Estrangeiros no momento
2004-12-16
 
Quem é mais Europa?
Para os que em geral desde a direita portuguesa dizem que a ampliação da Europa até a Turquia a leva mais para lá daquilo que são as suas fronteiras naturais, geográficas, culturais, blá, blá, e que isso põe em causa o projecto europeu, a sua cultura, a sua estabilidade, blá, blá, blá: A Turquia é históricamente mais Europa que Portugal.
Portugal apenas esteve cerca do centro e do motor histórico europeu durante dois séculos mais ou menos por volta do Renascimento. A Turquia foi sempre estando desde dos gregos até o século passado.
Pelo território da Turquia (e em particular pela sua capital cultural Istambul) passou metade do que foi importante na história da Europa: gregos (Istambul na verdade teve 4 nomes e não 3: os ingleses distinguem isso chamando Bizantion grega e Bizantium latina), romanos (Lisboa por exemplo nunca foi uma capital do império romano), passou por ela e desde ela a Igreja Ortodoxa e a definição de boa parte daquilo que hoje vemos nos estados europeus eslavos e em Grécia, incluindo o alfabeto russo que é uma invenção turca, passou por ela a economia europeia medieval (a "moeda turca" de Constantinopla é chamada de dólar medieval), o império otomano, a perseguição de gregos e armênios (e a tragédia do genocídio destes últimos que inspirou a Hitler no seu Holocausto), a primeira e a segunda guerra mundial. A história turca anda sempre á volta de guerras européias, e toca Ásia pouco mais que a história europeia em geral a toca.
Assim que a intenção de isolar Turquia fora de Europa é a intenção de isolar Europa no cristianismo, no anti-islamismo. É infundada e pura xenofobia, seja ela cultural, racial ou econômica (como diz o Caetano "quase pretos de tão pobres"). O medo pela dimensão do país não se justifica numa Europa que teve a coragem política de expandir-se a Leste. E existiam tantas ou mais razões políticas e geo-estratégicas para o alargamento a Turquia como para o Leste europeu.
Outra coisa é que Turquia tem um caminho e os anos suficientes para o fazer na tarefa de completar as suas reformas em termos de liberdades civis. Quem estará aqui em 2020 para ver?
RF


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