projecto europeu, a sua cultura, a sua estabilidade, blá, blá, blá: A Turquia é históricamente mais Europa que Portugal.
Portugal apenas esteve cerca do centro e do motor histórico europeu durante dois séculos mais ou menos por volta do Renascimento. A Turquia foi sempre estando desde dos gregos até o século passado.
Pelo território da Turquia (e em particular pela sua capital cultural Istambul) passou metade do que foi importante na história da Europa: gregos (Istambul na verdade teve 4 nomes e não 3: os ingleses distinguem isso chamando Bizantion grega e Bizantium latina), romanos (Lisboa por exemplo nunca foi uma capital do império romano), passou por ela e desde ela a Igreja Ortodoxa e a definição de boa parte daquilo que hoje vemos nos estados europeus eslavos e em Grécia, incluindo o alfabeto russo que é uma invenção turca, passou por ela a economia europeia medieval (a "moeda turca" de Constantinopla é chamada de dólar medieval), o império otomano, a perseguição de gregos e armênios (e a tragédia do genocídio destes últimos que inspirou a Hitler no seu Holocausto), a primeira e a segunda guerra mundial. A história turca anda sempre á volta de guerras européias, e toca Ásia pouco mais que a história europeia em geral a toca.
Assim que a intenção de isolar Turquia fora de Europa é a intenção de isolar Europa no cristianismo, no anti-islamismo. É infundada e pura xenofobia, seja ela cultural, racial ou econômica (como diz o Caetano "quase pretos de tão pobres"). O medo pela dimensão do país não se justifica numa Europa que teve a coragem política de expandir-se a Leste. E existiam tantas ou mais razões políticas e geo-estratégicas para o alargamento a Turquia como para o Leste europeu.
Outra coisa é que Turquia tem um caminho e os anos suficientes para o fazer na tarefa de completar as suas reformas em termos de liberdades civis. Quem estará aqui em 2020 para ver?
RF

 
Como começa uma ditadura
Chavez dá os primeiros passos para transformar a Venezuela em uma ditadura. Todos os países europeus e sul americanos que desautorizaram o último golpe de estado antidemocrático (que os governos norte americano de Bush e o espanhol da altura de Aznar tentaram antidemocraticamente justificar) devem por coerência chamar a atenção para o que de grave parece estar ocorrendo em Venezuela nos últimos tempos.
Ler a carta de protesto do CPJ contra a política de restricção da liberdade de imprensa do governo Chavez.
RF
 
Caballero de fina estampa
Para mostrar a enorme graça pessoal que o senhor dos versos do post em baixo tem, vou presentear-vos com trechos de uma entrevista de alguns meses que Javier Menéndez Flores lhe fez em Interviú (uma boa "revista espanhola de mulheres peladas" onde ele começou a ter uma coluna). A pessoa pública de Sabina encerra para mim a elegância e a graciosidade de alguns velhos espanhóis herdeiros de algo que outros não conseguiram matar totalmente no espírito deste país.

—Tú eres una persona muy influyente y querida. ¿Qué te ha empujado a hacerte con una tribuna en prensa escrita y por qué interviú?
—Hacía mucho tiempo que quería hacerlo. Siempre pensé en un lugar en donde pudiera opinar, y siempre en prosa. Y resulta que, por un lado, la prosa me cuesta muchísimo trabajo, y por otro, que se ha perdido la tradición que había, tan hermosa, de escribir versos satíricos en prensa, y que cultivaron casi todos los grandes. Me parecía un momento estupendo, con la que está cayendo, para hacer en sonetos, coplas, o lo que sea, una especie de crónica, sin perder rigor literario pero bajando lo más a ras del suelo posible. ¿Por qué interviú? Por Savater, por ti, por Millás, por las tetas [risas]. En orden contrario [más risas]. Y por Vázquez Montalbán...

