Estrangeiros no momento
2004-12-17
 
Lars Von Trier
Revendo Dogville de Lars Von Trier voltou a me assaltar a dúvida: porquê raios não termino de realmente gostar, e somente apreciar, o cinema dele?
Existe uma excepção: "Os Idiotas", do qual realmente gosto. E lhe reconheço o gênio na desmontagem das técnicas, dos limites da artesania da coisa. Mas gostar-gostar, não gosto.
Existe uma ingenuidade do pensamento de Trier que não termina nunca de casar com a pretensiosidade dos temas, e do tratamento destes temas, que invoca para a sua obra. E provavelmente gosto de "Os Idiotas" porque é a obra, creio que mais instintiva, e menos reflexiva, do senhor. O que prova que é no caminho do instinto á reflexão que Trier se perde, ou melhor, se torna mais medíocre.
É a mediocridade da reflexão de Trier que não combina com a pretensão reflexiva da sua obra.
A combinação de pensador e artista é raramente feliz, e é o melhor caminho para que um artista com talento desperdice este mesmo talento. Claro que os que são felizes ao tentar-lo ganham o reino dos céus. Mas pensando bem, também é verdade que realmente em todos os casos em que penso, eles nunca se esquecem de que a sua reflexão só é válida como instinto, como arte, e de uma maneira ou de outra tornam isto claro na sua obra. Penso em Musil, em Gombrowicz, em Kundera. Todos de literatura, ninguém do cinema. Mesmo o Bergman mais interessante é o mais instintivo.
Mas isto de que quem exercita o seu instinto escrevendo alcance mais facilmente com sucesso, mesmo que por apenas um pequeno lapso de tempo, o outro lado do rio, do que quem o faz vendo, faz provavelmente parte do estado natural de todas as coisas.
Dito isto continuarei vendo Lars Von Trier porque aprecio.
RF


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