Estrangeiros no momento
2005-02-18
 
Impressões da campanha
Agora que a campanha terminou, só umas notas escritas num estilo corrido, sem preocupações de objectividade, para ler no dia de reflexão:
1) A campanha foi muito mole. O governo de Santana Lopes foi demasiado curto para gerar ódios. O seu desempenho ficou marcado pela comédia, não pela contestação. A tragédia foi evitada a tempo e as instituições mantiveram um funcionamento normal. A unica falência flagrante do estado (o concurso dos professores) já vinha de trás, nem foi objecto de campanha. O estado português revelou que consegue sobreviver sem liderança política, um pouco como sucedia repetidamente em Itália. E que a constituição fornece os meios que permitem evitar o descarrilamento quando o maquinista está morto.
2) Porém existem áreas onde a ausência de discussão dos problemas revela uma verdadeira anestesia da (ainda) oposição. A direita sempre fez da segurança pública uma sua prioridade. Ora o governo Barroso assistiu incompetentemente à maior temporada de incêdios de que há memória. E os números da criminalidade mostram que a política criminal faliu. Porque é que a esquerda não fala disto? O recente assassínio de um polícia na Cova da Moura foi recebido por Santana e Portas com apelos ao não aproveitamento político. Faz rir quando nos lembramos do escarcéu causado pelo assalto a Lídia Franco na CREL ao tempo de Guterres. É claro que neste caso a repressão policial é só um paliativo necessário mas de difícil aplicação. A pergunta que deve ser feita é porque é que a Cova da Moura ainda existe. Não há dinheiro para reconverter aquele bairro e todos os outros bairros clandestinos da Amadora. Porque é que a terceira cidade do país não existe? O que fez o famoso Ministério das Cidades, Administração Local, Habitação e Desenvolvimento Regional ( sim, o nome do bicho é MCALHDR)
3) Outras áreas onde a política deste governo não existe são a Ciência e a Cultura. Ontem o S. Carlos anunciou o fim da temporada. Hoje, o anuncio é moderado, mas é óbvio que a temporada está em risco. Hoje também se soube que Portugal ainda não pagou as quotas dos laboratórios internacionais. E mais, o orcamento actual não prevê nenhum pagamento este ano! Como classificar um orçamento que não prevê o pagamento de despesas resultantes de tratados internacionais? E se Portugal deixasse de pagar as comparticipações para a UE, NATO ou ONU? O problema é sempre o mesmo: falta de dinheiro... mas Paulo Portas tem dinheiro para encomendar submarinos, helicópteros, blindados, armar-se em recuperador das indústrias de defesa à custa dos contribuintes, ... E na campanha ninguem lhe atirou isso à cara.
4) Portas, claro, com tantas abébias dadas pelos adversários (a maior das quais pelo PSD, com o acordo pré-eleitoral), tem feito uma boa campanha. É indiscutivelmente um político inteligente, mas tem uma aura maquiavélica que não consegue ultrapassar. A outra boa campanha foi a de Jerónimo de Sousa. Como já foi amplamente notado, Jerónimo consegue gerar uma genuína simpatia. É o estalinista que nos toca o coração. Eu ainda me lembro dizer que os comunistas matavam os velhotes com uma picada atrás da orelha (eu ouvi mesmo isto, não é tanga!). As voltas que o mundo dá são muito irónicas.
5) Sofríveis têm sido as campanhas de Sócrates e Louçã. Sócrates procura passar despercebido e não discute propostas concretas. Não quer comprometer as suas hipóteses e sabe que a realização do seu programa, e a composição do governo, estão dependentes de ter ou não maioria absoluta. É a política mais prudente, e mais inteligente para quem está na sua posição. Tem o meu apoio, mas não fez nada para o conquistar. E, de facto, não me conquistou, mas também não foi rejeitado. Já Louçã torna-se dia a dia uma figura mais irritante. Já nem consigo suportar aquela voz aspirada. Eu até concordo com muitas das propostas dele, mas não dá. É a mesma sensação que muitos eleitores americanos devem ter sentido em relação a John Kerry. E como levar a sério um político que diz não querer ir para o governo?
6) E de volta a Santana... Ontem foi entrevistado no programa da 2 "Diga Lá Excelência". Foi certamente das mais bizarras entrevistas a políticos que eu já vi. Geralmente nestas entrevistas o político procura manter o controlo e debitar a sua agenta eleitoral. Não Santana Lopes. Refastelado na cadeira, Santana manteve uma conversa com os jornalistas que se aproximou da psicanálise. Um dos jornalistas leu-lhe a inacreditavel carta que eu citei no post anterior. E perguntou-lhe se ele, que é parte do sistema político desde sempre, se achava alguém fora do sistema. Santana achava que sim, que tinha muito em comum com o povo, e até podia comparar a sua declaração de rendimentos com o jornalista. Havia uma barreira de incompreensão notória entre as duas partes, como se estivessem em realidades diferentes. Os jornalistas olhavam Santana como se olha um doente mental, quando Santana repetia múltiplas vezes que não achava ter cometido erros graves.
7) No domingo saberemos se o PS tem ou não maioria absoluta. E poderemos deixar para trás estes meses surreais
Nuno Anjos

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