Estrangeiros no momento
2005-01-05
 
Ano novo, vida nova...
Meus últimos dias de 2004 e os primeiros de 2005 os passei com Mayte em Istambul, lugar geográfico perfeito para a morte lenta de impérios. Impérios tão diferentes e tão parecidos, onde a mesma carne de que somos feitos nasce, apodrece e morre, uma e outra vez. Um lugar talvez um pouco cansado de tantos séculos do mesmo. Existem lugares onde aconteceram demasiadas coisas e por isso se cansaram. Ou não, e o cansaço não está no que vejo, mas em mim que vejo o mesmo e infelismente não vejo que este mesmo se canse.
Passeio com Mayte por Kumkapi, um bairro costeiro de Istambul de onde se pode ver o mar de Marmara entre os restaurantes e as tendas de peixe fresco. É dia 2, véspera de voltar, e estou já acostumado ao assédio dos vendedores e dos porteiros dos restaurantes. A táctica é sempre a mesma: não responder, não olhar-lhes nos olhos enquanto vão perguntando se sou espanhol, grego, italiano, ou françês sem nunca acertar… Fora de Portugal, Portugal existe pouco… Mas este que agora nos persegue parece especialmente aborrecedor, há algo de desafiador na sua voz, e uma raiva que aumenta com o meu silêncio. Finalmente espeta: “Are you kurdish? You are kurdish, right? Yes, I think you are kurdish.” Eu levanto os olhos com uma raiva instintiva, agora sim os nossos olhares se cruzam, ele conseguiu o que queria, e se afasta sorrindo.
Ele sabia óbviamente que eu não era kurdo, apenas havia utilizado esta identidade nacional, que contra-vontade não o é, como forma de ofensa. Nunca havia ouvido um turco utilizar ali esta palabra por via escrita ou oral até aquele momento. Minto, no museu arqueológico de Topikapi um solitário responsável pela livraria do museu a havia utilizado, quase subversivamente, a propósito de um CD de música tradicional que ele me aconselhava comprar, e que depois de comprar e trazer para o hotel, verifiquei que tal como quase já suspeitava, no seu interior, o texto em inglês não se referia nunca a este termo, mas sim ao de turcos da Anatólia Oriental… Agora aquele turco me demonstrava para o quê lhe haviam ensinado a guardar aquela palavra. Para os insultos.
Lembro-me agora de uma noite em um centro comercial no Saldanha em Lisboa. Em um quiosque um homem com rasgos do sudeste asiático (paradoxa ironia que me lembre desta história agora…) lê mais ou menos descaradamente o jornal aberto sem o comprar. A vendedora normalmente lhe diz que ele deverá comprar o jornal para poder ler-lo. Ele lhe responde que quem ela pensa que ele é. Que ele é oriental, não é negro, e que a um oriental ela não pode tratar da mesma maneira que a um negro. O mesmo nojo sideral me subiu á cabeça então.
De volta a Istambul, depois do incidente fomos comer um bom peixe na brasa em um restaurante da zona onde não havia porteiros aborrecedores e tanto quanto pude notar, naquela noite, era somente frequentado por turcos. Tentei lembrar-me para compensar a azia espiritual que sentia da beleza etérea do passeio da tarde pelas muralhas e antigas casas em ruínas de estilo otomano, ouvindo as vozes que chamavam a oração desde os alminares das várias mesquitas próximas. A verdade é que terminei pensando saudosamente na Marrakesh de um ano atrás, no seu céu de Inverno luminoso tão diferente do cinzento Dezembro de Istambul. Não, não era o mesmo, mas pelo menos aqui havia os mosaicos de Chora, em que um Cristo, a respirar séculos pelas suas cores perfeitas, me dizia com seu olhar, juntamente com Mayte ao meu lado: Perdoar. Perdoar a todos. Ano novo, vida nova...
RF


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