—¿Crees que se van a incrementar las ventas de la revista con tu fichaje, y que los lectores habituales de interviú van a comulgar con tu firma y discurso?
—Creo que van a seguir haciéndose pajas con las tetas y limpiándose el culo con los sonetos [risas prolongadas].

—Entremos en política. Parada obligada: el anuncio inesperado, por pronto, de la retirada de las tropas españolas de Irak.
—No sólo por pronto, sino porque uno está acostumbrado a que nunca se haga lo que se promete en campaña electoral. Pocas veces siente uno estar en el centro del fuego de la Historia. Creo que estamos viviendo un momento de aceleración histórica muy interesante. Hay una gente que cumplió su palabra y además lo ha hecho lo más aprisa posible, que tiene eso que le llaman un talante conciliador en un momento en el que parecía que las dos Españas iban a liarse a garrotazos otra vez, como en el cuadro de Goya. Luego nos defraudará Zapatero, como es su obligación no, como es su oficio, pero, bueno, para eso tendremos unos sonetos para ‘cagarnos en la madre que lo parió’.

—He leído hace unas horas, en los servicios de una taberna cercana a tu casa, la siguiente pintada: “Malditos moros, sois peor que las serpientes. Venís a matar a Europa. Sois la scoria [sic] de la humanidad”. ¿El fatídico 11-M nos hará más endogámicos, racistas, xenófobos?
—Bueno, hasta ahora se ha dado una lección, ¿no? A pesar de que la gente tiene un poco más de miedo, aquí no ha habido linchamientos de moros ni nada parecido, y se puede pasear por Lavapiés… El peligro es muy gordo. Basta con leer a Oriana Fallaci, que dice lo mismo que esa pintada que tú has leído, pero sin faltas de ortografía. Incluso, más agresivamente. Creo que eso de la lucha de las civilizaciones es un absoluto error, volver a las cruzadas o a no sé qué. La política está para arreglar las cosas, no para liarse a bombazos a la primera de cambio.

—“Yo me bajo en Atocha, yo me quedo en Madrid” [fragmento de su canción Yo me bajo en Atocha, escrita en 1998]. ¿Ahora más que nunca?
—[Medita un rato largo]. Sí, porque además en esos días terribles hubo por lo menos cinco personas a las que fui a visitar porque tenían que ver no conmigo, sino con mis canciones: hablo de muertos, de viudas… de una cosa atroz y espantosa. Y luego también gente que ponía eso y que me mandaba e-mails diciendo: “Yo me bajo en Atocha, yo me quedo en Madrid”. Realmente yo no hago canción con la menor vocación de himno y mucho menos de responso, pero fue muy emocionante.

—¿Cómo resultó ese pésame a las familias de los fallecidos?
—Es que eran casos muy distintos… De cinco casos, a uno que estaba vivo de milagro lo fui a ver, y fue muy emocionante. Le mandé flores y hablé con la viuda de otro, y he hablado por teléfono con dos o tres más. Pero era terrible. Era como dedicarse a pompas fúnebres, con gente que podían haber sido amigos míos y no tuvieron ni la oportunidad de serlo. Fue terrible. Estoy muy orgulloso de ser madrileño, como lo estamos todos, por el modo en que se ha movilizado la gente. Fue impresionante el primer día… ¡todo! El “pásalo”, la votación… Nada más lejos de mí que creer que esta ciudad era tan maravillosa.

—¿Has hablado con tus hijas, de 12 y 14 años, del 11-M?
—Sí. Incluso cuando llamé a una de las viudas, les hice a mis hijas que se pusieran en el otro teléfono y lo escucharan. Mis hijas son muy cívicas. Estuvieron conmigo en la gran manifestación contra la guerra de Irak. Como estuvo su abuelo, el ex ministro [Alberto Oliart]; como estuvo Pepa [la histórica asistenta de Joaquín], la hermana de Pepa, Jimena [su novia], mi secretaria peruana, la madre de mis hijas… El 90 por ciento del país. Mis hijas van teniendo una conciencia del mundo en el que viven. Lo que pasa es que luego, en esos colegios caros donde andan, hay unos nuevos cachorrillos de fascistas que van a discotecas fascistas donde se pone el Cara al sol. Pero puertas al campo no se le pueden poner: o vale el ejemplo y el entorno, o no vale nada.

