Estrangeiros no momento
2004-12-15
 
Dores soltas
De vez em quando vejo a Fox News. Todos temos algo de masoquistas, e eu não sou excepção. A minha última sessão de dor veio depois de ver a análise que se realizou neste canal de resultados de uma sondagem da opinião pública de vários países sobre os americanos. Desde Espanha com recordes de "antiamericanismo" até Canadá ou Austrália mais ou menos no extremo oposto. Não vi os valores sobre Portugal, nem pude ver quem tinha realizado esta sondagem.

Mas finalmente vêem "as conclusões" o apresentador diz que se nota que os países que participaram na guerra mostram ter opiniões populares mais favoráveis aos americanos, o que era verdade apenas de uma forma muito ligeira. E depois Espanha que é a peça que não encaixava no puzzle. "Porquê o país que inclusive sofreu um atentado como os Estados Unidos demonstra ter uma opinião tão desfavorável em relação a nós?" O "analista europeu" da Fox responde mais ou menos isso: "Acontece que os socialistas fizeram uma campanha antiamericana muito dura e os espanhóis parecem que foram sensíveis a ela". O apresentador: "Então é aí que devemos situar as bases do antiamericanismo europeu: nos socialistas europeus, correcto?" O "analista": "Exacto."

Os factos são que Espanha e os espanhóis já estavam profundamente contra a guerra antes mesmo da invasão se concretizar. As manifestações em Espanha em contra da guerra em todas as cidades espanholas das mais pequenas ás mais grandes foram multidinárias sempre e desde o primeiro momento. Isto se mostrou e se disse no seu momento por toda a Europa e imagino que também nos Estados Unidos. Os socialistas apenas participaram e rentabilizaram politicamente este estado de coisas da sociedade civil, e que era muito mais profundo que qualquer superficialidade partidária.

Depois disso Espanha e os espanhóis deram uma lição ao mundo em geral, ao optarem pela moderação perante o ataque islamista. Se bem que esta opção deverá pelo menos tanto à gestão partidária fascínora do governo popular nos dias posteriores ao atentado e que antecederam as eleições, como à recusa do povo espanhol a guerra de Iraque. Estados Unidos (mas também Portugal, e Inglaterra, e Itália...) resolveu apresentar uma decisão democrática do povo espanhol, democrática e politicamente perfeitamente válida, como uma rendição aos terroristas. Rendição? Quando precisamente a eficiência dos serviços policiais e secretos espanhóis na perseguição de "verdadeiros terroristas islâmicos" depois do atentado tem poucos competidores no mundo. Há que dizer-se que isso não se deveu a uma mudança por causa do atentado e apenas se manteve verdade o que já o era antes do atentado.

Todo este desprezo dos americanos pela sociedade civil espanhola veio do governo norte-americano e não da sua sociedade. Mas a reeleição por maioria do presidente Bush termina inevitavelmente por dar razão ao antiamericanismo espanhol. É de notar que os socialistas sempre tiveram o óbvio cuidado de separar a sociedade civil americana do seu governo. O que não é verdade para o povo espanhol, apenas porque este realmente não tem obrigações de Estado na hora de dizer o que pensa.

O que a dor pelas ordinarices da Fox News também me fizeram pensar, foi em como é possível que tal distorção consciente e politicamente descarada da realidade em um canal de informação jornalistíca de dimensão nacional possa ocorrer dia atrás dia, como se nada, em um país democrático. E este é o canal de informação com mais sucesso nacional em Estados Unidos. O que ele parece e digo de modo totalmente desapaixonado é a agência de (des)informação de uma ditadura qualquer.

Este monstro do parcialismo e da desinformação total, que é a Fox, é privado. E isto deveria ser sempre lembrado a propósito das discussões em países europeus sobre a privatização total dos canais televisivos com base em argumentos de independência dos órgãos de informação. Por mais que os canais estatais europeus possam por vezes ser tendenciosos, nunca vi nada de parecido com a Fox News, a não ser vendo a Fox News.

A verdade é que ficamos então com que pelo menos um pouco mais de metade dos Estados Unidos tem a visão do mundo que fontes como este ditoso canal lhes dão. A verdade é que tudo isso é demasiado parecido com o Irão.

Com a rima das duas últimas frases, me lembro, muito a propósito, de um samba brasileiro antigo*: "Para quê rimar amor e dor?"
RF

* Mora na Filosofia - Monsueto Menezes, Arnaldo Passos


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