—A propósito de tus hijas, siempre he tenido la duda de si alguna vez llegaste a cambiarles los pañales.
—No, nunca, nunca. Eso estaba resuelto y yo no era un padre vocacional ni nada. Me encontré con unas hijas fantásticas y tal, pero no empecé a hablar con ellas hasta que supieron hablar bien. Yo no sé cómo dirigirme a la infancia.

—¿Llegarás a tener algún hijo más?
—No creo. No lo sé, pero no creo. Aunque uno es un caballero y le pondrá su apellido a lo que venga [risas de cierre].

RF
2004-12-15
 
Ahora que...(Joaquín Sabina, 1998)
Ahora que nos besamos tan despacio,
ahora que aprendo bailes de salón,
ahora que una pensión es un palacio,
donde nunca falta espacio
para más de un corazón...
Ahora que las floristas me saludan,
ahora que me doctoro en lencería,
ahora que te desnudo y me desnudas,
y, en la estación de las dudas,
muere un tren de cercanías...
Ahora que nos quedamos en la cama,
lunes, martes y fiestas de guardar,
ahora que no me acuerdo del pijama,
ni recorto el crucigrama,
ni me mato si te vas.
Ahora que tengo un alma
que no tenía.
Ahora que suenan palmas
por alegrías.
Ahora que nada es sagrado
ni, sobre mojado,
llueve todavía.
Ahora que hacemos olas
por incordiar.
Ahora que está tan sola
la soledad.
Ahora que, todos los cuentos,
parecen el cuento
de nunca empezar.
Ahora que ponnos otra y qué se debe,
ahora que el mundo está recién pintado,
ahora que las tormentas son tan breves
y los duelos no se atreven
a dolernos demasiado...
Ahora que está tan lejos el olvido,
ahora que me perfumo cada día,
ahora que, sin saber, hemos sabido
querernos, como es debido,
sin querernos todavía...
Ahora que se atropellan las semanas,
fugaces, como estrellas de Bagdad,
ahora que, casi siempre, tengo ganas
de trepar a tu ventana
y quitarme el antifaz.
Ahora que los sentidos
sienten sin miedo.
Ahora que me despido
pero me quedo.
Ahora que tocan los ojos,
que miran las bocas,
que gritan los dedos.
Ahora que no hay vacunas
ni letanías.
Ahora que está en la luna
la policía.
Ahora que explotan los coches,
que sueño de noche,
que duermo de día.
Ahora que no te escribo
cuando me voy.
Ahora que estoy más vivo
de lo que estoy.
Ahora que nada es urgente,
que todo es presente,
que hay pan para hoy.
Ahora que no te pido
lo que me das.
Ahora que no me mido
con los demás.
Ahora que, todos los cuentos,
parecen el cuento
de nunca empezar.


Comentario: Del disco "19 días y 500 noches" una perla dónde las haya.


RF

 
De querer ser a ser-lo
Em poucos meses de governo socialista se está realizando uma revolução social branda em Espanha.

Processo de legalização abrangente da situação de emigrantes ilegais.
Direito de casamento e adopção a casais homossexuais.
Liberalização da investigação científica com células mãe.
Revisão da situação do ensino de religião nas escolas.
Desburocratização dos trâmites do divórcio.
Começa-se uma discussão sobre a regulação da eutanásia.
Penalização específicamente agravada da violência contra a mulher, e várias medidas de prevenção contra a mesma.
Abertura da discussão para uma revisão constitucional com vista a reformular o estatuto das autonomias regionais espanholas. Este último, um problema específicamente espanhol. E, para Espanha, o mais complicado de todos e o que exige maior coragem e cuidado.
Tudo isso além dos acontecimentos como a saída de tropas do Iraque, e retirada da aliança militar invasora do Iraque.

É a transformação da vontade de querer ser um dos povos mais civilizados do mundo em começar a realmente ser-lo. E isso depois de um atentado terrorista islâmico em larga escala que á partida se pensa que levaria na maior parte dos lugares deste mundo a um endurecimento do regime com medidas conservadoras. Mas não. Se eles, os terroristas atacavam a civilização ocidental, os espanhóis sensatamente decidiram ser mais ocidentais que nunca. Muito, mas mesmo muito poucos países serão tão ocidentais como essa Espanha pós 11 de Março que vai surgindo.

E Portugal? Antes se falava da Suécia, lá longe, quase no Polo Norte e se dizia que estávamos muito longe da vanguarda da civilização ocidental. Agora portugueses cada vez mais será mais dificíl manter-se esta desculpa. Está mesmo aqui ao lado. Basta querer, querer de verdade.
RF
 
Dores soltas
De vez em quando vejo a Fox News. Todos temos algo de masoquistas, e eu não sou excepção. A minha última sessão de dor veio depois de ver a análise que se realizou neste canal de resultados de uma sondagem da opinião pública de vários países sobre os americanos. Desde Espanha com recordes de "antiamericanismo" até Canadá ou Austrália mais ou menos no extremo oposto. Não vi os valores sobre Portugal, nem pude ver quem tinha realizado esta sondagem.

Mas finalmente vêem "as conclusões" o apresentador diz que se nota que os países que participaram na guerra mostram ter opiniões populares mais favoráveis aos americanos, o que era verdade apenas de uma forma muito ligeira. E depois Espanha que é a peça que não encaixava no puzzle. "Porquê o país que inclusive sofreu um atentado como os Estados Unidos demonstra ter uma opinião tão desfavorável em relação a nós?" O "analista europeu" da Fox responde mais ou menos isso: "Acontece que os socialistas fizeram uma campanha antiamericana muito dura e os espanhóis parecem que foram sensíveis a ela". O apresentador: "Então é aí que devemos situar as bases do antiamericanismo europeu: nos socialistas europeus, correcto?" O "analista": "Exacto."

Os factos são que Espanha e os espanhóis já estavam profundamente contra a guerra antes mesmo da invasão se concretizar. As manifestações em Espanha em contra da guerra em todas as cidades espanholas das mais pequenas ás mais grandes foram multidinárias sempre e desde o primeiro momento. Isto se mostrou e se disse no seu momento por toda a Europa e imagino que também nos Estados Unidos. Os socialistas apenas participaram e rentabilizaram politicamente este estado de coisas da sociedade civil, e que era muito mais profundo que qualquer superficialidade partidária.

Depois disso Espanha e os espanhóis deram uma lição ao mundo em geral, ao optarem pela moderação perante o ataque islamista. Se bem que esta opção deverá pelo menos tanto à gestão partidária fascínora do governo popular nos dias posteriores ao atentado e que antecederam as eleições, como à recusa do povo espanhol a guerra de Iraque. Estados Unidos (mas também Portugal, e Inglaterra, e Itália...) resolveu apresentar uma decisão democrática do povo espanhol, democrática e politicamente perfeitamente válida, como uma rendição aos terroristas. Rendição? Quando precisamente a eficiência dos serviços policiais e secretos espanhóis na perseguição de "verdadeiros terroristas islâmicos" depois do atentado tem poucos competidores no mundo. Há que dizer-se que isso não se deveu a uma mudança por causa do atentado e apenas se manteve verdade o que já o era antes do atentado.

Todo este desprezo dos americanos pela sociedade civil espanhola veio do governo norte-americano e não da sua sociedade. Mas a reeleição por maioria do presidente Bush termina inevitavelmente por dar razão ao antiamericanismo espanhol. É de notar que os socialistas sempre tiveram o óbvio cuidado de separar a sociedade civil americana do seu governo. O que não é verdade para o povo espanhol, apenas porque este realmente não tem obrigações de Estado na hora de dizer o que pensa.

O que a dor pelas ordinarices da Fox News também me fizeram pensar, foi em como é possível que tal distorção consciente e politicamente descarada da realidade em um canal de informação jornalistíca de dimensão nacional possa ocorrer dia atrás dia, como se nada, em um país democrático. E este é o canal de informação com mais sucesso nacional em Estados Unidos. O que ele parece e digo de modo totalmente desapaixonado é a agência de (des)informação de uma ditadura qualquer.

Este monstro do parcialismo e da desinformação total, que é a Fox, é privado. E isto deveria ser sempre lembrado a propósito das discussões em países europeus sobre a privatização total dos canais televisivos com base em argumentos de independência dos órgãos de informação. Por mais que os canais estatais europeus possam por vezes ser tendenciosos, nunca vi nada de parecido com a Fox News, a não ser vendo a Fox News.

A verdade é que ficamos então com que pelo menos um pouco mais de metade dos Estados Unidos tem a visão do mundo que fontes como este ditoso canal lhes dão. A verdade é que tudo isso é demasiado parecido com o Irão.

Com a rima das duas últimas frases, me lembro, muito a propósito, de um samba brasileiro antigo*: "Para quê rimar amor e dor?"
RF

* Mora na Filosofia - Monsueto Menezes, Arnaldo Passos

2004-12-14
 
Portuga (Cazuza)
Eu sou um "portuga" burro
E tenho mil caravelas na cabeça
Juntou com preto e com índio
Mas no fundo é "portuga"
Com seus sonhos de mar
Seu destino de fado
A eterna espera na praia
E a coragem de enfrentar tormentas

Eu sou "portuga" com meu dinheirinho contado
E meu gosto pela desgraça
Pelo meu corpo peludo
Pelo meu amor pelo acaso
Vou ter um dia uma mulher valente
Que vai ser a leoa da casa
E Portugal, África e Brasil
Vão ser uma grande comunidade

Se fala mais português que japonês, sabiam?
Se fala mais português que japonês, sabia?
E a gente vai se impor no mundo
O vinho, o fado, o porto
Sou triste, quase um "portuga" triste
Mas as vezes bebo e danço
E sou doce como um toucinho do céu

Portugal, meu útero
Acorda com os teus filhos
E vamos embarcar de novo
Nas novas caravelas
Vamos dominar o mundo
Só que de um modo mais belo
Só que de um modo mais belo

A liberdade já chegou em Angola
E vai chegar no Brasil
Mistura a culpa do teu fado
Com a alegria que veio da África
Mas, "portugas", esqueçam
Esse destino de fado
Mas, "portugas", esqueçam
Esse destino de fado

É preciso mudar e lutar
Eu acredito na força do português
No mundo do português burro no mundo
Porque a grande piada é o Brasil…

RF
2004-12-13
 
Anedotas Sinistras
"Nós, a diferença dos americanos do norte e de quase todos os europeus, não nos identificamos com o Estado. Isso pode-se atribuir ao facto geral de que o Estado é uma inconcebível abstração. O Estado é impessoal: nós só concebemos relações pessoais. Por isso, para nós, roubar dinheiros públicos não é um crime. Somos indivíduos, não cidadãos: Aforismas como o de Hegel - Estado é a realidade da idéia moral - nos parecem anedotas sinistras."
(Borges sobre a Argentina)
RF
 
Nossa Carolina em Londres setenta - Caetano Veloso, 1970
Nelson Rodrigues disse que o povo brasileiro e a janela e o povo brasileiro na janela etc. etc. E Nelson Rodrigues é um poeta laureado, condecorado. Entretanto as janelas, mesmo no Brasil têm servido para fins menos líricos do que aqueles aos quais ele se refere. Atenção para as janelas no alto. As feras do Saldanha. A Avenida Presidente Vargas. O bicho brasileiro na janela. Eu gostaria de contar ao Chico Buarque de Hollanda a história da Carolina, de dizer como a história da Carolina é parecida com a história da Gatinha Manhosa. Eu um dia pensei que a música brasileira estava num beco sem saída. Então eu saí da música brasileira e caí na vida, como acontece frequentemente com as mocinhas sergipanas que vêm morar em Salvador. E aí eu me apaixonei pela gatinha manhosa e, algum tempo depois, com meu coração volúvel do signo de Leão, pela Carolina. Eu gostaria de contar, mas não tenho talento para narrar coisas tim-tim por tim-tim. Oh God, please, don't let me be misunderstood. Devagar. Na terra de um dos seus sambas Chico Buarque contrapõe a lua e a televisão, a rua e a sala. Digamos que eu, vivendo na miséria cultural brasileira, estou nessa sala, vendo televisão. A minha irmã Carolina está na janela vendo a rua e o meu amigo Chico está na rua, vendo a lua. A minha namorada Carolina está no vídeo e o meu inimigo Chico está no vídeo. Eu estou na rua, a minha desconhecida Carolina está na janela e o meu amigo Chico está no vídeo. Permutações simples de três termos complexos. Nelson Rodrigues está no vídeo. Impermutável. O fato é que hoje eu já não penso que a música brasileira está num beco sem saída. Ao contrário, acho que só tem havido saídas. E nada mais. A tropicália tinha uma musa (uma senhora cujo nome eu não posso dizer) e uma antimusa (a Carolina). Talvez se eu dissesse o nome da musa alguém viesse a entender o significado da antimusa. Mas já há saídas demais. Não é possível nenhuma tropicália. Não procure entender nada. Chega de confusão. Sabe o que é que eu acho? - eu acho que você não precisa saber da piscina, nem da gasolina, nem da margarina, nem da Carolina. Eu gosto de Jorge Ben, de Roberto Carlos, de Chico Buarque de Hollanda, de Caymmi, de "Chuvas de Verão", de "Nazarin", de diversas coisas. Don't think twice, it's all right, mo, I'm only bleeding. Podemos ser amigos, simplismente; coisas do amor nunca mais. Eu bem avisei: vai acabar. De tudo lhe dei para aceitar. Mel versos cantei para agradar. E agora não sei como explicar. Lá fora, amor: eu vi em Kings Road, no "Picasso" eu vi a inglesa deslumbrante. Ela veio e sentou na mesma mesa que eu e na minha frente. Ela nem me viu. Usou meu fósforo e, quando vagou uma outra mesa, ela se mudou para lá. Eu fiquei pequenininho cantando a Carolina bem baixinho como em brasileiro. Tenho certeza que nem as crianças que cantaram esse samba nos programas de calouros da televisão souberam tão profundamente como eu a beleza da Carolina. Eu sou brasileiro, os meus olhos costumam se encher de água, eu sou humilde e miserável, estou na janela. Como na Alfama, em Santo Amaro, Évora, Cachoeira. Eu sou amável e terno, medroso. Eu sou lírico como Vinícius de Morais, com Erasmo Carlos. Eu sou manhoso e dengoso. Não há salvação para mim. Nelson Rodrigues é um poeta laureado. Condecorado.
(Caetano Veloso in Alegria, Alegria Rio de Janeiro: Editora Pedra Q Ronca, 1977)
RF
 
O que quer, o que pode esta língua?

RF
 
Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões*
No Brasil ninguém se lembra de lamentar pela morte da língua. No Brasil eles dobram tudo. John Wayne diz com sotaque paulista duro: "aquele cara!" E eles dizem AIDS.
Em Portugal eles gostam de dizer que a língua está morta, que está morrendo, e dizem SIDA. E eles gostam que John Wayne lhes diga "that guy", e que eles entendam sem quase ter que ler as tristes palavras brancas que dizem por baixo: "aquele gajo!".
Eu gosto que em Portugal se diga que a língua está morta, e de ouvir o John Wayne dizendo "that guy" sem quase ter que ler "aquele gajo" por baixo, e de dizer SIDA e não AIDS. Gostava e gosto, quando estou no Brasil, de ouvir "aquele cara!" com sotaque paulista da boca do John Wayne e que ninguém diga ao meu lado que a língua está morta.
Gosto que a sombra consoante europeia da minha língua exista e que seja assim, muito mais pequena, que a sua luz própria mulata vogal.
Mas agora me vêem dizer que a sombra se pode encher de luz crioula e sabem o que vos digo? Que eu gosto também.
RF

*Caetano Veloso - Língua

 
O cordel da coisa
Através do Nuno, companheiro de Universidade nosso, descobri este texto. Se bem que não concorde absolutamente com ele, e já explico porquê vale a pena ler-lo.
Não concordo absolutamente porquê a tese central de que tudo houvesse sido previsto e portanto previamente planeado por Durão Barroso falha num facto central. É que é precisamente Durão um dos que terminam por sair mais afectados por toda a história, logo em seguida a Santana Lopes, e mais que, inclusive, Paulo Portas. E portanto, ou houve falha de cálculo por parte de Durão de todos os efeitos da sua decisão, ou, o que realmente acho mais provável, ele achou que de uma maneira ou de outra Santana Lopes não era tão mal como alguns do seu partido lhe diziam que era.
O cálculo esteve no Presidente da República, e ainda acredito que a esquerda depois de chegar ao poder terá tempo de dar o crédito que Sampaio merece, e recuperar a sua imagem a nível do Partido Socialista e do país. Porque a gestão praticamente perfeita desta crise a ele e só a ele lhe deve ser agradecida.
Não creio que exista por parte da direita nos próximos tempos o desejo sincero de perdoar a Durão Barroso a sua saída de governo. E os primeiros passos dados pela sua gestão não alguram que ele venha a ter a capacidade pessoal e outorgada desde Bruxelas suficientes para recuperar a sua imagem a nível nacional e europeu.
RF
2004-12-03
 
Faz muito, muito pouco tempo

Faz mais ou menos uma geração atrás ainda existia nos Estados Unidos da América um sistema legal de apartheid que legalizava os maiores abusos dos direitos humanos imagináveis, e permitia e protegia crimes contra a humanidade em toda a regra. Era uma das democracias mais parecidas com uma ditadura do mundo. Ao mesmo tempo que "lutava" contra os assassinos do Holocausto judeu a América ainda não havia saído totalmente do seu Holocausto negro.
Faz muito, muito pouco tempo.
RF



2004-12-02
 
Sampaio
Andei sempre um pouco aturdido por não haver visto em nenhuma parte a análise que sempre me pareceu a mais óbvia sobre a gestão de Sampaio da questão do governo Santana. Finalmente li a conjectura que no entanto em minha opinião aparece tarde em um tom demasiadamente de conjectura. Falo de Luis Rainha do BDE, e que me levou a descobrir que afinal me havia escapado o post que buscava.
Podemos vêr esta hipótese, que sempre foi como interpretei a gestão de Sampaio, de uma maneira partidista como o vê Luis Rainha, ou de uma maneira "presidenciável", que é como eu o vejo. Pura e simplesmente, não estavam reunidas condições na oposição e na própria coligação de direita para uma alternativa viável/elegível, e para isso não valia a pena arriscar-se a convocar eleições.
No caminho Sampaio foi vilipendiado um pouco por todo lado pela esquerda e pela blogosfera em geral. Mas tinha razão e por isso eu nunca o critiquei. É de saudar que pelo menos no Blog de Esquerda já se ouviu uma voz que se deu conta do engano. Provavelmente outras vozes como a do Daniel Oliveira do Barnabé "não se davam conta", porque olhavam a coisa não do ponto de vista do país mas do seu partido, que seria talvez o mais beneficiado por uma convocatória mais antecipada das eleições.
São nestas alturas que um Presidente da República competente e responsável prova para quê existe.
RF

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